
PARTE 9
No primeiro aniversário da Nunes Estratégia, reuni a equipe depois do expediente. Éramos sete pessoas, incluindo eu, e ocupávamos um escritório que ainda parecia pequeno o bastante para que todos soubessem o nome uns dos outros. Encomendamos comida, abrimos refrigerantes e deixei que Camila fizesse um discurso porque ela insistiu.
— A coisa mais estranha de trabalhar aqui — ela disse — é que Helena realmente acredita quando diz que ninguém precisa se destruir para mostrar comprometimento.
Todos riram.
Eu também, mas aquela frase ficou comigo.
Durante anos, eu tinha aceitado cansaço, disponibilidade constante e silêncio diante de decisões injustas como se fossem provas de maturidade. Agora percebia que muitas dessas coisas eram apenas hábitos que favoreciam quem tinha mais poder.
A empresa fechou o primeiro ano com lucro. Não enorme. Não espetacular.
Real.
Decidi distribuir uma bonificação proporcional ao desempenho e reinvestir o restante no negócio. Fiz tudo dentro da estrutura financeira da própria empresa, sem colocar dinheiro da loteria para transformar o gesto em algo artificial.
Quando contei isso à minha mãe, ela brincou:
— Você é a única milionária que conheço que comemora fluxo de caixa.
— Espero que você conheça poucas milionárias.
— Uma já está dando trabalho suficiente.
Ela tinha cumprido a promessa.
Nenhum parente aparecera pedindo dinheiro.
Nenhuma prima distante descobrira.
Nenhum vizinho começara a fazer perguntas.
Isso aumentou minha confiança nela.
Foi então que decidi dar outro passo: comprei meu próprio apartamento.
Não uma cobertura de revista.
Escolhi um imóvel espaçoso, seguro e bem localizado, onde eu realmente gostaria de viver pelos próximos anos. Levei semanas comparando opções, documentação e custos antes de assinar.
No dia em que recebi as chaves, minha mãe veio comigo.
Ela passou a mão pela bancada da cozinha e ficou olhando a sala vazia.
— Agora você pode comprar qualquer coisa que quiser.
— Mais ou menos.
Ela riu.
— Com noventa e tantos milhões, esse “mais ou menos” é ofensivo.
— Posso comprar muita coisa. Não significa que eu precise.
Minha mãe ficou séria.
— Você fez bem em não me contar no começo.
Olhei para ela.
— Achei que ainda estivesse magoada.
— Fiquei. Mas se você tivesse contado naquele primeiro dia, eu teria entrado em pânico. Provavelmente ligaria para sua tia. Depois ela ligaria para alguém. Você me conhece.
Nós duas rimos.
Então ela acrescentou:
— Só tem uma coisa que eu gostaria de perguntar.
— O quê?
— Você ainda pensa no Lucas?
Olhei pela janela.
— Às vezes penso no que aconteceu. Não nele como alguém que eu quero de volta.
Essa diferença tinha levado quase um ano para ficar clara.
Eu não tinha esquecido.
Eu tinha integrado aquilo à minha história sem permitir que continuasse dirigindo minha vida.
Pouco depois, recebi um último e-mail pessoal de Lucas.
Ele dizia que estava saindo do Grupo Vértice para aceitar uma posição em outra empresa. Não pediu ajuda, não falou de Isabela e não tentou justificar o passado.
Escreveu apenas:
“Eu devia ter respeitado seu trabalho e nosso relacionamento quando ainda tinha os dois. Espero que você continue bem.”
Li duas vezes.
Depois respondi:
“Espero que você também siga bem.”
Era tudo que eu realmente sentia.
Mas, antes de enviar, parei.
Havia algo que eu ainda queria fazer, não por vingança, mas porque estava cansada de tratar o dia da loteria como se fosse uma parte vergonhosa da minha vida. Lucas tinha sido uma das razões pelas quais eu mantivera aquilo em segredo no início.
Agora ele já não tinha poder sobre a informação.
Acrescentei:
“Se algum dia você ainda se perguntou como consegui começar tão rápido, posso te contar pessoalmente antes de você sair da cidade. Sem segunda intenção.”
Ele respondeu meia hora depois.
“Quero saber.”
Marcamos um café para a semana seguinte.
Minha mãe perguntou por que eu faria aquilo.
Pensei bastante antes de responder.
— Porque durante muito tempo eu escondi o dinheiro para me proteger dele. Quero ter certeza de que agora posso contar sem esperar nada em troca.
— Nem a cara dele?
Sorri.
— Talvez eu queira ver a cara dele um pouco.
Minha mãe riu alto.
Mas quando chegou o dia, percebi que o verdadeiro motivo era outro.
Eu queria fechar aquele capítulo com a verdade inteira.
Não para mostrar a Lucas quanto dinheiro ele tinha “perdido” ao me perder.
Eu nunca tinha sido um prêmio que pertencia a ele.
Queria apenas olhar para o homem que decidiu meu valor profissional numa sala de reunião e dizer, sem raiva, que desde aquele dia nenhuma decisão importante sobre minha vida havia voltado para as mãos dele.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














