
PARTE 7
Três meses depois da minha demissão, minha rotina já não parecia emprestada de outra vida.
Eu chegava cedo ao hospital universitário, mas não era mais a primeira pessoa a saber tudo sobre todos os casos.
Cada cirurgia complexa tinha pelo menos dois responsáveis pelo planejamento.
Os residentes participavam das revisões.
Os protocolos ficavam disponíveis para a equipe.
Se alguém discordava de uma estratégia, precisava explicar por quê.
No início, eu achava algumas discussões cansativas.
Depois compreendi que o desconforto fazia parte de deixar de ser o centro de um sistema.
Meu trabalho também começava a mudar.
O projeto de avaliação perioperatória passou por uma revisão formal antes de entrar em teste controlado.
Alguns componentes foram mantidos.
Outros foram simplificados.
Uma parte do código precisou ser reescrita para funcionar dentro dos sistemas do hospital.
Eu assisti a engenheiros modificando algo que havia construído sozinha e senti uma pontada de perda.
Augusto percebeu.
— Dói?
— Um pouco.
— Então está deixando de ser seu brinquedo e virando uma ferramenta.
— Você consegue ser irritante até quando tem razão.
— Décadas de prática.
Com o tempo, comecei a gostar de ver residentes usando o sistema sem perguntar onde deveriam clicar.
Gostei ainda mais quando uma enfermeira apontou um erro de fluxo e a equipe conseguiu corrigi-lo sem depender de mim.
Aquilo era sustentabilidade.
No meu antigo hospital, as mudanças também avançavam.
O conselho concluiu a revisão administrativa e decidiu substituir Luiz na direção geral ao fim do mandato emergencial que havia sido criado durante a crise.
Ele não foi acusado de crime.
Não houve escândalo público.
A conclusão foi administrativa: decisões importantes haviam sido tomadas sem separação adequada entre interesses financeiros e critérios assistenciais.
Luiz continuaria ligado à instituição em outra função durante o período de transição, mas não comandaria mais as decisões clínicas.
Quando soube, fiquei em silêncio por bastante tempo.
Parte de mim esperava sentir triunfo.
Não senti.
Lembrei do dia em que ele bateu no meu ombro e disse que eu precisava amadurecer.
Talvez ele realmente acreditasse nisso.
Talvez também acreditasse que aceitar a influência de um doador era uma pequena concessão em nome de algo maior.
Foi justamente essa lógica que o derrubou.
Marta, que assumira temporariamente parte da coordenação, me ligou alguns dias depois.
— O conselho quer abrir um processo seletivo para a liderança da Cirurgia Geral.
— Que bom.
— Seu nome provavelmente seria muito bem recebido.
Eu já sabia para onde aquilo ia.
— Marta…
— Não estou lhe oferecendo o cargo. Estou dizendo que você pode se candidatar.
Sorri.
Era uma diferença importante.
Meses antes, eu teria interpretado aquela possibilidade como reparação.
Agora eu precisava perguntar se era o que queria.
— Vou pensar.
Desliguei e fiquei olhando para minha agenda.
Na semana seguinte, eu tinha duas cirurgias, uma reunião de desenvolvimento do sistema e uma aula para residentes.
Gostava daquele equilíbrio.
Ainda trabalhava muito.
Mas o trabalho não era uma batalha diária para provar que eu merecia estar na sala.
Naquela tarde, João veio me visitar.
Ele havia conseguido autorização para passar duas semanas acompanhando nosso serviço como observador.
Quando entrou na sala de reunião, carregava um caderno tão cheio de anotações quanto o que usava quando era meu residente.
— Ainda escrevendo tudo?
— A senhora mandou fortalecer a base.
Ri.
— Eu disse quatro palavras. Você transformou em projeto de vida.
Ele ficou sério.
— Funcionou.
João contou que o antigo hospital reorganizara completamente o treinamento.
Os residentes agora tinham avaliações práticas mais frequentes.
Casos complexos eram apresentados coletivamente.
Nenhum médico assumia cirurgia de alto risco sem revisão de pares.
— Mudou muito — ele disse.
— Melhorou?
— Ainda está confuso. Mas melhorou.
— Mudanças reais costumam ser confusas no início.
Ele hesitou.
— A senhora vai voltar?
Olhei para ele.
— Não sei.
— Todo mundo acha que a senhora deveria.
— “Todo mundo” não vai viver minha vida.
João sorriu.
— Essa frase eu vou anotar.
— Não ouse.
Na sexta-feira, participei de uma videoconferência com representantes do antigo hospital para discutir o projeto de licenciamento e treinamento do sistema.
Dessa vez, eu não aparecia como funcionária pedindo autorização para que usassem meu trabalho.
Eu estava representando um projeto técnico que seria avaliado em condições claras.
A diferença parecia pequena no papel.
Para mim, era enorme.
Expliquei que a ferramenta não deveria ser usada como substituta do julgamento clínico.
Também deixei claro que qualquer implementação exigiria treinamento conjunto.
Um dos administradores perguntou se seria possível “automatizar” parte das decisões para reduzir a dependência de cirurgiões experientes.
— Não — respondi.
— Mas o sistema não foi criado justamente para melhorar decisões?
— Para apoiar decisões. Não para fingir que experiência pode ser comprada como software.
O silêncio do outro lado da tela me lembrou do robô Da Vinci que nunca chegara.
Tecnologia era útil.
Mas o hospital ainda precisava aprender a diferença entre ferramenta e atalho.
Ao fim da reunião, concordamos com um projeto piloto limitado.
Nada de implementação total.
Nada de propaganda.
Nada de transformar meu nome em slogan.
Se funcionasse, avançaria.
Se não funcionasse, seria revisto.
Na semana seguinte, recebi o edital da seleção para chefia da Cirurgia Geral.
Abri.
Li inteiro.
Experiência comprovada.
Avaliação curricular.
Entrevista.
Projeto de serviço.
Critérios transparentes.
Era, em grande parte, o sistema que eu havia pedido meses antes.
Fiquei com o documento aberto na tela durante vários minutos.
Eu poderia concorrer.
Provavelmente teria boas chances.
Mas a pergunta já não era “finalmente vão me escolher?”.
A pergunta era outra.
“Eu ainda quero esse lugar?”
Fechei o arquivo sem preencher nada.
Não porque tivesse decidido.
Mas porque, pela primeira vez, eu me permitia escolher sem pressa.
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