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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

O médico examinou meu rosto naquela mesma tarde. O inchaço era doloroso, mas não havia sinal de lesão mais grave. Minha mãe permaneceu ao meu lado durante toda a avaliação, enquanto Henrique ficou próximo da porta, quieto demais até mesmo para os padrões dele.

Quando o médico perguntou como eu tinha me machucado, repeti o que já havia contado. Não consegui explicar tudo com a clareza de um adulto, mas lembrava perfeitamente da mão em meu queixo, do tapa e da ameaça. Toda vez que pronunciava o nome de Fernanda, segurava com mais força os dedos de minha mãe.

A cópia das imagens da câmera só foi aberta depois que eu estava dormindo.

Henrique, meus pais e meu avô assistiram juntos. Nenhum deles precisou adivinhar o que acontecera. A gravação mostrava Fernanda se aproximando, segurando meu rosto, me atingindo e depois tapando minha boca enquanto eu me debatia.

Meu pai interrompeu o vídeo antes do fim.

Henrique pediu que continuassem.

Ele queria ver exatamente o que tinha permitido acontecer enquanto estava a poucos metros dali.

— Você não permitiu — disse minha mãe. — Você confiou em alguém e essa pessoa fez uma escolha.

Mas Henrique parecia incapaz de aceitar aquela distinção.

Meu avô, que normalmente era o primeiro a exigir alguma reação quando se tratava de mim, surpreendeu todos ao falar com calma.

— Raiva não decide nada. Primeiro protegemos a Nina. Depois deixamos cada responsabilidade cair sobre quem realmente a tem.

Meu pai concordou.

Na manhã seguinte, eles procuraram orientação jurídica e registraram formalmente o ocorrido. Não porque quisessem transformar aquilo em um espetáculo, mas porque uma criança tinha sido agredida e havia imagens que documentavam o fato.

Também decidiram preservar minha privacidade.

Nenhuma fotografia minha seria publicada.

Nenhum comunicado revelaria meu nome.

Nenhum funcionário da empresa seria autorizado a comentar o caso.

Henrique cancelou todos os compromissos do dia.

Quando acordei, encontrei-o sentado no chão ao lado da minha cama, com as costas apoiadas na parede.

— Você dormiu aqui? — perguntei.

Ele sorriu, mas parecia cansado.

— Fiquei por perto.

Estendi os braços.

Henrique veio me pegar, porém hesitou antes de me tocar.

Aquilo me confundiu.

— Colo.

Ele me abraçou imediatamente.

Só mais tarde compreendi que meu irmão estava com medo de fazer qualquer movimento que pudesse me assustar.

Nos dias seguintes, a marca em meu rosto começou a desaparecer. O medo, não.

Quando a campainha tocava, eu corria para trás de algum adulto.

Se uma mulher desconhecida se agachava para falar comigo, eu recuava.

Certa manhã, uma funcionária nova da casa tentou ajeitar meu cabelo e eu comecei a chorar antes mesmo que ela encostasse em mim.

Foi aí que meus pais entenderam que não bastava esperar o tempo passar.

Procuraram uma psicóloga infantil.

Nas primeiras sessões, eu quase não falei.

Brincava.

Desenhava.

Construía torres com blocos de madeira e as derrubava.

A psicóloga nunca me pressionava.

Henrique perguntava depois se eu tinha ficado bem, mas meus pais estabeleceram uma regra: ninguém faria interrogatórios sobre as sessões.

Eu tinha três anos.

Precisava voltar a ser uma criança, não me transformar no centro permanente de uma investigação familiar.

Enquanto isso, Fernanda começou a procurar Henrique.

Primeiro enviou mensagens.

Depois tentou telefonar.

Ele não respondeu.

Ela pediu que uma amiga em comum falasse com ele, alegando que tinha cometido um erro terrível e que queria se desculpar comigo pessoalmente.

Henrique recusou.

— A Nina não existe para aliviar a culpa dela — disse.

Meu pai apoiou a decisão.

A família de Fernanda também procurou a nossa.

O pai dela pediu uma conversa reservada e tentou explicar que a filha estava desesperada, que a repercussão poderia destruir sua vida profissional e que tudo tinha acontecido em um momento de ciúme.

Meu pai ouviu até o final.

Depois perguntou:

— E a minha filha? O que deveria acontecer com a vida dela para que isso parecesse proporcional?

O homem ficou em silêncio.

Meu pai deixou claro que não buscaria vingança empresarial, não faria pressão sobre os negócios da família Duarte e não usaria nossa posição econômica para prejudicá-los.

Mas também não impediria as consequências naturais do que Fernanda tinha feito.

Foi a primeira vez que percebi, mesmo sem compreender tudo, que a proteção da minha família não significava necessariamente esmagar quem me machucara.

Significava não me abandonar.

Henrique, porém, continuava diferente.

Parou de sair.

Começou a trabalhar de casa sempre que podia.

Recusava convites.

Se eu me afastava por alguns minutos, ele perguntava onde eu estava.

Uma noite, ouvi minha mãe falar com ele no corredor.

— Você não pode transformar o medo dela no seu medo.

Henrique respondeu:

— Eu estava dentro da mesma casa.

— E foi ela quem bateu, não você.

— Eu trouxe aquela mulher para perto da Nina.

Minha mãe suspirou.

— Então aprenda com isso. Mas não faça sua irmã crescer achando que o mundo inteiro é perigoso.

Henrique não respondeu.

No dia seguinte, quando fomos ao jardim, ele segurou minha mão como sempre fazia.

Porém, quando tentei correr atrás de uma borboleta, seus dedos apertaram os meus por reflexo.

Eu parei.

Olhei para ele.

Henrique percebeu.

Depois de alguns segundos, soltou minha mão.

— Pode ir.

— Sozinha?

Ele sorriu com esforço.

— Eu estou aqui.

Dei três passos.

Depois cinco.

Depois corri.

Quando olhei para trás, ele continuava exatamente onde estava.

Não tinha vindo me buscar.

Apenas me observava.

Foi um gesto pequeno.

Mas, naquela família acostumada a me proteger de tudo, talvez tenha sido a primeira mudança realmente importante depois do tapa.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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