
Minha madrasta quis dividir cinco imóveis entre ela e o filho — até eu descobrir que todos estavam no meu nome havia dez anos
PARTE 1
Minha madrasta me ligou.
— Júlia, venha para casa neste fim de semana.
— Aconteceu alguma coisa?
— Seu pai tem cinco imóveis. O Gabriel já está crescendo. Está na hora de a gente conversar sobre isso.
Quando Lúcia disse “conversar”, o tom dela soou muito mais como uma comunicação já decidida do que como um convite para ouvir minha opinião.
Comprei pelo celular uma passagem para sábado. Poltrona convencional junto à janela. Sete horas de viagem.
Cinco imóveis.
Lúcia estava casada com meu pai havia dez anos, e aquela era a primeira vez que falava de patrimônio comigo.
Eu também queria ouvir como exatamente ela pretendia fazer aquela divisão.
Às duas da tarde de sábado, cheguei à casa deles.
Sobre a mesa de centro havia um prato de frutas, com bananas e mexericas organizadas cuidadosamente. Lúcia só comprava frutas daquele jeito quando “precisávamos conversar sobre alguma coisa”.
Meu pai, Antônio Soares, estava sentado na ponta esquerda do sofá, segurando uma xícara de chá sem beber.
Lúcia estava do outro lado. Diante dela havia uma pasta azul aparentemente nova.
Gabriel fazia a lição no quarto, com a porta fechada.
— Chegou. A viagem foi cansativa? — Lúcia se levantou e serviu um copo de água para mim.
— Foi tranquila.
Sentei e olhei para meu pai. Ele não retribuiu o olhar. Continuou encarando as folhas de chá dentro da xícara.
Lúcia abriu a pasta e tirou uma folha com uma tabela escrita à mão.
Cinco linhas.
Um endereço em cada uma.
— Listei os cinco imóveis que estão no nome do seu pai. Dá uma olhada para ver se está certo.
Ela empurrou a folha para o meio da mesa.
Passei os olhos pelos endereços: número 128 da Rua das Palmeiras, número 19 da Rua do Carmo, apartamento 602 do bloco 3 do Residencial Jardim Leste, apartamento 1501 do bloco 7 do Vila do Sul e a casa antiga número 11 do Beco dos Ipês, na região mais velha da cidade.
— Está.
Lúcia apontou para a tabela.
— O Gabriel já tem nove anos. Está ficando grande e precisa de mais espaço. Minha ideia é deixar para ele o apartamento de três quartos do Vila do Sul. O do Jardim Leste ficaria para seu pai e para mim. O aluguel do imóvel da Rua das Palmeiras ajudaria nos estudos do Gabriel. Para você ficariam o apartamento da Rua do Carmo e a casa antiga do Beco dos Ipês.
Cinco imóveis.
Na prática, ela havia separado três e meio para ela e para o filho.
Fiz as contas mentalmente.
Um apartamento semelhante ao do Vila do Sul tinha sido vendido no ano anterior por cerca de R$ 3,8 milhões. O do Jardim Leste valia aproximadamente R$ 2,1 milhões. O imóvel comercial da Rua das Palmeiras rendia perto de R$ 12 mil por mês.
Somando o que ela pretendia reservar para si e para Gabriel, o valor passava de R$ 7,5 milhões.
O apartamento antigo da Rua do Carmo dificilmente passava de R$ 1,8 milhão.
A casa de tijolos do Beco dos Ipês era dos anos oitenta, sem qualquer previsão de valorização especial. Na melhor das hipóteses, valeria perto de R$ 500 mil.
Eu receberia cerca de R$ 2,3 milhões.
Ela administraria mais de R$ 7,5 milhões.
— E então? — perguntou Lúcia, como se estivéssemos decidindo o jantar.
— Essa ideia é sua ou do meu pai?
Meu pai finalmente ergueu a xícara, tomou um gole e tornou a colocá-la na mesa.
— Nós conversamos — respondeu Lúcia por ele.
Olhei diretamente para meu pai.
— Pai?
Ele limpou a garganta.
— Veja com calma. Se você tiver alguma opinião, pode falar.
Entendi.
O plano era de Lúcia.
Meu pai não pretendia impedir.
— Vou pensar.
— Claro. Não há pressa. — Ela deixou a folha sobre a mesa. — Podemos continuar amanhã.
Lúcia se levantou para preparar o jantar e, ao passar por mim, ainda tocou de leve meu ombro.
Fiquei olhando para aqueles cinco endereços.
A letra dela era impecável. Depois de cada imóvel, havia metragem e uma estimativa de valor.
Ao lado do Vila do Sul: “aproximadamente R$ 3,8 milhões”.
Ao lado da Rua do Carmo: “aproximadamente R$ 1,8 milhão”.
Ela tinha pesquisado até os preços.
Durante o jantar, Lúcia colocou comida no meu prato duas vezes, perguntou se eu estava trabalhando muito e comentou que eu parecia mais magra.
Gabriel me chamou de irmã e perguntou se eu tinha levado doces.
