
PARTE 2
Fernanda ficou alguns segundos sem responder. O sorriso que ainda restava em seu rosto desapareceu devagar, mas ela logo tentou recuperar a naturalidade. — Sua irmã? — repetiu, olhando de Henrique para mim. — Você está dizendo que essa menina é sua irmã?
Henrique não respondeu à pergunta de imediato. Primeiro me pegou no colo e me acomodou contra o peito, mantendo uma das mãos atrás da minha cabeça. Eu ainda tremia, e a cada vez que via Fernanda por cima do ombro dele, escondia o rosto novamente.
— Eu perguntei outra coisa — disse Henrique. — Como essa marca apareceu no rosto dela? Fernanda respirou fundo e afirmou que eu havia caído, insistindo que não tinha encostado em mim. Henrique olhou para os cinco dedos desenhados na minha bochecha e não discutiu.
Ele apenas perguntou: — Nina, você consegue me contar o que aconteceu? Eu abri a boca, mas olhei imediatamente para Fernanda. Meu corpo enrijeceu, e Henrique percebeu. — Ela não vai chegar perto de você — prometeu.
Foi só então que consegui sussurrar: — Ela bateu. Minha voz saiu tão baixa que quase não ouvi. — Ela falou que eu tinha que ir embora porque você era dela.
O rosto de Henrique perdeu o pouco de cor que ainda tinha. Fernanda levantou-se depressa. — Henrique, pelo amor de Deus, ela é uma criança! Você vai acreditar em qualquer coisa que ela disser? — Eu vou acreditar no medo que ela sente quando olha para você — respondeu ele.
Fernanda tentou se aproximar, mas Henrique deu um passo para trás comigo no colo. — Não chegue mais perto. — Você vai terminar comigo por causa disso? — ela perguntou, como se ainda não tivesse compreendido a gravidade do que acontecera.
Henrique olhou para a câmera instalada no teto. Só então Fernanda acompanhou o movimento dos olhos dele e viu a pequena luz vermelha. A expressão dela mudou completamente.
Henrique pegou o celular e ligou para o responsável pela segurança da casa. Pediu que ninguém apagasse, editasse ou sobrescrevesse as gravações daquele dia e solicitou uma cópia integral do período em que tinha ficado no escritório. Não fez ameaças nem levantou a voz.
Fernanda permaneceu parada perto do sofá. — Eu posso explicar. — Você acabou de dizer que não encostou nela — respondeu Henrique. — Agora quer explicar o quê?
Ela começou a dizer que tinha entendido tudo errado. Falou sobre comentários que havia visto na internet, perfis que afirmavam que nossa família não tinha nenhuma menina e fotografias em que eu aparecia ao lado de Henrique. Segundo ela, imaginara que eu fosse alguém tentando se aproveitar dele.
Henrique demorou alguns segundos para responder. — Você está olhando para uma criança de três anos. — Eu achei que ela estivesse fingindo… — Fernanda começou, mas sua própria frase pareceu absurda até para ela.
Henrique não discutiu mais. Ligou para meu pai e disse apenas que eu tinha sido agredida dentro de casa e que precisava que ele e minha mãe voltassem. Depois chamou uma funcionária que trabalhava conosco havia anos e pediu que ela permanecesse na sala enquanto ele me levava para outro cômodo.
Antes de sair, virou-se para Fernanda. — Você vai esperar aqui até meus pais chegarem. Não vai falar com a Nina e não vai tocar em nada. — Henrique, você está me tratando como uma criminosa. — Estou tratando minha irmã como alguém que precisa estar segura.
No meu quarto, ele lavou com cuidado a tinta espalhada pelo meu rosto. Quando a toalha passou perto da bochecha machucada, comecei a chorar outra vez. Henrique parou, abraçou-me e repetiu que eu não tinha feito nada errado.
Meu pai e minha mãe chegaram menos de meia hora depois. Mamãe atravessou o corredor quase correndo, mas diminuiu os passos assim que me viu, como se qualquer movimento brusco pudesse me assustar. Meu pai ficou imóvel ao perceber a marca em meu rosto.
Ninguém gritou diante de mim. Meu pai pediu que chamassem um médico de confiança para avaliar o inchaço e, enquanto isso, Henrique contou exatamente o que sabia. Quando mencionou a gravação, meu pai respondeu que primeiro cuidariam de mim e depois decidiriam o que fazer com o restante.
Fernanda tentou falar quando eles voltaram à sala. Pediu desculpas pelo “mal-entendido”, disse que não sabia que eu era irmã de Henrique e insistiu que havia perdido a cabeça. Minha mãe respondeu apenas: — Saber quem ela era mudaria o fato de ser uma criança?
Fernanda não encontrou resposta. Henrique então deixou a decisão mais clara do que qualquer grito poderia deixar. — Nosso relacionamento terminou no momento em que você levantou a mão para ela.
Quando Fernanda saiu da casa acompanhada até o portão, eu estava agarrada à camisa do meu irmão. Só depois que a porta se fechou consegui relaxar um pouco os dedos. Henrique olhou para mim e percebeu que aquela tarde não terminaria com a saída dela; para mim, alguma coisa havia sido quebrada também.
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