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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Quatro meses depois da demissão, a Nunes Estratégia já tinha quatro clientes recorrentes. Eu continuava trabalhando em uma mesa simples, mas o coworking começava a ficar pequeno para mim, Camila e um segundo profissional que tínhamos contratado por projeto. Pela primeira vez, pensei em alugar uma sala própria não porque podia pagar, mas porque a operação realmente precisava.

Antes de tomar a decisão, sentei com o contador e revisei números. Receita, despesas, impostos, projeções e contratos. Se o prêmio desaparecesse da minha vida naquele instante, a empresa ainda conseguiria arcar com um espaço pequeno por pelo menos um ano. Só então assinei.

O escritório tinha três salas, uma pequena copa e janelas que davam para uma avenida movimentada. Nada luxuoso. Mesmo assim, no primeiro dia em que coloquei uma placa discreta com o nome da empresa na entrada, tirei uma foto.

Não publiquei em lugar nenhum.

Mandei apenas para minha mãe.

Ela respondeu quase imediatamente: “Tenho orgulho de você.”

Fiquei olhando para aquelas quatro palavras.

Meses antes, a preocupação dela era que eu nunca encontrasse outro homem “tão bem-sucedido” quanto Lucas. Agora, pela primeira vez, ela parecia enxergar minha vida sem usar um relacionamento como medida.

Nosso vínculo também começou a mudar. Eu passei a visitá-la mais vezes, mas estabeleci limites sempre que ela fazia perguntas demais sobre dinheiro. Dizia que o negócio estava bem, que eu estava segura e que não precisava de ajuda.

Ainda não era hora de contar sobre a loteria.

Eu queria organizar tudo antes.

Com orientação profissional, distribuí o patrimônio entre instituições, montei uma reserva de alta liquidez, defini limites para investimentos de maior risco e preparei documentos básicos de planejamento patrimonial. Não fiz movimentos mirabolantes. Quanto mais eu aprendia, mais entendia que proteger uma fortuna era, muitas vezes, menos emocionante do que ganhá-la.

Enquanto minha vida ficava mais organizada, a de Lucas parecia seguir o sentido oposto.

Eu soube disso por uma razão profissional, não por fofoca.

A Construtora Horizonte decidiu não renovar uma parte importante do contrato com o Grupo Vértice. O diretor explicou a mudança durante uma reunião comigo, porque pretendia ampliar o trabalho com a Nunes Estratégia.

— Depois que você saiu, tivemos muita troca de atendimento — disse. — Não é questão de uma pessoa só. A estrutura perdeu continuidade.

Aquilo era importante.

Não era uma história em que um cliente abandonava uma empresa inteira apenas porque sentia minha falta. Havia problemas de processo, comunicação e gestão que ficaram expostos depois que eu saí.

Aceitei apenas os projetos que minha equipe conseguia entregar. Recusei o restante.

Quando contei isso a Camila, ela arregalou os olhos.

— Você recusou receita?

— Recusei trabalho que ainda não temos estrutura para fazer bem.

Ela sorriu.

— Acho que nunca ouvi um chefe falar isso.

— Então precisamos normalizar.

Alguns dias depois, Lucas apareceu na recepção do escritório.

Eu não tinha dado meu endereço a ele, mas a informação era pública no cadastro da empresa. A recepcionista perguntou se eu queria recebê-lo.

Pensei por alguns segundos.

— Dez minutos.

Lucas entrou olhando em volta.

— Então é aqui.

— É.

— Cresceu rápido.

— O que você precisa?

Ele soltou o ar.

— Você sempre fala comigo como se eu fosse um fornecedor.

— Quando você aparece no meu trabalho sem marcar horário, é uma boa referência.

Lucas ignorou.

— A Horizonte ampliou o contrato com você.

Não era uma pergunta.

— Sim.

— Você foi atrás deles?

— Não.

— Helena, seja honesta.

— Estou sendo.

Expliquei que o cliente havia me procurado e que eu inclusive pedira análise jurídica antes de aceitar qualquer serviço. Lucas ouviu com os braços cruzados.

— Você sabe como isso parece.

— Parece que um cliente contratou uma empresa.

— Parece vingança.

A palavra me irritou, mas não levantei a voz.

— Lucas, se eu quisesse vingança, teria passado os últimos meses falando sobre você. Eu passei os últimos meses trabalhando.

Ele ficou em silêncio.

Então disse:

— O conselho está revisando o desempenho do departamento.

Eu não sabia disso.

— E?

— A perda da conta entrou na avaliação.

Entendi por que ele tinha vindo.

— Você quer que eu faça o quê?

— Diga à Horizonte que a mudança de contrato não teve relação com meu departamento.

— Eu não posso falar em nome do cliente.

— Você pode explicar que não houve problema pessoal.

— Também não posso alterar fatos para proteger sua avaliação.

Lucas ficou vermelho.

— Depois de tudo que eu fiz por você…

Foi a frase errada.

— O que você fez por mim?

Ele abriu a boca, mas não respondeu.

— Você aprovou minha demissão e depois pediu que eu voltasse como consultora para corrigir a transição. Eu fiz o trabalho contratado e fui paga por isso. Nossa conta está encerrada.

Lucas levantou.

— Você mudou.

— Sim.

Dessa vez, eu não disse aquilo com raiva.

Eu realmente tinha mudado.

Não porque agora tinha R$ 96 milhões.

Mas porque havia parado de confundir gratidão com obrigação.

Quando ele saiu, voltei para a reunião que tinha interrompido.

Havia propostas para revisar, uma equipe esperando decisões e uma empresa que não dependia da aprovação dele.

Pela primeira vez, Lucas tinha chegado ao meu espaço profissional.

E foi ele quem saiu sem conseguir determinar o que aconteceria ali.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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