
Meu namorado de três anos colocou meu nome na lista de demissões; na manhã seguinte, descobri que tinha ganhado uma fortuna na loteria
PARTE 1
— Helena Nunes, aqui está o seu termo de desligamento. Assine, por favor.
Lucas Prado empurrou uma pilha de documentos na minha direção com a mesma expressão de quem analisava um contrato qualquer. Olhei para a primeira folha. Meu nome, minha matrícula e a data em que eu havia entrado no Grupo Vértice estavam impressos ali.
Aquela data de três anos atrás também tinha sido, por coincidência, o primeiro dia do nosso relacionamento.
— Você está me demitindo?
Levantei os olhos.
Lucas era diretor do departamento de marketing do Grupo Vértice e também o homem com quem eu namorava havia três anos.
Ele estava recostado na cadeira, com a gravata perfeitamente alinhada e as mãos entrelaçadas sobre a mesa. Naquele momento, não parecia meu namorado. Parecia alguém avaliando uma candidata durante uma entrevista.
— O desempenho da empresa não foi bom este ano. A matriz determinou uma redução de pessoal, e o marketing precisa cortar três funcionários. Sua posição no ranking de desempenho ficou entre as últimas. Não tenho escolha.
— Meu desempenho ficou entre os últimos?
Soltei uma risada curta.
— O projeto da Construtora Horizonte, no mês passado, foi elaborado por mim. O cliente pediu especificamente que eu cuidasse do atendimento e fechamos um contrato de quatro milhões. Lucas, e você está dizendo que meu desempenho está entre os piores?
A expressão dele não mudou. Lucas apenas pegou a xícara de café e tomou um gole.
— Uma avaliação geral não considera apenas um projeto.
A porta se abriu.
Uma mulher usando um vestido branco-creme entrou com dois cafés nas mãos e saltos finos. Ao me ver, hesitou por um instante antes de sorrir.
— Diretor Lucas, seu café.
Isabela Reis.
Ela havia entrado na empresa no mês anterior. Diziam que fora contratada de uma concorrente, mas eu já tinha verificado o histórico profissional dela. Na empresa anterior, não havia nenhum resultado particularmente relevante.
Isabela colocou o café diante de Lucas e me lançou um olhar rápido.
Eu conhecia aquele tipo de olhar.
Era pena, mas uma pena vinda de cima.
— Helena, você ainda não assinou? — Lucas insistiu.
Apontei para Isabela.
— Ela chegou no mês passado e ainda não entregou nenhum resultado. Você mantém ela e corta justamente a mim?
Lucas franziu a testa.
— A situação da Isabela não tem nada a ver com você. A distribuição de pessoal da empresa não precisa ser explicada a você.
Isabela abaixou os olhos, mas o canto de sua boca se ergueu discretamente.
Naquele instante, alguma coisa pareceu se encaixar dentro da minha cabeça.
Ranking de desempenho. Reestruturação. Otimização.
Talvez tudo aquilo não passasse de desculpas.
Ele simplesmente queria me tirar dali e abrir espaço para ela.
— Está bem.
Peguei a caneta e assinei.
Lucas pareceu não esperar que eu aceitasse tão depressa. Ficou imóvel por um segundo.
— Helena, não pense demais sobre isso. Depois eu pago um jantar para você e nós conversamos com calma.
— Não precisa.
Empurrei os documentos de volta.
— Diretor Lucas, acho melhor separarmos trabalho de vida pessoal. Quando a minha rescisão será depositada?
Ele me encarou por um momento antes de responder:
— Pelo procedimento normal. Em até quinze dias úteis.
— Certo.
Virei as costas e saí da sala.
Ao passar pelas mesas do departamento, todos baixaram a cabeça e fingiram estar ocupados. Mesmo assim, eu sabia que estavam me observando.
As notícias circulavam mais rápido do que qualquer comunicado interno.
Provavelmente o andar inteiro já sabia que a namorada de Lucas Prado acabara de ser demitida pelo próprio Lucas Prado.
Arrumei minhas coisas.
Três anos de trabalho couberam em uma caixa de papelão.
No elevador, encontrei Paula, do administrativo. Ela me olhou várias vezes, claramente querendo dizer alguma coisa, até finalmente criar coragem.
— Helena… aquela Isabela… acho que ela e o diretor Lucas talvez não tenham apenas uma relação profissional.
Meus dedos apertaram a lateral da caixa.
— Por quê?
— Sexta-feira passada eu fiquei até mais tarde. Vi a Isabela descendo do carro dele.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Obrigada por me contar.
Quando saí do prédio, estava chovendo.
Eu não tinha levado guarda-chuva.
