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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

Com o passar das semanas, minha nova rotina deixou de parecer improvisada. Eu ainda precisava consultar anotações mais vezes do que gostaria e ainda havia dias em que chegava em casa com a cabeça pesada, mas já não entrava no escritório me sentindo uma visitante. Aos poucos, voltei a ter opinião em reuniões, a antecipar problemas e a confiar no que sabia.

Meu gerente percebeu.

Certa tarde, pediu que eu assumisse parte de uma entrega que estava atrasada.

Não era uma promoção nem uma oportunidade milagrosa.

Era trabalho.

E foi justamente por ser apenas trabalho que aquilo me fez bem.

Eu precisava reaprender que valor não vinha de ser indispensável para Bruno.

Podia vir de ser competente em alguma coisa que existia completamente fora dele.

A mediação do divórcio também continuou.

Meu advogado insistia em separar duas coisas que, emocionalmente, eu tendia a misturar: o fim do casamento e a divisão patrimonial.

O casamento tinha acabado para mim.

A parte financeira precisava de paciência, documentação e negociação.

Eu aprendi a aceitar que uma coisa podia estar resolvida dentro de mim enquanto a outra ainda levava tempo no papel.

Bruno começou a colaborar mais.

Não sem resistência.

Em algumas questões, ele ainda tentava negociar cada detalhe como se ceder fosse perder.

Mas já não recusava reuniões e parou de sugerir que eu deveria esperar alguns meses antes de concluir o divórcio.

Havia outra pressão na vida dele.

Júlia.

Eu soube disso porque ele mesmo mencionou durante uma conversa sobre a casa.

— Ela quer saber se vai continuar morando lá depois que a divisão for resolvida.

— Isso é assunto de vocês.

— Eu sei.

— Então por que está me contando?

Bruno hesitou.

— Porque ela acha que você está tentando tirar a casa só para atingir nós dois.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Bruno, eu passei horas escolhendo cada detalhe daquela casa, mas não quero voltar a morar ali. Se a solução mais justa for você ficar com o imóvel e acertar comigo a parte que for definida, podemos discutir. O que eu não vou fazer é fingir que tudo já pertence a vocês antes de o processo acabar.

Ele assentiu devagar.

Parecia não ter esperado uma resposta tão objetiva.

Talvez ainda esperasse de mim algum gesto de ciúme que tornasse tudo mais simples para ele.

Seria mais confortável acreditar que eu queria a casa porque ainda queria o marido.

Mas eu já não queria nenhum dos dois.

Na empresa, a relação de Bruno com Júlia também começou a exigir uma decisão prática.

Ela tinha voltado a trabalhar diretamente com ele logo depois do casamento, mas agora a situação pessoal entre os dois já não podia ser tratada como se fosse irrelevante dentro do ambiente profissional.

Bruno me contou isso numa reunião com os advogados, quando um telefonema de trabalho interrompeu a conversa.

Ao desligar, ele comentou, quase para si mesmo:

— Eu vou precisar mudar a estrutura da equipe.

Não perguntei por quê.

Ele continuou mesmo assim.

— Não dá para ela continuar respondendo diretamente a mim.

A resposta mais antiga da minha vida teria sido perguntar por que ele só percebia aquilo agora.

Eu não fiz isso.

— Então resolva.

Bruno me olhou.

— Você não quer saber?

— Não.

E eu realmente não queria.

O que acontecesse entre ele e Júlia depois do nosso casamento deixaria de ser meu problema assim que os últimos vínculos formais fossem encerrados.

Essa percepção me deu uma tranquilidade inesperada.

Alguns dias depois, Júlia me mandou uma mensagem.

Era a primeira desde o encontro no hospital.

“Você conseguiu o que queria. Ele me tirou da equipe.”

Li duas vezes.

Depois respondi apenas:

“Essa decisão é dele e da empresa. Não minha.”

Ela digitou por algum tempo.

Nenhuma mensagem chegou.

Eu bloqueei o número.

Naquela noite, pensei no tapa que tinha dado nela.

Ainda não me orgulhava daquilo.

Eu podia ter colocado limites sem partir para uma agressão.

A diferença era que eu já não precisava fingir que qualquer atitude minha tinha sido perfeita só porque eu tinha sido traída.

Eu podia admitir meus próprios excessos sem aceitar a culpa pelos erros de Bruno.

Essa separação também fazia parte de recuperar a minha vida.

Na semana seguinte, aconteceu a segunda grande reunião de mediação.

Desta vez, chegamos a uma proposta praticamente completa.

Alguns valores ainda precisavam ser conferidos, mas os principais pontos estavam definidos.

A casa ficaria com Bruno, caso ele cumprisse a compensação acertada depois da avaliação formal.

Outros bens seriam divididos conforme os documentos e acordos construídos ao longo das reuniões.

Eu também deixei claro que não queria transformar cada gasto que Bruno tivesse feito com Júlia numa batalha interminável.

Só queria que despesas relevantes realizadas durante o casamento fossem analisadas de forma adequada dentro da negociação.

Meu advogado concordou.

Bruno pareceu surpreso.

— Você não vai atrás de tudo?

— Não.

— Depois do que aconteceu?

— Eu quero justiça, não uma ocupação em tempo integral com a sua vida.

Ele ficou em silêncio.

A mediação terminou mais cedo do que o esperado.

Na saída, Bruno veio atrás de mim novamente.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Depende.

— Você está feliz?

Olhei para ele.

Não sabia responder com um “sim” simples.

Eu ainda acordava triste em alguns dias.

Ainda sentia raiva quando lembrava de certas mensagens.

Ainda havia noites em que oito anos inteiros pareciam pesar sobre o peito.

Mas eu também tinha voltado a trabalhar.

Tinha um apartamento que começava a parecer meu.

Tinha decisões que não precisavam passar pelo filtro de outra pessoa.

— Estou ficando bem — respondi.

Bruno assentiu.

Aquilo pareceu doer mais nele do que se eu tivesse dito que o odiava.

No trabalho, recebi minha primeira avaliação depois da contratação.

Meu gerente apontou o que eu precisava melhorar e também disse que minha adaptação estava sendo mais rápida do que a equipe esperava.

Saí da sala sorrindo sozinha.

Não liguei para ninguém para contar.

Não precisava da validação de Bruno.

Não precisava provar a Júlia que eu tinha uma vida.

Naquela noite, comprei uma mesa simples para o apartamento.

Quando o entregador foi embora, sentei diante dela com uma xícara de café e abri o notebook.

Sobre a mesa havia duas coisas.

Um relatório que eu precisava revisar para o dia seguinte.

E a versão atualizada do acordo de divórcio.

Pela primeira vez, eu não soube qual dos dois papéis representava mais claramente o meu futuro.

Talvez fossem os dois.

Um encerrava o que eu não queria mais.

O outro ajudava a construir o que vinha depois.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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