Eu tinha.
Tirei da bolsa um pacote de balas de leite e entreguei a ele.
Meu pai mal falou durante a refeição. Terminou de comer e foi para o quarto.
Naquela noite, deitei na cama dobrável do quarto de apoio.
Metade do cômodo estava tomada por caixas e objetos guardados. A outra metade, por brinquedos de Gabriel.
Meu quarto original ficava ao lado da suíte do meu pai. Tinha janela voltada para o sol e uma pequena varanda.
Nove anos antes, quando Gabriel ainda era bebê, eu o havia cedido “temporariamente” para virar quarto infantil.
A mola da cama dobrável pressionava minhas costas.
Virei de lado e vi, sobre uma caixa no canto, uma inscrição feita à caneta:
“Júlia — coisas antigas”.
Levantei, puxei a caixa para o chão e abri.
Havia livros do ensino médio, alguns diários e uma caixa metálica.
Dentro dela encontrei um maço de papéis preso por um elástico.
Ainda não os abri.
Mas me lembrava deles.
Dez anos antes, meu pai havia me levado a um lugar e pedido que eu assinasse uma pilha de documentos.
Eu tinha dezoito anos, havia acabado de prestar vestibular e assinei tudo sem fazer perguntas.
Naquele verão, três dias depois do fim das provas, meu pai tirou uma rara manhã de folga e me chamou às oito.
— Venha comigo resolver uma coisa.
— O quê?
— Você vai saber quando chegarmos.
Pegamos um ônibus e viajamos cerca de quarenta minutos até o cartório de registro de imóveis.
O salão estava cheio. Meu pai pegou uma senha, e esperamos quase uma hora.
Quando fomos chamados, a funcionária atrás do balcão perguntou:
— Vai fazer os cinco no mesmo atendimento?
— Os cinco.
Ela olhou para mim.
— É sua filha? Trouxe documento de identidade?
Entreguei.
Meu pai abriu a pasta executiva e tirou uma pilha grossa de documentos cobertos de texto.
— Assine aqui, aqui e aqui — orientou a funcionária.
Assinei meu nome mais de dez vezes. Minha mão chegou a doer.
— Pai, o que estamos fazendo?
— Coisa dos imóveis. Só regularizando a documentação.
Ele não explicou mais nada.
Quando saímos, já estava perto do meio-dia. Meu pai me levou a um restaurante simples ao lado e pediu duas tigelas de macarrão com carne.
No meio da refeição, falou de repente:
— Sua mãe morreu cedo. Essas coisas é melhor deixar organizadas enquanto dá tempo.
Eu estava mastigando e apenas respondi:
— Está bem.
Aos dezoito anos, imóveis eram a última coisa que me interessava.
Eu queria saber minha nota, em qual faculdade seria aprovada e para onde iria depois.
Um mês mais tarde, meu pai me contou que pretendia se casar novamente.
A mulher se chamava Lúcia Almeida. Trabalhava com comércio atacadista de roupas e era oito anos mais nova que ele.
Na primeira vez em que foi jantar em casa, trouxe uma caixa de leite e um casaco rosa para mim.
— É para você, Júlia. Experimente para ver se serve.
O casaco ficou um tamanho maior, mas eu disse que estava bom.
Naquela noite, ela preparou peixe ensopado, legumes refogados, sopa de tomate com ovos e asas de frango caramelizadas.
— Do que você gosta de comer? Depois eu posso fazer.
— Gosto de quase tudo.
O jantar foi absolutamente comum.
Lúcia falava de maneira direta, era organizada, e havia certo alívio no olhar do meu pai quando a observava.
O casamento foi simples. As duas famílias se reuniram para uma refeição.
No dia em que Lúcia se mudou, ajudei a carregar três caixas.
Nos primeiros dois anos, realmente não aconteceu nada de ruim.
Ela cozinhava todos os dias, mantinha a casa organizada e comprava roupas para mim em datas especiais.
Fui aprovada em uma universidade particular em outro estado.
Quando estava prestes a partir, Lúcia colocou R$ 2 mil na minha mão.
— Morando longe, não economize demais com comida. Cuide de você.
Meu pai assentiu ao lado dela.
No segundo semestre do primeiro ano, a cobrança das mensalidades chegou à casa deles.
Meu pai me ligou.
— Sobre a faculdade, a Lúcia disse que vai pagar.
— Não precisa.
— Ela já decidiu. Não fique recusando.
Durante quatro anos, entre mensalidades e moradia, foram aproximadamente R$ 128 mil.
Antes de cada semestre, Lúcia fazia a transferência na data certa e sempre escrevia alguma variação da mesma frase:
“Estude direito. Não se preocupe com o dinheiro.”
Nas férias do terceiro ano, voltei para casa e descobri que meu quarto havia mudado.
Papel de parede infantil, cama pequena e tapete no chão.
— O Gabriel ainda é muito pequeno para ficar no nosso quarto — explicou Lúcia, segurando o bebê de oito meses. — Pegamos seu quarto emprestado por enquanto. Você só passa alguns dias aqui nas férias. Pode dormir no quarto de apoio?