Fiquei parada sob a marquise, abraçada à caixa, e tirei o celular do bolso.
Havia uma mensagem de Lucas.
“Não faça drama. Depois eu explico tudo.”
Bloqueei o número.
Três anos.
Eu havia ajudado Lucas desde a época em que ele era apenas mais um funcionário do departamento. Quase metade dos contatos de clientes que ele usava havia passado pelas minhas mãos.
Na noite em que foi promovido a diretor, nós comemoramos comendo em um restaurante simples. Lucas segurou minha mão e disse que jamais esqueceria tudo o que eu tinha feito por ele.
Agora era ele quem assinava meu desligamento.
E, pelo que eu tinha acabado de ouvir, talvez estivesse abrindo caminho para outra mulher.
A chuva ficou ainda mais forte.
Não sei exatamente por que fiz aquilo, mas atravessei a rua e entrei em uma lotérica.
O atendente assistia à reprise de um sorteio na televisão e nem levantou direito os olhos.
— Vai querer qual?
— Qualquer aposta simples.
Paguei alguns reais.
Ele imprimiu uma aposta da Mega-Sena e me entregou.
Guardei o papel e fui para casa debaixo de chuva.
O apartamento onde eu morava era oficialmente alugado por mim. Lucas passava algumas noites lá, deixava roupas e objetos pessoais, mas o aluguel sempre saía da minha conta.
Tomei banho e fiquei sentada na cama sem fazer nada.
Meu celular vibrou.
Era um aviso do banco lembrando a fatura do cartão. No mês seguinte também viriam aluguel, condomínio, água, energia e todas as outras despesas.
Eu estava desempregada.
Vinte e sete anos.
Sem emprego, sem economia significativa e, pelo que parecia, sem namorado.
Abri a gaveta do criado-mudo, enfiei o bilhete da loteria ali e apaguei a luz.
Na manhã seguinte, acordei e, por hábito, peguei o celular para olhar as notícias.
Uma notificação apareceu na tela.
“Mega-Sena tem uma única aposta vencedora; prêmio de R$ 120 milhões saiu para uma lotérica da Avenida das Palmeiras, em São Paulo.”
Avenida das Palmeiras.
Aquela lotérica.
Sentei na cama de uma vez.
Abri a gaveta e puxei o bilhete amassado.
Conferi os números.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Todos coincidiam.
Minha mão começou a tremer.
Olhei novamente.
Não havia erro.
Eu tinha acabado de ganhar um prêmio de R$ 120 milhões.
Ontem, meu namorado de três anos tinha colocado meu nome numa lista de demissões.
Naquela manhã, eu tinha me tornado milionária.
Fiquei olhando para o bilhete por quase dez minutos.
A única pergunta que passava pela minha cabeça era: isso é verdade?
Conferi mais uma vez.
Continuava certo.
Respirei fundo.
Eu precisava manter a calma.
Já tinha lido histórias de pessoas que ganhavam fortunas, contavam para todo mundo e, em pouco tempo, estavam cercadas por parentes, conhecidos, pedidos de empréstimo e problemas.
Ninguém podia descobrir.
Principalmente Lucas.
Protegi o bilhete com plástico, coloquei-o no bolso interno do casaco e fechei o zíper.
Antes de sair, parei diante do espelho.
Meu rosto estava pálido, havia olheiras sob meus olhos e eu vestia um moletom cinza já bastante usado.
Eu parecia exatamente o que era até algumas horas antes: uma mulher que acabara de perder o emprego.
Perfeito.
Peguei um carro por aplicativo e fui até o local indicado para o resgate de prêmios de grande valor.
Só quando cheguei percebi que minhas mãos estavam suadas.
O bilhete foi verificado, meus documentos foram conferidos e precisei preencher os formulários necessários.
O processo foi muito menos cinematográfico do que eu imaginava.
Nada de aplausos.
Nada de faixa.
Nada de fotografia obrigatória.
Para os funcionários, aquele era um procedimento sério e formal.
Depois das verificações e dos descontos aplicáveis, o valor que chegaria às minhas mãos ficaria próximo de R$ 96 milhões.
Quase cem milhões de reais.
Quando perguntaram se eu gostaria de registrar o momento, recusei.
— Meus dados podem permanecer em sigilo?
A funcionária assentiu.
— Os procedimentos de confidencialidade serão respeitados.
Quando saí, sentei em um banco e abri o aplicativo do banco.
Fiquei observando aqueles números na tela.
R$ 96.000.000.
Noventa e seis milhões.
De repente, comecei a rir.
No dia anterior, Lucas havia falado da minha rescisão, pouco mais de vinte mil reais, como se estivesse me fazendo um enorme favor.
