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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Na manhã seguinte, acordei com duas certezas: eu não voltaria para Lucas e não faria nenhuma loucura por causa do dinheiro. Assinei o contrato do novo apartamento, paguei caução e aluguel antecipado pelos meios normais e pedi para receber as chaves dois dias depois. Pela primeira vez em três anos, tomei uma decisão importante sem imaginar o que Lucas pensaria dela.

Passei o resto do dia empacotando minhas coisas e cancelando serviços vinculados ao apartamento antigo. Tudo que estava em meu nome foi encerrado ou transferido para uma data definida. Não deixei dívidas, não fiz cena e também não deixei nenhuma brecha para Lucas dizer que dependia de mim por acidente.

Quando avisei a imobiliária que não renovaria o contrato, descobri que Lucas nunca tinha sido incluído formalmente como locatário. Isso significava que ele não poderia simplesmente continuar morando ali como se nada tivesse acontecido. Mandei uma única mensagem por e-mail informando a data de entrega das chaves e explicando que qualquer decisão futura sobre o imóvel teria de ser tratada diretamente com a proprietária.

Ele respondeu em menos de dez minutos. Primeiro disse que eu estava exagerando, depois perguntou onde eu pretendia morar e, por último, escreveu que meu orgulho acabaria me fazendo voltar. Não respondi nenhuma das três coisas. Arquivei o e-mail.

Também procurei orientação financeira. Não porque eu quisesse multiplicar R$ 96 milhões da noite para o dia, mas justamente porque tinha medo de fazer alguma coisa idiota. Conversei com profissionais de duas instituições diferentes, ouvi propostas, comparei custos e decidi deixar a maior parte do dinheiro em alternativas conservadoras enquanto aprendia melhor como administrá-lo.

Estabeleci uma regra simples para mim mesma: durante os primeiros seis meses, nenhuma compra que pudesse mudar minha vida de forma irreversível. Nada de cobertura, carro importado, sociedade impulsiva ou empréstimo para conhecido. Eu precisava aprender a ser a mesma Helena com dinheiro antes de descobrir quem seria depois dele.

Dois dias depois, levei minhas malas para o novo apartamento. O lugar era maior que o anterior, silencioso e iluminado, mas não parecia uma mansão nem chamava atenção. Coloquei os livros numa estante vazia, preparei café e percebi que aquele era o primeiro endereço adulto que eu tinha escolhido apenas para mim.

Minha mãe ligou três vezes durante a mudança. Na terceira, atendi. Ela queria saber se eu tinha feito as pazes com Lucas, e precisei repetir que não havia briga esperando reconciliação; havia um relacionamento encerrado.

— Filha, três anos não se jogam fora assim — ela insistiu.

— Eu também pensava assim. Por isso aguentei muita coisa sem perceber.

Ela ficou em silêncio. Não contei sobre a loteria, mas também não inventei uma versão confortável para ela. Disse apenas que Lucas tinha aprovado minha demissão, que eu desconfiava da proximidade dele com Isabela e que, acima de tudo, eu não confiava mais nele.

Naquela mesma semana, recebi o valor da rescisão. R$ 23 mil. Quando a notificação apareceu no celular, fiquei olhando para ela e pensei em como, poucos dias antes, aquela quantia representava meses de sobrevivência para mim. Transferi o dinheiro para uma conta separada e decidi que não misturaria minha rescisão com o prêmio; precisava lembrar que eu tinha trabalhado três anos para merecer aquele valor.

Na sexta-feira, Paula me mandou uma mensagem perguntando se eu estava bem. Disse que o clima no departamento tinha piorado e que Isabela estava ocupando algumas das minhas contas. Respondi apenas que estava reorganizando a vida e pedi que ela não se envolvesse em nenhuma discussão por minha causa.

Antes de dormir, abri meu computador e atualizei o currículo. Eu tinha dinheiro suficiente para nunca mais trabalhar, mas a ideia de transformar minha demissão no ponto final da minha carreira me incomodava. Eu não queria que Lucas continuasse sendo a última pessoa a decidir se meu trabalho tinha valor.

Na segunda-feira seguinte, em vez de procurar vagas imediatamente, abri uma página em branco e escrevi uma pergunta no topo: “Que tipo de trabalho eu escolheria se não estivesse trabalhando por medo de ficar sem dinheiro?” Fiquei quase uma hora olhando para a tela antes de começar a responder. Pela primeira vez, minha próxima decisão profissional não precisava ser uma fuga.

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