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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

O tempo transformou a agressão de um acontecimento diário em um assunto que surgia apenas de vez em quando.

Ainda havia procedimentos em andamento.

Ainda existiam reuniões entre advogados.

Ainda éramos chamados para fornecer informações ou confirmar documentos.

Mas ninguém mais acordava pensando naquilo todas as manhãs.

Eu crescia.

E crescer, naquela fase da vida, significava mudar depressa.

Passei a formar frases maiores, fazer perguntas sem fim e insistir que conseguia vestir meus próprios sapatos, mesmo quando colocava o direito no pé esquerdo.

Henrique continuava sendo meu herói.

Só que eu já não corria para ele resolver tudo.

Quando dois primos discutiram comigo por causa de um brinquedo, fui reclamar.

— Eles não querem me dar.

Henrique olhou para os três.

— O brinquedo é de quem?

— Do vovô — respondi.

— Então conversem.

Eu arregalei os olhos.

— Você não vai mandar?

— Posso ajudar. Mas primeiro tenta.

Saí indignada.

Dez minutos depois, nós três tínhamos estabelecido turnos de cinco minutos.

Henrique fingiu não estar observando.

Minha mãe percebeu e sorriu.

Naquele mesmo período, recebemos a notícia de que o caso envolvendo Fernanda avançaria para uma etapa decisiva.

Os adultos evitaram discutir detalhes na minha frente.

Eu não iria a nenhuma sala cheia de desconhecidos para reviver o episódio se não fosse estritamente necessário.

As gravações, os documentos médicos e os relatos já estavam preservados.

A prioridade continuava sendo minha proteção emocional.

Fernanda, por sua vez, deixou de contestar que havia me atingido.

A discussão já não girava em torno de negar o fato.

Passou a girar em torno da responsabilização e das consequências determinadas pelo processo.

Isso alterou a postura de Henrique.

Durante meses, ele tinha carregado uma necessidade quase física de ouvi-la admitir o que fizera.

Quando soube que ela não negava mais, sentiu um alívio menor do que esperava.

— Achei que isso me faria sentir melhor — confessou ao pai.

— E fez?

— Não muito.

Meu pai assentiu.

— Porque você estava esperando que uma ação dela consertasse alguma coisa dentro de você.

Henrique ficou calado.

— Algumas coisas só você conserta — continuou meu pai.

A frase marcou o início de outra mudança.

Henrique finalmente voltou a sair com amigos.

Retomou viagens curtas de trabalho.

Parou de consultar a câmera da sala pelo celular quando estava fora de casa.

Na primeira vez em que passou dois dias em Brasília por causa de uma reunião, ligou à noite.

Eu apareci na videochamada usando um chapéu de papel.

— O que é isso?

— Coroa.

— Você virou princesa?

— Já era.

Minha mãe, ao fundo, riu.

Henrique também.

Não perguntou se eu estava segura.

Não perguntou quem estava em casa.

Não pediu para ver todos os cômodos.

Apenas conversou comigo.

Para qualquer outra pessoa, aquela chamada teria parecido comum.

Para nossa família, era sinal de que Henrique finalmente começava a confiar de novo no mundo que existia fora do alcance das próprias mãos.

O mesmo aconteceu comigo.

Numa tarde, a campainha tocou enquanto eu desenhava exatamente no mesmo tapete onde Fernanda tinha me acertado.

Levantei a cabeça.

Não corri.

Uma funcionária abriu a porta.

Era uma amiga antiga da minha mãe.

Ela se agachou a certa distância.

— Oi, Nina.

— Oi.

— Posso ver seu desenho?

Olhei para minha mãe.

Depois voltei os olhos para a visitante.

— Pode.

Continuei sentada.

Mais tarde, Henrique soube.

— E você não ficou com medo?

— Não.

— Nada?

— Ela não chegou pegando meu queixo.

Ele ficou sério por um instante.

Eu continuei colorindo.

— Eu sei quando não gosto.

Henrique sentou no chão perto de mim.

Talvez aquela frase tenha sido uma das coisas mais importantes que me ouviu dizer.

A agressão tinha tirado de mim a sensação de que eu podia perceber o perigo e agir.

Agora eu começava a recuperar isso.

Não porque todos os riscos tinham desaparecido.

Mas porque eu aprendera que podia falar, afastar-me, pedir ajuda e ser ouvida.

Quando finalmente veio a decisão judicial sobre Fernanda, meus pais a receberam sem comemoração.

Houve responsabilização formal pelo que ela tinha feito e determinações que impediam qualquer aproximação comigo durante o período estabelecido pelas autoridades competentes.

Os detalhes permaneceram fora da minha rotina.

Meu pai guardou os documentos.

Minha mãe respirou fundo.

Henrique ficou sentado em silêncio por alguns minutos.

Meu avô foi o primeiro a perguntar:

— Acabou?

Meu pai respondeu:

— A parte jurídica, por enquanto, sim.

O velho olhou para mim, que montava uma torre de blocos no chão.

— Então acabou.

Minha mãe corrigiu:

— Para ela, quando ela quiser.

Eu ouvi meu nome e levantei o rosto.

— O quê?

Todos responderam quase juntos:

— Nada.

Voltei aos blocos.

Naquele momento, o assunto que durante meses ocupou tantas conversas de adultos era apenas ruído ao fundo da minha brincadeira.

E talvez essa tenha sido a vitória mais importante até então.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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