Meu celular vibrou.
Número desconhecido.
Atendi.
— Helena, você me bloqueou?
Reconheci imediatamente a voz de Lucas.
— Sim.
Ele soltou o ar, impaciente.
— Até quando você vai continuar com isso? Eu já expliquei que foi uma decisão empresarial, não uma decisão pessoal…
— Lucas, acabou.
Silêncio.
— O quê?
— Nosso namoro. Acabou. Vou tirar minhas coisas do apartamento. A partir do próximo mês, se você quiser continuar indo lá, resolva o aluguel por conta própria.
— Helena, isso é uma ameaça?
— Não. É uma informação.
Desliguei.
Bloqueei aquele número também.
Pouco depois, o telefone tocou novamente.
Dessa vez era minha mãe.
— Helena, você foi demitida? O Lucas acabou de me ligar. Disse que você está muito abalada e pediu para eu conversar com você.
Respirei fundo.
— Mãe, eu estou bem. Só vou procurar outra oportunidade.
— E o que aconteceu entre você e o Lucas? Ele disse que você bloqueou o número dele.
— Nós terminamos.
— O quê?!
A voz dela subiu imediatamente.
— Você ficou maluca? O Lucas é diretor de uma empresa enorme, ganha mais de meio milhão por ano! Você está com vinte e sete anos, onde vai encontrar alguém com condições tão boas?
— Mãe, eu disse que estou bem. Daqui a alguns dias eu apareço aí. Agora preciso desligar.
Encerrei a ligação.
Se minha mãe descobrisse que eu tinha quase cem milhões de reais, provavelmente perderia a voz.
Mas eu não podia contar.
Não ainda.
Ela nunca conseguiria guardar aquilo só para si.
Voltei para o apartamento e comecei a arrumar minhas coisas.
Na verdade, não havia tanto assim.
Roupas, livros e alguns objetos pessoais couberam em duas malas.
Em compensação, encontrei várias coisas de Lucas: ternos, gravatas e um frasco de perfume pela metade.
Coloquei tudo dentro de um saco grande e deixei perto da porta.
Depois peguei o celular e comecei a procurar outro apartamento.
Até então, eu pagava cerca de R$ 3.500 de aluguel e considerava aquilo meu limite.
Agora…
Olhei para o saldo no aplicativo.
Hesitei durante alguns segundos e abri anúncios de imóveis de alto padrão.
Centro expandido.
Dois dormitórios.
Acabamento sofisticado.
R$ 12 mil por mês.
Fechei o anúncio.
Não.
Seria mudança demais, rápido demais.
Continuei procurando até encontrar um apartamento de dois quartos em uma região tranquila, perto do metrô e em um condomínio agradável.
R$ 5 mil por mês.
Aquilo fazia mais sentido.
Eu não precisava transformar minha vida inteira da noite para o dia.
Liguei para a proprietária e marquei uma visita para aquela tarde.
Assim que coloquei o celular na mesa, a campainha tocou.
Era Lucas.
Ele estava do lado de fora segurando uma sacola de frutas e usando aquela expressão gentil que eu conhecia havia três anos.
— Helena, vim conversar.
— Não temos nada para conversar.
Apontei para o saco perto da porta.
— Suas coisas estão ali.
Lucas baixou os olhos.
Seu rosto mudou.
— Você colocou minhas roupas num saco?
— Ainda está melhor do que uma caixa de papelão. Ontem fui eu quem saiu da empresa carregando uma.
Ele respirou fundo, claramente tentando manter a calma.
— Está bem. Eu errei na maneira como conduzi tudo. Mas escuta minha explicação. A lista veio do RH, eu só…
— Só assinou.
Interrompi.
— Você é o diretor do departamento. Sem sua aprovação, aquela lista não seria fechada. Lucas, não precisamos continuar fingindo.
O sorriso desapareceu.
— Helena, afinal, o que você quer? Quer que eu me ajoelhe? Você acha que vai sair da minha vida e…
— E continuar vivendo muito bem.
Fechei a porta.
Por alguns segundos, não ouvi nada.
Depois veio o barulho dele chutando o saco, seguido pelos passos se afastando pelo corredor.
Encostei as costas na porta.
Meu coração batia rápido.
Mas não era medo.
Era uma sensação de alívio que eu não sentia havia muito tempo.
Naquela tarde fui visitar o apartamento.
Gostei do lugar e fiz o depósito necessário no mesmo dia.
A proprietária, uma mulher de meia-idade muito tranquila, me entregou as informações do imóvel e disse que eu poderia me mudar quando quisesse.
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