
PARTE 1
O diretor disse que tradução nunca tinha feito parte das minhas funções.
Só começou a demonstrar preocupação de verdade quando a equipe estrangeira perguntou por mim, pelo nome.
No primeiro dia sentado na cadeira de diretor do Hospital São Gabriel, Marcelo Nogueira cancelou o adicional de R$ 2.500 que eu recebia mensalmente pelas consultas clínicas internacionais.
Na visão dele, eu era apenas uma médica do pronto-socorro.
Trocar informações de prontuários com especialistas estrangeiros, organizar documentação em inglês e acompanhar reuniões clínicas internacionais, segundo Marcelo, não tinha relação com o meu cargo.
Ele disse, sem rodeios:
— Você fala inglês bem. Se o hospital precisar, traduz algumas coisas e pronto. É uma ajuda simples. Não vejo motivo para receber um adicional por isso.
Eu não discuti.
Apenas assenti e, ainda naquele dia, encaminhei para o setor de Assuntos Médicos mais de dez e-mails em inglês referentes a casos que até então estavam sob minha responsabilidade.
Três dias depois, uma equipe estrangeira de referência em cirurgia cardíaca chegou ao hospital para participar do tratamento de um paciente prioritário encaminhado pela rede municipal.
Marcelo entregou a recepção e a apresentação do caso a um vice-chefe que havia retornado recentemente de um período de estudos no exterior.
Ele não conseguiu falar por dois minutos.
Um dos especialistas o interrompeu, visivelmente incomodado:
— Se ele não consegue explicar corretamente nem os termos médicos básicos, com que segurança vai participar desta cirurgia?
Fez uma pausa e olhou em volta.
— Onde está a doutora Camila? Nos últimos cinco anos, foi ela quem discutiu diretamente os casos conosco. Queremos tratar deste caso com ela.
O vice-chefe permaneceu parado, sem sequer compreender direito tudo o que o especialista havia acabado de dizer.
Marcelo, por outro lado, começou a suar.
Naquele momento, eu estava na sala de plantão do pronto-socorro, depois de terminar o atendimento de um paciente com intoxicação alcoólica.
A tela do meu celular acendeu.
As mensagens do diretor chegaram em sequência.
【Camila, venha imediatamente para a sala de reuniões.】
【Os especialistas estão pedindo por você.】
Fiquei alguns segundos olhando para a tela.
Então respondi com calma.
【Sou apenas uma médica do pronto-socorro.】
【Não sou responsável pelas consultas internacionais.】
Tudo havia começado três dias antes.
— Camila Queiroz, pronto-socorro.
Marcelo jogou a lista de funcionários sobre a mesa.
Sua voz carregava aquela autoridade rígida de alguém que acabara de assumir um cargo e queria deixar isso claro desde a primeira reunião.
— A partir deste mês, seu adicional de consultas internacionais está cancelado.
A pequena sala ficou em silêncio.
Coloquei a caneta lentamente sobre a mesa.
Marcelo tinha sido contratado pelo diretor-executivo Paulo Azevedo para assumir a direção do hospital. Logo no primeiro dia, convocou chefes de departamento e médicos considerados essenciais para anunciar uma revisão dos processos internos e o corte de despesas que, segundo ele, não eram justificáveis.
No início, achei que aquilo não teria relação com o pronto-socorro.
Até ele dizer meu nome.
— Diretor Marcelo, esse adicional foi aprovado especificamente pela administração anterior — expliquei, mantendo a voz estável. — Nos últimos cinco anos, fui responsável pela troca de informações clínicas com especialistas estrangeiros, pela organização dos prontuários em inglês, pela tradução de documentos antes e depois dos procedimentos e pela interpretação durante as discussões médicas. Não era uma ajuda eventual.
Marcelo franziu a testa e levantou a mão, interrompendo-me.
— O fato de a administração anterior ter aprovado não significa que continue sendo razoável.
Ele folheou alguns documentos e fez uma expressão como se tivesse encontrado algo particularmente absurdo.
— Seu cargo é de médica do pronto-socorro, não de funcionária do setor de Cooperação Internacional. Você fala inglês bem e traduz algumas coisas quando necessário. Vai mesmo me dizer que acha normal receber R$ 2.500 por mês por isso?
O doutor Luís Barreto, chefe da Cirurgia Cardíaca, sentado alguns lugares adiante, mudou discretamente de expressão.
Renato Lima, responsável pelo setor de Assuntos Médicos, abaixou os olhos para os documentos à sua frente.
Meu chefe, doutor Ricardo Teixeira, abriu a boca como se pretendesse dizer alguma coisa, mas acabou permanecendo em silêncio.
Olhei diretamente para Marcelo.
— Cinco anos. Cento e vinte e sete consultas internacionais. Onze cirurgias realizadas aqui com participação de especialistas estrangeiros. Nenhum erro relacionado à comunicação.
Mantive o tom controlado.
— O senhor realmente considera tudo isso apenas “traduzir algumas coisas”?
Marcelo soltou uma risada fria.
— Doutora Camila, não superestime sua própria importância.
Ele bateu os dedos na mesa, um por um.
— Sem você, este hospital vai deixar de fazer consultas internacionais?
Atrás dele, Helena Farias levou a xícara de café à boca.
O canto dos lábios se ergueu discretamente, como se ela estivesse segurando um sorriso.
Helena era vice-chefe administrativa e tinha acompanhado Marcelo do hospital onde ele trabalhava anteriormente.
Também era apresentada por ele como uma profissional de destaque, recém-retornada de uma especialização no Reino Unido.
Marcelo virou-se para Ricardo.
— Doutor Ricardo, os médicos do seu pronto-socorro costumam assumir funções que não pertencem ao setor? Está sobrando tempo por lá? Todo o trabalho principal já foi concluído?
O rosto de Ricardo ficou vermelho imediatamente.
Foi naquele instante que entendi.
Marcelo não estava interessado em saber o que eu realmente fazia.
Ele já tinha tomado a decisão antes mesmo de entrar naquela sala.
Naquele primeiro dia como diretor, eu era apenas a pessoa que ele tinha escolhido para servir de exemplo e estabelecer sua autoridade.
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