
PARTE 8
O projeto piloto começou no mês seguinte.
Voltar ao antigo hospital para a primeira sessão de treinamento foi mais estranho do que eu esperava.
O corredor era o mesmo.
A enfermagem continuava ocupada.
O elevador demorava.
Até a jiboia próxima ao meu antigo consultório ainda estava lá, um pouco maior.
Mas eu não pertencia mais àquele lugar da mesma forma.
Cheguei acompanhada por dois profissionais do hospital universitário, responsáveis pela parte técnica do projeto.
Marta nos recebeu.
— Bem-vindos.
Não “bem-vinda de volta”.
A diferença me agradou.
Entramos na sala.
Havia cirurgiões, anestesistas, residentes e profissionais de tecnologia.
Felipe estava entre eles.
Sentou-se na segunda fileira e abriu um caderno.
Comecei explicando o que o sistema fazia.
Depois expliquei, com ainda mais cuidado, o que ele não fazia.
— Ele não decide quem deve operar. Não transforma um procedimento complexo em simples. Não corrige formação insuficiente. E não substitui revisão de equipe.
Mostrei um exemplo.
O programa identificava fatores de risco e organizava cenários.
Mas duas pessoas ainda podiam interpretar o mesmo cenário de maneira diferente.
Era por isso que o protocolo exigia discussão.
Durante a parte prática, Felipe fez várias perguntas.
Nenhuma tentativa de parecer mais inteligente do que os outros.
Quando não entendeu um ponto, pediu que eu repetisse.
Aquilo pareceu banal.
Meses antes, não seria.
No intervalo, ele se aproximou.
— Passei na primeira avaliação do programa de supervisão.
— Parabéns.
— Ainda faltam várias.
— Então continue.
Ele sorriu.
— A senhora nunca facilita.
— Você já teve facilidades suficientes.
Ele não se ofendeu.
— É verdade.
Depois foi buscar café.
Pouco tempo mais tarde, Marta entrou na sala e me chamou para conversar.
O conselho havia escolhido uma nova diretora geral.
A seleção para chefia da Cirurgia Geral avançaria na semana seguinte.
— O prazo de inscrição termina amanhã — ela disse.
— Eu sei.
— Vai se candidatar?
Olhei pela janela da sala.
Do outro lado, o prédio do centro cirúrgico parecia exatamente como quando eu trabalhava ali.
— Não.
Marta não escondeu a surpresa.
— Tem certeza?
— Tenho.
Dizer aquilo em voz alta resolveu uma dúvida que eu carregara por semanas.
— Posso perguntar por quê?
— Porque eu queria aquele cargo dentro da estrutura antiga. Eu queria provar que merecia mais do que estavam me dando. Agora minha vida já está em outro lugar.
— Mas muita coisa mudou.
— Eu sei. E fico feliz que tenha mudado.
— Então não é ressentimento?
— Não.
Pensei por um instante.
— Talvez seja justamente o contrário. Se eu voltar só porque finalmente me ofereceram as condições que deveriam ter existido desde o início, corro o risco de transformar toda essa mudança em uma história sobre mim. Não é.
Marta assentiu devagar.
— A instituição precisa aprender a funcionar sem esperar sua volta.
— Exatamente.
No fim do treinamento, encontrei Luiz no corredor.
Não o via havia meses.
Ele carregava alguns documentos e parecia prestes a entrar em uma sala administrativa menor.
Parou quando me viu.
— Helena.
— Luiz.
O silêncio entre nós não era confortável, mas já não tinha a mesma tensão.
— Soube que você não vai participar da seleção.
— Não vou.
Ele ficou alguns segundos olhando para mim.
— Se eu tivesse feito as coisas de outra forma…
Não deixei que terminasse.
— Teria sido outra história.
Ele assentiu.
— Sinto muito.
Dessa vez, não havia um cargo para negociar.
Nenhuma crise para resolver.
Nenhuma razão prática para o pedido.
Talvez por isso eu tenha conseguido responder de forma diferente.
— Eu sei.
Não disse que estava tudo bem.
Não estava.
Também não disse que o perdoava.
Perdão não era uma senha necessária para que eu seguisse em frente.
Apenas aceitei que ele reconhecia o que havia feito.
Luiz respirou fundo.
— Você estava certa sobre uma coisa.
— Qual?
— Eu achei que estava comprando futuro para o hospital.
Ele deu um sorriso amargo.
— E quase destruí o que já funcionava.
Não respondi.
Ele continuou andando.
Eu também.
Dias depois, a chefia da Cirurgia Geral foi ocupada por uma cirurgiã do próprio hospital que trabalhava havia anos no serviço e havia passado pelo processo seletivo completo.
Conhecia-a bem.
Era competente.
Quando Marta me contou, senti alívio.
Não porque o cargo tivesse deixado de ser meu.
Porque, pela primeira vez, ele não era “de” ninguém antes da avaliação.
Na mesma semana, o piloto do nosso sistema produziu o primeiro resultado útil.
Não foi uma cirurgia espetacular.
Foi algo mais importante.
Durante a avaliação de um paciente complexo, a ferramenta chamou atenção para uma combinação de fatores que levou a equipe a pedir exames adicionais antes de operar.
A cirurgia foi adiada por alguns dias.
O novo planejamento ficou melhor.
Ninguém anunciou milagre.
Ninguém deu entrevista.
O processo simplesmente funcionou.
Foi exatamente o que eu queria.
No fim daquela tarde, João apareceu na sala de treinamento com uma notícia.
Um dos pacientes cujas cirurgias haviam sido suspensas no primeiro dia após minha demissão estava finalmente pronto para operar.
Ele havia sido transferido para nosso hospital universitário depois de completar o tratamento preparatório necessário.
Abri o prontuário.
Reconheci imediatamente o caso.
Era justamente aquele para o qual eu havia construído o modelo tridimensional que apagara do computador meses antes.
Fiquei olhando para as imagens por alguns segundos.
João percebeu.
— A senhora vai operar?
— Ainda não sei.
Ele franziu a testa.
— Mas era seu caso.
— Era.
Apontei para a tela.
— Agora é nosso.
Na manhã seguinte, levei o caso à reunião multidisciplinar.
Não recuperei meu arquivo antigo.
Não procurei reconstruir sozinha tudo que havia feito.
Começamos novamente.
Com a equipe inteira.
E, enquanto cada pessoa acrescentava uma parte do planejamento, percebi que aquele paciente poderia acabar se tornando o ponto final de uma história que começara muito antes da minha demissão.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














