
PARTE 8
No aniversário seguinte, meu pai perguntou o que eu queria fazer.
A família inteira esperava uma resposta grandiosa.
Depois do aquário reservado no ano anterior, meus primos começaram a sugerir parques, hotéis e até uma viagem.
Eu respondi:
— Quero bolo de morango e os golfinhos.
Meu pai riu.
— De novo?
— Eles são meus amigos.
Acabamos voltando ao aquário.
Desta vez, não houve necessidade de fechar o lugar inteiro.
Meus pais reservaram uma atividade especial adequada à minha idade e compraram ingressos para a família.
Meu avô reclamou que havia desconhecidos demais.
Minha mãe respondeu que esse era exatamente o objetivo.
— Nina pode dividir o mundo com outras pessoas.
Ele apontou para mim.
— Mas não o bolo.
— O bolo é meu — confirmei.
Naquele dia, Henrique caminhou comigo de mãos dadas apenas até a entrada.
Quando vi o tanque dos golfinhos, soltei seus dedos e corri para perto do vidro.
Ele não tentou me alcançar.
Ficou alguns metros atrás.
Um ano antes, provavelmente teria corrido imediatamente.
Agora sabia que eu podia explorar um espaço seguro sem estar presa à sua mão.
À tarde, sentei ao lado dele para comer bolo.
— Gostou?
— Gostei.
— Melhor que o aniversário passado?
Pensei bastante.
Eu não lembrava claramente de todos os detalhes do ano anterior.
— Esse tem mais gente.
— Isso é ruim?
— Não.
A resposta pareceu fazê-lo respirar melhor.
Naquela noite, meu avô me entregou uma pequena caixa.
Dentro estava o mesmo pingente de ouro que minha mãe tinha colocado em meu pescoço quando nasci, agora preso a uma corrente nova porque a antiga já estava pequena.
Ele explicou:
— Quando você nasceu, todo mundo dizia que isso ia proteger você.
Toquei o pingente.
— Protege?
Meu avô olhou para meus pais antes de responder.
— É só ouro.
Fiquei surpresa.
Ele sorriu.
— Quem protege você são as pessoas. E, quando crescer, você também vai aprender a se proteger.
Henrique ouviu de longe.
Mais tarde, comentou que nunca esperaria uma frase dessas do avô.
Meu pai respondeu:
— Nem ele.
A família inteira tinha mudado.
Não apenas por causa do que Fernanda fizera.
Mas pelo modo como fomos obrigados a pensar sobre o que significava cuidar de alguém.
Durante três anos, todos tinham celebrado o fato de eu ser a menina esperada por nove gerações.
Isso me cercara de amor.
Também começara a criar uma redoma.
O tapa de Fernanda não justificava a redoma.
Pelo contrário.
Mostrou aos adultos que nenhum muro seria alto o bastante para controlar todas as pessoas.
O que poderiam fazer era me ensinar a reconhecer limites, confiar no que eu sentia e procurar ajuda sem vergonha.
A psicóloga reduziu a frequência das sessões.
Eu ainda gostava de ir.
Principalmente porque havia uma caixa enorme de brinquedos.
Mas já não precisava trabalhar o mesmo medo todas as semanas.
Antes de encerrar uma das consultas, ela pediu que eu desenhasse minha família.
Coloquei meu avô.
Meus pais.
Henrique.
Meus primos.
Eu mesma.
Ela perguntou por que Henrique estava um pouco afastado no desenho.
Respondi:
— Porque eu estou andando.
Ela sorriu.
— E ele?
— Está olhando.
— Você gosta que ele olhe?
— Gosto.
— E se você cair?
Apontei para a figura.
— Eu levanto. Se doer muito, ele vem.
Quando a psicóloga contou essa resposta aos meus pais, Henrique precisou virar o rosto.
Minha mãe colocou a mão em seu ombro.
— Acho que ela aprendeu antes de você.
— Acho que sim.
A carta de Fernanda ainda estava guardada.
Meus pais não a tinham destruído.
Também nunca a leram para mim.
Certa vez, Henrique perguntou se deveriam simplesmente jogá-la fora.
Minha mãe respondeu:
— Ela não é nossa.
— Também não é da Nina enquanto ela for pequena demais para escolher.
— Exatamente.
Guardaram o envelope junto aos documentos do caso.
Não como segredo.
Não como promessa de perdão.
Apenas como algo cuja decisão não precisava ser tomada naquele momento.
Fernanda não voltou a procurar nossa família diretamente.
Sabíamos, pelos canais formais, que estava cumprindo o que havia sido determinado e seguindo a própria vida.
Henrique nunca tentou saber mais.
Ele não precisava que ela sofresse eternamente.
Precisava apenas que ela não se aproximasse de mim e assumisse as consequências da própria escolha.
Essa diferença levou tempo para amadurecer.
Quando saímos do aquário naquele aniversário, encontrei uma menina menor chorando perto da saída.
Ela tinha perdido a mãe de vista.
Antes que qualquer adulto chegasse, parei diante dela.
— Você está perdida?
A menina assentiu.
Lembrei das instruções que meus pais sempre repetiam.
Não peguei a mão dela.
Não prometi levá-la a lugar algum.
Apenas chamei minha mãe.
Poucos minutos depois, a família da menina foi encontrada.
Henrique observou tudo.
No estacionamento, perguntou:
— Por que você não segurou a mão dela?
Dei de ombros.
— Porque eu não sabia se ela queria.
Ele ficou em silêncio.
Então sorriu.
Era uma lição simples.
E tinha começado no pior dia da minha infância.
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