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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

O semestre terminou com a Nunes Estratégia no azul. Não era um resultado extraordinário perto da fortuna que eu escondia, mas era exatamente o tipo de resultado que eu desejava: a empresa pagava salários, impostos, aluguel e fornecedores com o dinheiro que ela própria gerava. Eu não precisava fingir que o negócio era maior do que realmente era.

Também comecei a tirar férias de verdade.

Foram apenas quatro dias em uma pousada tranquila, sem reunião e sem computador. No segundo dia, percebi que havia passado anos acreditando que descansar significava deixar alguém na mão. Lucas costumava elogiar minha dedicação quando ela resolvia problemas dele; eu tinha confundido aquilo com reconhecimento.

Voltei diferente.

Dei mais autonomia a Camila, documentei processos e parei de responder mensagens de trabalho depois de determinado horário, salvo emergências reais. A empresa funcionou. Nada desabou porque eu não estava disponível vinte e quatro horas por dia.

Minha mãe percebeu essa mudança antes de qualquer outra pessoa.

— Você parece mais leve — disse durante um almoço.

— Acho que estou.

Ela me observou.

— Ainda não entendo como você ficou tão tranquila financeiramente depois de ser demitida.

Quase engasguei com a água.

A pergunta inevitável tinha chegado.

Eu já havia passado meses organizando o patrimônio, consultado especialistas e aprendido a dizer não sem culpa. Então percebi que esconder para sempre também seria uma forma de viver com medo.

— Mãe, eu vou te contar uma coisa. Mas antes você precisa me prometer que não vai contar para ninguém.

Ela franziu a testa.

— É alguma coisa ruim?

— Não.

— Você está grávida?

— Mãe.

Ela levantou as mãos.

— Está bem. Não vou contar.

Respirei fundo.

— No dia seguinte à minha demissão, eu ganhei na loteria.

Ela riu.

Quando percebeu que eu não estava rindo, parou.

— Quanto?

— Muito.

— Quanto é “muito”?

— O suficiente para eu nunca mais precisar me preocupar com aluguel.

Minha mãe empalideceu.

Contei o valor aproximado.

Ela ficou vários segundos sem falar.

Depois se levantou, foi até a cozinha, voltou e se sentou novamente.

— Você está falando sério?

— Estou.

— E você guardou isso de mim por meses?

— Guardei de todo mundo.

Seu primeiro sentimento foi choque. O segundo, claramente, mágoa.

— Você achou que eu contaria?

Eu não respondi imediatamente.

— Achei que você ficaria tão assustada e animada que poderia falar com alguém sem perceber o risco.

Ela abriu a boca para negar, depois fechou.

Conhecia a si mesma o suficiente.

— Talvez — admitiu.

Expliquei o que vinha fazendo. Contas separadas, investimentos conservadores, orientação profissional, limites. Também deixei algo muito claro.

— Eu quero ajudar você quando fizer sentido. Mas não quero que essa informação vire assunto da família, nem que apareçam pedidos em meu nome.

Minha mãe assentiu devagar.

— Eu não preciso do seu dinheiro.

— Eu sei.

— Só preciso me acostumar à ideia de que minha filha tem quase cem milhões de reais e continua discutindo aluguel de escritório.

Comecei a rir.

Ela também.

Foi a primeira pessoa da minha vida pessoal a saber.

E, curiosamente, contar não me fez sentir exposta. Fez-me perceber que eu tinha aprendido a estabelecer condições antes de entregar confiança.

Algumas semanas depois, outra mudança aconteceu.

Lucas deixou o cargo de diretor do departamento.

A notícia chegou por meio de uma publicação profissional do próprio Grupo Vértice. O comunicado dizia que haveria uma reorganização de liderança e que ele passaria para uma função sem gestão direta de equipe.

Não comemoramos no escritório.

Não mandei mensagem.

Não compartilhei a publicação.

O que acontecia com a carreira de Lucas já não era uma extensão da minha vida.

Paula me escreveu:

“Você viu?”

Respondi:

“Vi. Espero que o departamento fique bem.”

Ela mandou um emoji surpreso e depois disse que eu estava “evoluída demais”.

Sorri, mas a verdade era mais simples.

Eu tinha parado de precisar que Lucas perdesse para provar que eu tinha sido injustiçada.

A consequência profissional dele não apagava o que aconteceu comigo.

E meu crescimento não dependia da queda dele.

Naquela noite, minha mãe me ligou e fez a pergunta que eu sabia que viria cedo ou tarde:

— O Lucas sabe sobre a loteria?

— Não.

— Você pretende contar?

Olhei pela janela do meu apartamento.

— Não sei.

Por meses, esconder o dinheiro tinha sido uma forma de me proteger.

Agora eu começava a entender que a questão não era mais se Lucas merecia saber.

Era se contar serviria a algum propósito para mim.

E, pela primeira vez, eu não tinha pressa para responder.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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