
PARTE 9
Nos dias que antecederam a formalização do divórcio, Bruno ficou mais quieto. Não houve novas tentativas de reconciliação, nem mensagens emocionais de madrugada. A ausência delas mostrou que ele finalmente tinha entendido uma coisa que eu tentava dizer desde o começo: minha decisão não dependia de quanto ele insistisse.
Dois dias antes da data marcada, porém, ele pediu para conversar.
“Não quero mudar nada. Só quero falar antes de assinarmos.”
Dessa vez, aceitei sem impor limite de tempo.
Talvez porque já não tivesse medo de ser arrastada de volta para uma discussão sem fim.
Encontramo-nos num parque perto do centro.
Bruno estava sentado num banco quando cheguei.
Parecia mais velho do que alguns meses antes.
Não dramaticamente.
Apenas cansado.
— Obrigado por vir — disse.
Sentei na outra ponta do banco.
— O que você queria falar?
Ele ficou olhando as pessoas passando.
— A Júlia saiu da empresa.
Eu virei o rosto para ele.
— Saiu?
— Pediu demissão.
Não perguntei detalhes.
Ele continuou:
— Depois que eu mudei a estrutura e ela deixou de trabalhar diretamente comigo, ficou difícil para ela. Também ficou difícil para mim. Tudo no escritório lembrava o que aconteceu.
— E agora?
— Ela vai procurar outra coisa.
Assenti.
Era uma consequência razoável.
Não uma punição.
Talvez, para Júlia, trabalhar em outro lugar fosse até melhor do que continuar presa profissionalmente a um homem com quem tinha uma relação confusa.
— A gente não está junto — Bruno disse.
Eu permaneci em silêncio.
— Mas vou assumir tudo que preciso assumir como pai.
— Espero que sim.
Ele olhou para mim.
— Você não parece satisfeita.
— Por que eu ficaria?
— Eu achei que você pudesse pensar que ela recebeu o que merecia.
Balancei a cabeça.
— Bruno, eu queria que você me escolhesse quando nós éramos casados. Eu não preciso que você deixe de escolher ela agora para eu me sentir vencedora.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu demorei demais para entender você.
— Talvez.
— E talvez eu também tenha demorado demais para entender a mim mesmo.
Eu esperei.
— Eu gostava da atenção dela — confessou. — Gostava de me sentir necessário. Quando ela dizia que estava com medo de viajar sozinha, eu me sentia importante. Quando precisava de carona, eu me sentia importante. E eu dizia para mim mesmo que estava apenas ajudando.
Eu lembrei das mensagens.
“Não tem problema. Eu vou com você.”
Na época, aquela segurança tinha me ferido porque era a mesma que ele costumava oferecer a mim.
Agora eu entendia outra coisa.
Talvez Bruno precisasse ser necessário mais do que sabia ser leal.
— Isso não torna o que aconteceu melhor — eu disse.
— Eu sei.
— Mas talvez faça você parar de repetir.
Ele assentiu.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
Então Bruno perguntou:
— Você se arrepende de ter casado comigo?
A pergunta era difícil.
Eu poderia responder sim.
Afinal, o casamento tinha durado pouco e terminado de forma humilhante.
Mas a resposta mais verdadeira era outra.
— Eu me arrependo de ter acreditado que o casamento resolveria um problema que já existia.
Ele me olhou.
— Não me arrependo de ter amado você durante todos aqueles anos. Na maior parte deles, aquilo foi verdadeiro para mim. Eu só deveria ter levado a sério o que vi antes do casamento.
Bruno ficou com os olhos úmidos, mas não chorou.
— Eu achei que conseguiria consertar tudo casando com você.
— Eu também achei.
Talvez aquela fosse a única responsabilidade que dividíamos igualmente.
Nós dois tínhamos confundido compromisso com cura.
Tínhamos colocado um casamento sobre uma rachadura e esperado que a cerimônia a transformasse em chão firme.
Não transformou.
Antes de irmos embora, Bruno perguntou:
— Depois do cartório, você quer que eu desapareça da sua vida?
Pensei.
— Quero distância.
— Quanto?
— O bastante para a gente deixar de usar um ao outro como referência para tudo.
Ele assentiu.
— Eu consigo fazer isso.
— Espero que consiga por você, não por mim.
Levantamos.
Na despedida, Bruno abriu os braços como se pensasse em me abraçar.
Parou no meio do movimento.
Eu percebi.
Ele também.
No fim, apenas disse:
— Até quinta.
— Até quinta.
Fui embora.
Na noite anterior ao divórcio, não dormi cedo.
Não porque estivesse arrependida.
Passei horas lembrando do começo.
Do primeiro apartamento de Bruno.
Das viagens de ônibus para encontrá-lo quando éramos mais novos.
Dos anos em que ainda não existiam secretárias, suítes, contratos importantes ou casas decoradas.
Eu finalmente entendi que o luto não era apenas pelo homem que me traiu.
Era pelo rapaz que um dia tinha me amado de um jeito que eu acreditava ser suficiente.
Talvez tivesse sido suficiente naquela época.
Depois deixou de ser.
Chorei.
Sem vergonha.
Sem transformar aquilo num sinal de que eu deveria voltar.
Na manhã seguinte, acordei com os olhos inchados, tomei banho, me arrumei e fui trabalhar normalmente.
Não tirei o dia inteiro.
Pedi apenas algumas horas.
Uma colega perguntou se estava tudo bem.
— Está — respondi.
E estava.
Antes de sair do escritório para ir ao cartório, abri minha agenda.
Havia reuniões marcadas para o dia seguinte.
Uma entrega para sexta.
Um almoço com minhas colegas no sábado.
Minha vida não estava vazia esperando o divórcio terminar.
Ela já estava acontecendo.
Peguei minha bolsa e fui embora.
Do lado de fora, o céu estava limpo.
Meu advogado me esperava no local combinado.
Bruno ainda não tinha chegado.
Dessa vez, ao contrário da lua de mel, eu não estava esperando um homem decidir com quem iria viajar.
Eu só esperava a hora de assinar meu próprio caminho.
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