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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Quase seis meses haviam passado quando percebi, pela primeira vez, que o rosto de Fernanda começava a desaparecer da minha memória.

Eu ainda lembrava do tapa.

Lembrava do salto alto.

Lembrava da sensação da mão sobre minha boca.

Mas já não conseguia reconstruir todos os detalhes de suas feições.

A psicóloga disse aos meus pais que isso não era sinal de que o episódio tinha deixado de importar.

Era apenas a minha vida avançando.

Voltei a receber visitas sem me esconder.

Ainda não gostava que pessoas desconhecidas chegassem muito perto, mas agora conseguia dizer:

— Não quero abraço.

E os adultos da minha família aprenderam a respeitar.

Meu avô levou mais tempo.

Ele tinha o hábito de me agarrar e encher meu rosto de beijos assim que me via.

Um dia, estendi a mão diante dele.

— Hoje não.

Ele ficou tão chocado que todos na sala prenderam o riso.

— Nem um?

— Não.

— Um pequeno?

— Vovô.

Ele suspirou dramaticamente.

— Esta casa acabou com a autoridade dos idosos.

Sentou-se ao meu lado sem me tocar.

Cinco minutos depois, fui eu quem subiu em seu colo.

Meu avô lançou um olhar triunfante para meu pai.

— Está vendo?

— Ela escolheu — respondeu ele.

Esse detalhe passou a importar muito.

Escolher.

No meio daquela mudança, Henrique começou a enfrentar uma consequência que não tinha relação direta com os procedimentos jurídicos.

Ele percebeu que sua vida pessoal tinha sido construída de um jeito muito diferente da imagem que projetava no trabalho.

No escritório, analisava pessoas, riscos, contratos e decisões com extremo cuidado.

Fora dele, tinha deixado Fernanda entrar na parte mais íntima de sua vida sem perceber sinais de possessividade que, depois do ocorrido, pareciam óbvios.

Ela reclamava quando ele cancelava compromissos para ficar comigo.

Fazia comentários sobre a atenção que ele dava à família.

Chamava nosso vínculo de exagerado.

Henrique sempre interpretara aquilo como ciúme comum.

Depois do tapa, passou a revisitar essas lembranças.

Não para descobrir uma conspiração.

Mas para reconhecer o que havia ignorado.

— Ela nunca gostou quando eu falava de você — contou à nossa mãe.

— E isso não te chamou atenção?

— Eu achava que fosse insegurança.

— Talvez fosse.

Henrique franziu a testa.

— Isso muda alguma coisa?

Minha mãe balançou a cabeça.

— Explica uma emoção. Não justifica uma escolha.

A frase ficou com ele.

O mesmo princípio passou a orientar a forma como nossa família tratava todo o caso.

Fernanda poderia ter sentido ciúme.

Poderia ter acreditado em informações absurdas da internet.

Poderia ter interpretado errado fotografias ou comentários.

Nada disso alterava o momento em que tinha olhado para uma criança assustada e escolhido bater.

A família Duarte voltou a solicitar uma conversa.

Desta vez, não para pedir que desistíssemos de nada.

A mãe de Fernanda queria se desculpar pessoalmente com meus pais.

Minha mãe aceitou encontrá-la em um lugar neutro.

Meu pai foi junto.

Henrique não quis participar.

Na reunião, a mulher chorou e disse que não reconhecia a filha no comportamento registrado pela câmera.

Minha mãe respondeu com delicadeza:

— Eu acredito que seja difícil ver. Mas foi ela.

A mulher concordou.

Disse que Fernanda estava fazendo acompanhamento psicológico e que não esperava perdão.

Minha mãe não ofereceu.

Também não recusou algo que ninguém tinha direito de exigir.

Apenas respondeu:

— Espero que ela entenda por que fez aquilo e nunca repita com nenhuma criança.

Quando soube da conversa, Henrique ficou em silêncio.

Depois perguntou:

— Você acha que ela pode mudar?

Minha mãe respondeu:

— Acho que pessoas podem mudar. Isso não significa que precisamos colocá-las de volta no mesmo lugar em nossa vida.

Foi provavelmente a lição mais difícil para Henrique.

Ele tinha crescido acreditando em extremos.

Ou alguém pertencia à família e recebia tudo.

Ou alguém a machucava e deveria ser afastado para sempre.

Agora começava a perceber que distância, responsabilização e até a possibilidade de mudança podiam existir ao mesmo tempo.

Sem reconciliação.

Sem esquecimento.

Sem vingança.

Comigo, o maior teste veio em uma festa infantil.

Era aniversário da filha de uma amiga de minha mãe.

Havia muitas pessoas.

Música.

Crianças correndo.

Adultos que eu não conhecia.

Henrique estava trabalhando e não iria.

No carro, perguntei três vezes se poderíamos voltar para casa.

Minha mãe disse que sim.

— A qualquer momento?

— A qualquer momento.

Entramos.

Passei os primeiros vinte minutos segurando sua mão.

Depois vi uma piscina de bolinhas.

Soltei.

Corri.

Uma hora depois, minha mãe precisou me convencer a ir embora.

Quando chegamos em casa, encontrei Henrique me esperando.

— Foi bom?

— Muito.

— Ficou com medo?

Pensei.

— Um pouquinho.

Ele se agachou.

— E o que você fez?

— Fui brincar mesmo assim.

Henrique sorriu.

Dessa vez, não havia culpa em seu rosto.

Havia orgulho.

Não porque eu não tivesse sentido medo.

Mas porque estava aprendendo que sentir medo não precisava decidir tudo por mim.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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