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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Depois de ser preterida três vezes para chefiar cirurgias, pedi demissão — e no dia seguinte dez operações complexas foram suspensas

PARTE 1

Pela terceira vez consecutiva, meu nome foi retirado da posição de cirurgiã responsável.

E, daquela vez, quem ocuparia meu lugar seria um médico que chegara até ali por influência — alguém capaz de cometer erros até em procedimentos básicos de sutura.

O diretor do hospital pousou a mão no meu ombro e falou com aquela expressão cuidadosamente ensaiada de quem queria parecer compreensivo.

— Helena, você precisa aprender a colocar os interesses do hospital acima dos seus. Sua capacidade técnica é indiscutível, mas ainda lhe falta um pouco de experiência para lidar com as pessoas. Continue amadurecendo.

Eu apenas assenti.

Depois voltei ao meu consultório, esvaziei a mesa em silêncio, entreguei meu pedido de demissão e deixei o hospital.

No dia seguinte, dez cirurgias de alta complexidade tiveram de ser suspensas.

Todo o setor de Cirurgia Geral praticamente parou.

O diretor, suando de nervosismo, acabou aparecendo diante da minha casa acompanhado por boa parte da equipe, pedindo repetidamente que eu voltasse para ajudá-los.

Levei a xícara de chá aos lábios e respondi com calma:

— Pelo visto, ainda preciso amadurecer mais um pouco. Acho que não estou pronta para voltar.

Na verdade, tudo começara algumas horas antes.

A porta da sala do diretor havia se fechado diante de mim pela terceira vez.

A xícara de café sobre a mesa de Luiz Chaves ainda soltava vapor. No rosto dele estava aquela velha expressão de pesar, tão treinada que já não conseguia despertar em mim nada além de cansaço.

— Helena.

Ele falou devagar, como se a decisão lhe causasse algum sofrimento.

— Depois da reunião da direção, decidimos que a responsabilidade principal pelas próximas cirurgias ficará com Felipe Tavares.

Olhei para ele sem responder.

Luiz continuou.

— Você precisa pensar primeiro no interesse coletivo.

Fez uma pequena pausa antes de explicar o que eu já suspeitava.

— O pai do Felipe é o senhor Roberto Tavares. Ele pretende financiar para o hospital um novo sistema robótico Da Vinci de última geração.

Luiz abriu as mãos, como se aquilo encerrasse qualquer discussão.

— É uma oportunidade rara. Com esse equipamento, nossa Cirurgia Geral poderá atingir outro nível.

Assenti lentamente.

Então era isso.

Anos de esforço.

Milhares de horas sem dormir direito, acompanhando pacientes, estudando exames, planejando procedimentos e entrando em centro cirúrgico enquanto o restante da cidade ainda dormia.

No fim, tudo pesava menos do que uma máquina.

— Sua capacidade técnica é uma das melhores deste hospital. Ninguém discute isso.

O tom de Luiz mudou.

Começava a parte da conversa que eu já conhecia.

— Mas você ainda precisa melhorar sua forma de se relacionar. Você conhece o professor Augusto Braga, a professora Lúcia Menezes e vários especialistas importantes. Tem um excelente relacionamento com todos eles.

Ele inclinou o corpo para a frente.

— Por que não pensa mais no hospital? Poderia usar melhor esses contatos, trazer mais recursos, criar oportunidades.

Depois sorriu.

— Você ainda é jovem. Tem muito tempo pela frente.

Então se levantou e bateu de leve no meu ombro.

A mão dele estava quente.

O gesto, porém, só me pareceu vazio.

Assenti novamente.

— Obrigada pela orientação, diretor.

Não disse mais nada.

Levantei.

Abri a porta.

Saí.

Atrás de mim, ouvi Felipe rir.

Era uma risada curta, satisfeita, sem qualquer esforço para esconder a provocação.

Voltei ao meu consultório.

A luz da manhã entrava pela janela e caía sobre as folhas verdes da jiboia ao lado da mesa.

Liguei o computador.

Na tela apareceu o modelo tridimensional que eu acabara de concluir para uma das próximas cirurgias: uma ressecção pancreática ampliada de alta complexidade.

