
PARTE 4
O primeiro projeto da Nunes Estratégia terminou melhor do que eu esperava. Marcelo me indicou para outro empresário, e esse segundo trabalho foi um pouco maior. Em menos de dois meses, eu ainda não tinha uma empresa poderosa, mas tinha algo mais importante: clientes que haviam escolhido trabalhar comigo sem saber nada sobre a loteria.
Isso me deu coragem para tomar uma decisão que eu vinha adiando. Eu não queria continuar fingindo para minha mãe que tudo estava apenas “mais ou menos”. Também não estava pronta para revelar os R$ 96 milhões, então fui visitá-la com a intenção de contar pelo menos toda a verdade sobre Lucas.
Ela morava em Campinas, em um apartamento simples onde eu passara boa parte da adolescência. Assim que cheguei, minha mãe colocou comida demais na mesa e começou a perguntar se eu estava me alimentando direito. Esperei até o café para tocar no assunto.
— Mãe, eu não terminei com Lucas porque fiquei nervosa com a demissão.
Ela suspirou.
— Eu sei que ele errou, filha, mas todo casal…
— Não foi uma discussão de casal. Ele era meu chefe e aprovou minha demissão sabendo o quanto eu tinha contribuído para o departamento.
Contei sobre Isabela, deixando claro que eu não tinha prova de traição. Contei também que Paula a tinha visto saindo do carro dele e que a forma como Lucas tratara a situação havia destruído minha confiança.
Minha mãe ficou diferente quando ouviu tudo de uma vez. Em vez de me interromper, começou a fazer perguntas.
— Ele nunca falou com você antes da lista?
— Não.
— Nunca disse que seu desempenho estava ruim?
— Nunca. Ao contrário.
Ela baixou os olhos para a xícara.
— Então eu não deveria ter ligado para você defendendo ele.
Era a primeira vez que ela dizia aquilo.
Não precisei que pedisse desculpas de maneira dramática. Só aquela mudança já significava muito.
— Eu precisava que você me perguntasse o que aconteceu antes de decidir que eu estava errada.
Minha mãe assentiu devagar.
Quando fui embora, ela não perguntou quando eu encontraria outro namorado. Perguntou se minha nova empresa estava indo bem.
— Está começando.
— E você consegue se sustentar?
Olhei para ela.
Tecnicamente, eu poderia sustentar várias gerações da nossa família. Mas respondi:
— Consigo.
Era verdade.
No trabalho, entretanto, a situação do Grupo Vértice continuava alcançando minha vida pelas bordas. Alguns antigos colegas comentavam que a conta da Construtora Horizonte estava cada vez mais difícil. Eu evitava incentivar fofocas, mas era impossível não perceber que a troca de responsável não tinha sido tão simples quanto Lucas imaginara.
O cliente me procurou diretamente alguns dias depois.
Dessa vez, tomei cuidado.
O diretor de marketing da Horizonte disse que gostava do meu trabalho e perguntou se eu poderia assumir um projeto novo, completamente separado do contrato que eles ainda mantinham com o Grupo Vértice. Antes de aceitar, pedi ao contador e a uma advogada que verificassem se havia alguma obrigação contratual que pudesse gerar conflito.
A análise não revelou impedimento para aquele novo serviço independente, desde que eu não utilizasse informações confidenciais do meu antigo empregador. Só então enviei uma proposta.
Quando o contrato foi assinado, passei quase quinze minutos olhando minha própria assinatura.
Era o maior projeto da Nunes Estratégia até então.
Eu poderia ter feito tudo sozinha, mas decidi contratar ajuda. Não queria repetir o erro de empresas que dependiam de uma única pessoa enquanto fingiam que qualquer funcionário era substituível.
Contratei uma analista chamada Camila em regime formal, com salário compatível e funções definidas. Na primeira semana, expliquei que eu preferia que ela dissesse “não sei” a fingir que sabia tudo.
Camila riu.
— Meu último chefe dizia o contrário sem dizer.
— Então vamos tentar fazer diferente aqui.
Ter uma funcionária mudou minha rotina. Eu já não trabalhava apenas para provar alguma coisa a mim mesma; precisava organizar processos para outra pessoa conseguir crescer ao meu lado.
Essa responsabilidade me trouxe uma clareza inesperada.
Durante anos, eu tinha associado poder profissional a cargo, salário e tamanho da empresa. Lucas tinha se tornado diretor e começara a agir como se a posição fosse uma prova de que ele estava acima das pessoas que o ajudaram.
Eu não queria fazer o mesmo.
Por isso, mesmo com milhões guardados, estabeleci metas reais para a Nunes Estratégia. A empresa deveria pagar seus próprios custos e crescer apenas se tivesse receita e demanda para isso. O prêmio seria meu colchão de segurança, não uma máquina artificial para comprar aparência de sucesso.
No fim daquele mês, Lucas me escreveu novamente.
Dessa vez não falou de trabalho.
“Podemos jantar? Sem discussão. Só conversar como duas pessoas que passaram três anos juntas.”
Fiquei olhando para a mensagem.
Meses antes, eu teria interpretado aquilo como uma chance de obter respostas.
Agora me perguntei se realmente precisava delas.
Mesmo assim, havia uma pergunta que eu ainda não tinha encerrado dentro de mim: o que existia entre ele e Isabela antes da minha demissão?
Respondi que aceitaria um café em local público, por uma hora.
Não porque quisesse voltar.
Mas porque eu já conseguia ouvir a verdade sem depender dela para decidir o meu futuro.
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