Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

Lucas chegou ao café dez minutos antes de mim. Quando entrei, ele já estava sentado perto da janela, usando a mesma camisa azul que costumava vestir em reuniões importantes. Durante três anos, eu tinha aprendido a reconhecer pequenas tentativas dele de controlar uma situação. A escolha daquela roupa era uma delas.

Sentei diante dele e coloquei o celular sobre a mesa.

— Tenho uma hora.

Ele soltou um sorriso cansado.

— Você ficou muito objetiva.

— Funcionou bem para você quando me demitiu.

O sorriso desapareceu.

Lucas começou dizendo que sentia falta de mim. Falou do apartamento vazio, dos nossos jantares, dos fins de semana em que trabalhávamos lado a lado e das viagens que havíamos planejado. Eu ouvi sem interromper, mas percebi que, em quase dez minutos, ele não tinha mencionado uma única vez o que havia feito.

— Lucas, você queria conversar sobre nós. Então fale sobre o motivo de nós termos terminado.

Ele desviou os olhos.

— A demissão foi uma decisão ruim.

— Foi injusta?

— A empresa realmente precisava reduzir pessoal.

— Não foi o que eu perguntei.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Seu desempenho não era um dos piores.

Finalmente.

Eu não senti a satisfação que imaginara.

— Então por que meu nome entrou na lista?

Lucas demorou a responder.

— Havia pressão para reorganizar a equipe. Isabela tinha experiência em um segmento que a direção queria desenvolver.

— E você achou conveniente manter ela.

— Sim.

— A proximidade entre vocês teve alguma influência?

Ele ficou quieto.

Não precisei repetir.

— Eu e Isabela estávamos próximos — disse por fim. — Conversávamos bastante. Saímos algumas vezes depois do trabalho.

— Vocês tinham um relacionamento?

— Não naquela época.

Eu o encarei.

Lucas percebeu que a resposta não resolveria nada e continuou:

— Existia interesse. Eu não vou mentir agora. Mas eu não planejei demitir você para ficar com ela.

— Talvez não tenha planejado dessa forma. Mas quando chegou a hora de escolher, você protegeu a pessoa por quem estava interessado e colocou meu nome na lista.

— Não foi tão simples.

— Para quem perdeu o emprego, foi.

Ele tentou tocar minha mão. Eu afastei a minha.

Lucas respirou fundo.

— Eu achei que você entenderia.

A frase me atingiu mais do que a confissão sobre Isabela.

— Você achou que eu entenderia ser prejudicada porque era sua namorada?

— Achei que você conseguiria outro emprego. Você sempre foi boa.

— Então meu talento virou justificativa para eu ser sacrificada.

Ele não respondeu.

Ali estava a lógica inteira do nosso relacionamento nos últimos anos. Eu resolvia problemas, segurava pontas, encontrava clientes, entendia atrasos e aceitava compromissos porque “dava conta”. Minha capacidade tinha virado permissão para que ele me tratasse como a pessoa que suportaria qualquer coisa.

— Eu quero tentar de novo — Lucas disse.

— Não.

Ele pareceu surpreso com a rapidez.

— Você nem pensou.

— Eu pensei durante meses. Só não pensei hoje.

— É por causa da Isabela?

— É por sua causa.

Lucas se inclinou para frente.

— Você está com outra pessoa?

Quase ri.

— Não.

— Então por que tanta certeza?

Olhei para ele e percebi algo estranho: durante três anos, eu tinha acreditado que terminar significaria perder uma parte essencial da minha vida. Sentada ali, entendi que o vínculo já tinha acabado antes de eu fechar a porta do apartamento. A demissão apenas me obrigou a enxergar.

— Porque eu não quero mais viver com alguém que acredita que meu amor é uma garantia de que eu vou aceitar ser colocada em segundo plano.

Lucas apertou a mandíbula.

— Você fala como se eu fosse um monstro.

— Eu nunca disse isso.

E era verdade.

Lucas não precisava ser um monstro para ter feito uma escolha egoísta.

— Você tomou uma decisão que me mostrou como me vê quando seus interesses entram em conflito com os meus. Isso basta.

Ele ficou em silêncio.

Quando a hora terminou, levantei.

Lucas perguntou:

— Sua empresa está indo bem?

— Está.

— Você abriu rápido demais. Sempre achei estranho.

Ali estava outra vez aquela curiosidade.

— O que exatamente é estranho?

— Você saiu sem economia e, semanas depois, alugou escritório, abriu empresa, contratou gente…

— Eu aluguei uma mesa em coworking e contratei uma pessoa depois de fechar contratos. Você está acompanhando minha vida de perto demais.

Ele recuou.

— Só fiquei preocupado.

— Não precisa.

Paguei meu café e fui embora.

No estacionamento, fiquei alguns minutos dentro do carro por aplicativo antes de pedir ao motorista que seguisse. Não chorei. Também não senti raiva.

Senti encerramento.

Na semana seguinte, tomei uma decisão que vinha considerando havia algum tempo: aumentei minha retirada mensal da empresa apenas quando a receita passou a sustentar isso. Todo o resto continuava separado da fortuna da loteria.

Eu queria saber exatamente quanto da minha nova vida profissional existia porque eu havia construído e quanto existia porque eu tinha dinheiro suficiente para não ter medo.

A resposta começava a ficar clara.

O prêmio tinha me dado liberdade.

Mas não tinha conseguido me dar competência, confiança de clientes nem coragem para dizer não a Lucas.

Essas partes eram minhas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1