— Posso.
A janela do quarto de apoio ficava voltada para o lado mais frio.
Naquelas férias, dormi doze noites naquela mesma cama dobrável sem conseguir descansar direito em nenhuma delas.
Nunca reclamei.
Lúcia havia pago meus estudos por quatro anos.
Eu não esquecia aquela ajuda.
O que eu não sabia era que ela também não havia esquecido.
Valor por valor, ela registrava tudo em um caderno de capa marrom.
Naquela noite, depois de encontrar a caixa metálica, toquei no velho elástico que prendia os documentos.
Ele se rompeu imediatamente.
Abri a primeira folha.
“Instrumento de transferência de propriedade imobiliária.”
Transmitente: Antônio Soares.
Adquirente: Júlia Soares.
Número 128 da Rua das Palmeiras.
Abri o segundo conjunto.
Número 19 da Rua do Carmo.
O terceiro.
O quarto.
O quinto.
Todos os cinco imóveis.
Olhei a data da assinatura.
Exatamente um mês antes de Lúcia entrar para a família.
Espalhei os cinco conjuntos sobre a cama dobrável e conferi um por um.
Rua das Palmeiras, número 128. Imóvel comercial, 78 metros quadrados.
Transferido em 12 de junho de 2016.
Rua do Carmo, número 19. Dois quartos, 64 metros quadrados.
Mesma data.
Residencial Jardim Leste, bloco 3, apartamento 602. Dois quartos, 89 metros quadrados.
Mesma data.
Vila do Sul, bloco 7, apartamento 1501. Três quartos, 126 metros quadrados.
Mesma data.
Beco dos Ipês, número 11. Casa antiga de tijolos, 52 metros quadrados.
Mesma data.
Cinco imóveis.
Todos transferidos para o meu nome no mesmo dia.
12 de junho de 2016.
Meu pai e Lúcia registraram o casamento em 15 de julho de 2016.
Trinta e três dias depois.
Sentei na beirada da cama com os documentos nas mãos.
Ainda lembrava das estimativas que Lúcia havia escrito na folha da sala: R$ 3,8 milhões para a Rua das Palmeiras, R$ 1,8 milhão para a Rua do Carmo, R$ 2,1 milhões para o Jardim Leste, R$ 3,8 milhões para o Vila do Sul e R$ 300 mil para o Beco dos Ipês.
Total aproximado: R$ 11,8 milhões.
Antes de ela entrar naquela família, os R$ 11,8 milhões já não estavam mais no nome de Antônio Soares.
Quando Lúcia colocou um plano de divisão sobre a mesa, estava dividindo bens que eram meus.
Guardei novamente os documentos na caixa metálica e a coloquei no fundo da caixa de papelão.
Depois deitei e fiquei olhando para o teto.
Meu pai nunca tinha sido um homem descuidado.
Trabalhara durante trinta anos com controle de qualidade em uma fábrica. Se um parafuso tivesse uma diferença mínima, ele anotava.
Ele não faria algo daquele tamanho por impulso.
Naquele dia de 2016, esperou uma hora no cartório, colocou mais de dez documentos na minha frente e me fez assinar todos.
Sem dizer uma palavra desnecessária.
O que ele sabia?
Na manhã seguinte, Lúcia preparava mingau na cozinha.
— Acordou? Dormiu bem? Acho que aquela cama dobrável já está precisando ser trocada.
— Foi tranquilo.
— Está livre hoje? Podemos continuar nossa conversa de ontem.
— À tarde vou sair. Tenho uma antiga colega por aqui.
— Tudo bem. Conversamos quando você voltar.
Ela me serviu uma tigela de mingau espesso com duas frutas secas por cima.
Eu comi.
Quando saí, não fui encontrar colega nenhuma.
Peguei um carro até o bairro Vila Esperança, na zona leste.
Carlos Menezes morava ali.
Ele havia trabalhado vinte e cinco anos na mesma fábrica do meu pai e durante muito tempo os dois ficaram no mesmo setor.
Quando minha mãe morreu, foi Carlos quem ajudou meu pai a cuidar de boa parte das providências.
Quando abriu a porta, ele vestia bermuda e camiseta regata e segurava metade de um pepino.
— Júlia? O que você está fazendo aqui?
— Seu Carlos, preciso perguntar uma coisa.
Ele me convidou a entrar e colocou um copo de água sobre a mesa.
— Seu pai está bem?
— Está.
Apoiei o copo.
— Seu Carlos, o senhor sabia que, dez anos atrás, meu pai me levou ao cartório para transferir os imóveis?
Carlos mordeu o pepino, mastigou duas vezes e ficou em silêncio.
— Ele passou os cinco para o meu nome. Eu só encontrei os documentos ontem.
Carlos colocou o restante do pepino sobre um prato e limpou as mãos.
Então me olhou com uma expressão que eu não consegui interpretar.
— Seu pai nunca contou isso para você?
— Nunca.
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