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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Passamos quase duas semanas preparando a cirurgia.

A tomografia foi revista.

A equipe vascular participou da discussão.

Anestesia reavaliou o risco.

Nutrição ajustou o preparo.

Os residentes apresentaram possíveis complicações e planos alternativos.

Eu poderia ter acelerado muita coisa.

Conhecia o caso.

Já havia pensado nele meses antes.

Mas resisti à tentação.

Se todo o aprendizado daqueles últimos meses significava alguma coisa, precisava aparecer justamente ali.

Não seria “a cirurgia de Helena”.

Seria um trabalho de equipe.

Na reunião final, Augusto me perguntou quem deveria assumir como primeira cirurgiã.

Olhei ao redor.

— Eu.

Ninguém pareceu surpreso.

— Mas quero a doutora Camila como segunda responsável. Se alguma coisa me impedir de continuar, ela assume.

Camila, uma cirurgiã experiente do serviço, assentiu.

Augusto sorriu discretamente.

— Finalmente.

— Não comece.

— Não falei nada.

Na véspera da cirurgia, fui conversar com o paciente e a família.

Ele se chamava Paulo.

Tinha pouco mais de cinquenta anos e estava cansado de esperar.

Lembrava de mim do antigo hospital.

— Doutora, então no fim a senhora vai me operar mesmo.

— Vou participar da sua cirurgia.

Ele riu.

— Isso é jeito de médico evitar dizer “sim”?

— É jeito de médico lembrar que ninguém faz uma operação dessas sozinho.

Expliquei novamente os riscos.

Falamos sobre o atraso.

Paulo perguntou se a suspensão anterior havia prejudicado seu tratamento.

Respondi com cuidado.

— O atraso nunca é desejável, mas o senhor recebeu acompanhamento durante esse período e só estamos avançando agora porque temos condições adequadas para isso.

Ele ficou em silêncio.

— Eu fiquei com muita raiva daquele hospital.

— Eu entendo.

— A senhora também?

Pensei.

— Fiquei.

— E passou?

Olhei para ele.

— Mudou.

Era a resposta mais verdadeira que eu tinha.

Na manhã seguinte, entrei no centro cirúrgico antes das seis.

O ritual era familiar.

Troca de roupa.

Lavagem.

Checagem.

Imagens na tela.

Lista de segurança.

Mas eu me sentia diferente.

Não precisava provar nada.

Não precisava demonstrar para Luiz que ele havia errado.

Não precisava mostrar a Felipe que eu era superior.

Eu precisava apenas operar bem.

A cirurgia começou.

Nas primeiras horas, tudo seguiu próximo do planejado.

Depois encontramos uma aderência maior do que as imagens sugeriam.

Paramos.

Reavaliamos.

Camila apresentou uma alternativa.

O cirurgião vascular discordou de um ponto.

Conversamos.

Ajustamos a sequência.

Nenhuma decisão surgiu de um gesto heroico.

Foi justamente isso que tornou o momento importante.

Meses antes, todos esperariam que eu dissesse o que fazer.

Agora a resposta surgiu da equipe.

Seguimos.

A operação foi longa.

Muito longa.

Quando finalmente encerramos, eu sentia as costas rígidas e as pernas pesadas.

O procedimento havia sido concluído conforme o objetivo principal, sem que precisássemos avançar além dos limites de segurança definidos.

Paulo foi levado à UTI.

Ainda havia recuperação pela frente.

Nada estava garantido.

Quando saí da sala, João estava esperando.

— E então?

— Terminou bem.

Ele soltou o ar.

— Eu sabia.

— Não diga isso.

— O quê?

— Que sabia.

Ele me olhou, confuso.

— Em cirurgia de alta complexidade, excesso de certeza é uma forma elegante de imprudência.

João sorriu.

— Vou anotar.

— Você tem algum problema.

Nos dias seguintes, Paulo evoluiu de forma satisfatória.

Teve dificuldades normais de uma cirurgia grande, mas nenhum evento fora do que a equipe estava preparada para manejar.

Quando deixou a UTI, fui vê-lo.

Ele levantou o polegar.

— Ainda estou aqui.

— Continue colaborando com a fisioterapia e talvez continue por bastante tempo.

Ele riu e reclamou que eu era péssima em frases emocionantes.

Concordei.

Naquela tarde, recebi um documento do antigo hospital.

O projeto piloto do sistema havia sido aprovado para uma segunda etapa.

Os resultados iniciais mostravam melhoria na padronização das discussões pré-operatórias, mas a equipe técnica havia identificado pontos que precisavam ser revisados antes de qualquer expansão.

Li o relatório com satisfação.

Não porque fosse perfeito.

Porque não era.

Finalmente meu trabalho estava sendo tratado como algo que podia ser questionado, testado e melhorado.

No final do documento havia uma observação da nova direção:

“O objetivo do projeto não é substituir avaliação médica especializada, mas ampliar a consistência das equipes.”

Salvei a frase.

Era quase o oposto da lógica que iniciara tudo.

Na semana seguinte, Marta me convidou para uma cerimônia interna de apresentação das novas regras de governança clínica.

Quase recusei.

Não gostava de cerimônias.

Depois aceitei porque João insistiu.

Quando cheguei, encontrei várias pessoas que haviam testemunhado minha saída.

Alguns me abraçaram.

Outros apenas cumprimentaram.

Felipe estava entre os residentes e médicos que haviam concluído mais uma etapa de avaliação.

Não ocupava posição de destaque.

Parecia confortável com isso.

A nova diretora apresentou os critérios para nomeação de lideranças, regras para conflitos de interesse e exigências de supervisão.

Nada era revolucionário.

Em muitos hospitais, aquilo deveria ser normal.

Talvez essa fosse a parte mais absurda.

Às vezes, é necessário quase quebrar uma estrutura inteira para que todos percebam o valor do básico.

Depois do evento, Marta me entregou um envelope.

— Antes que você reclame, não é misterioso.

Abri.

Era uma proposta formal de cooperação entre as duas instituições.

Treinamento conjunto.

Pesquisa.

Discussão de casos selecionados.

Intercâmbio de residentes.

Nada dizia que eu precisava voltar.

Nada dizia que meu sistema seria entregue sem condições.

Meu nome aparecia como uma das responsáveis técnicas, junto com vários outros profissionais.

— Isso faz sentido — falei.

— Pense com calma.

— Vou pensar.

Enquanto saía, encontrei Felipe perto da porta.

— Doutora Helena.

— Felipe.

— Acho que finalmente entendi uma coisa.

— O quê?

— Meu pai queria me dar uma posição. Eu achei que precisava dela para provar que era bom.

Ele olhou para o crachá simples preso ao próprio jaleco.

— Agora acho que preciso ficar bom antes de me preocupar com posição.

Assenti.

— É um começo.

Ele sorriu.

— Da senhora, isso quase parece elogio.

— Não se acostume.

Fui embora.

Naquela noite, sentei à mesa da cozinha com a proposta entre as mãos.

Meses antes, aquele hospital havia me pedido para voltar porque não conseguia funcionar sem mim.

Agora me procurava para construir uma relação em que nenhum dos lados dependesse da presença permanente do outro.

Era diferente.

Talvez fosse a única forma de eu voltar a colaborar sem voltar ao lugar de onde saíra.

Peguei uma caneta.

Não assinei.

Ainda havia uma última decisão que eu queria tomar com calma.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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