Eu havia reconstruído toda a anatomia relevante.

Trajeto dos vasos.

Extensão da invasão tumoral.

Margens possíveis.

Sequência de ressecção.

Cada medida havia sido revisada cuidadosamente.

Selecionei a pasta inteira.

Pressionei Delete.

Depois abri a ferramenta do sistema e escolhi a exclusão permanente dos arquivos.

A barra de progresso começou a avançar devagar.

Em seguida, desconectei meu HD criptografado pessoal.

Nele estava armazenado o trabalho de oito anos.

Dezoito propostas de aprimoramento técnico para grandes cirurgias de alta complexidade.

Além de um sistema de avaliação dinâmica de risco perioperatório que eu mesma havia desenvolvido a partir da análise de milhares de casos clínicos.

Todo o código-fonte estava ali.

Guardei o HD.

Depois abri a gaveta.

O pedido de demissão já estava pronto havia algum tempo.

Era curto.

“Eu, Helena Costa, por razões pessoais, solicito formalmente meu desligamento do hospital.”

Peguei o telefone interno.

— Recursos Humanos? Aqui é a doutora Helena Costa. Poderiam vir até minha sala para fazermos os procedimentos do meu desligamento?

Do outro lado, houve alguns segundos de silêncio.

— Doutora Helena… a senhora está falando sério?

— Estou.

Desliguei.

Então comecei a retirar minhas coisas.

O jaleco.

O estetoscópio.

Livros.

Anotações pessoais.

Tudo foi sendo colocado dentro de uma caixa de papelão.

Por último, restou uma fotografia emoldurada.

Nela, eu estava ao lado do meu antigo orientador, o professor Augusto Braga, durante um congresso internacional de cirurgia.

Coloquei a fotografia dentro da caixa também.

Pouco depois, uma funcionária do RH apareceu apressada.

O rosto dela deixava claro que já sabia do que estava acontecendo.

— Doutora Helena, a senhora realmente vai sair?

— Vou.

— O diretor Luiz sabe?

— Sabe.

Assinei os documentos necessários.

Depois ergui a caixa e deixei o consultório.

No corredor, as pessoas diminuíam o passo quando me viam passar.

Algumas pareciam surpresas.

Outras, sinceramente tristes.

Também havia quem demonstrasse uma satisfação difícil de esconder.

Felipe estava encostado no balcão da enfermagem, com os braços cruzados.

— Doutora Helena, já vai?

Parei apenas o suficiente para ouvi-lo.

— Não pretende ficar mais um pouco e ensinar alguma coisa para um colega mais novo?

Não respondi.

Nem sequer virei o rosto.

Naquele momento, as portas do elevador se abriram.

Um residente correu pelo corredor em minha direção.

Era João, um dos jovens médicos que eu acompanhava havia mais tempo.

Os olhos dele estavam vermelhos.

— Doutora Helena…

A voz saiu presa.

— Se a senhora for embora… o que vai acontecer com a gente?

Olhei para ele.

Eu havia acompanhado seus primeiros plantões, seus primeiros procedimentos e boa parte das dificuldades que enfrentara para ganhar segurança.

No fim, disse apenas:

— Fortaleça a base.

João ficou parado diante de mim.

Entrei no elevador.

As portas começaram a se fechar devagar.

Os rostos do corredor foram desaparecendo aos poucos.

Minha saída não significava apenas a ausência de mais uma cirurgiã na escala.

Durante anos, grande parte das operações mais difíceis do serviço havia sido organizada a partir dos métodos que eu desenvolvera.

Mais de oitenta por cento dos casos de maior complexidade passavam, de alguma forma, pelos meus planejamentos.

E eu também era o principal elo profissional do hospital com vários especialistas de referência de outros grandes centros.

Luiz Chaves acreditava ter trocado uma médica por um equipamento de última geração.

O que ele ainda não havia entendido era que uma máquina, por mais avançada que fosse, não substituía experiência, método, julgamento e responsabilidade.

Muito menos substituía as pessoas que faziam um sistema inteiro funcionar.

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