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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Quase oito meses haviam passado desde a demissão quando a Nunes Estratégia recebeu sua maior proposta até então. Era um contrato anual de consultoria para uma empresa nacional, obtido por indicação de dois clientes anteriores. Quando terminei a apresentação, o diretor perguntou quantas pessoas trabalhavam comigo e pareceu surpreso ao ouvir o número.

— Vocês entregam como uma equipe maior.

— Porque não aceitamos mais projetos do que conseguimos administrar.

Ele sorriu.

— Foi exatamente por isso que recebemos boas referências.

Saí daquela reunião pensando no contraste.

No Grupo Vértice, eu tinha aprendido que crescimento significava assumir cada vez mais trabalho até alguém quebrar. Na minha empresa, começava a descobrir que dizer não podia ser parte de crescer bem.

Aceitamos o contrato, mas também contratamos duas pessoas antes do início da operação. Eu poderia ter pago aqueles salários do meu próprio bolso por décadas, mas a empresa já tinha caixa para sustentá-los. Fiz questão de manter essa disciplina.

A fortuna continuava praticamente invisível na minha rotina diária.

Comprei um carro confortável, sem extravagância, depois de meses dependendo de aplicativo. Ajudei minha mãe a quitar uma pequena dívida que ela vinha pagando, mas fiz isso depois de conversarmos sobre limites. Não comprei imóveis para parentes, não distribuí dinheiro e não contei a história a ninguém além dela e dos profissionais que precisavam saber.

Essa normalidade começou a me fazer bem.

Até que Lucas voltou a aparecer.

Dessa vez, não foi no escritório.

Ele me encontrou depois de uma palestra empresarial em que eu havia participado de uma mesa sobre relacionamento com clientes. Eu o vi esperando perto da saída e considerei simplesmente passar direto.

— Helena.

Parei.

Lucas parecia mais cansado do que meses antes, mas não estava destruído nem arruinado. Continuava empregado, continuava bem vestido e continuava sendo um profissional experiente. A vida dele também tinha seguido.

— Posso falar com você cinco minutos?

Concordei.

Fomos até um espaço mais afastado.

— Vi sua apresentação — ele disse. — Você está indo muito bem.

— Obrigada.

— Fiquei sabendo que você contratou mais gente.

— Sim.

Ele sorriu de uma maneira estranha.

— Eu subestimei você.

— Subestimou.

Não havia motivo para aliviar a frase.

Lucas abaixou os olhos.

— Eu e Isabela terminamos.

Aquilo confirmou algo que eu já suspeitava, mas não provocou o impacto que talvez ele esperasse.

— Vocês ficaram juntos depois que nós terminamos?

— Sim.

— Então espero que vocês tenham resolvido as coisas de forma adulta.

Ele pareceu desconcertado.

— É só isso?

— O que você queria que eu dissesse?

— Não sei. Achei que você gostaria de saber.

— Meses atrás, talvez.

Lucas respirou fundo.

— Eu comecei a me envolver com ela pouco depois da sua demissão. Antes disso, como eu te disse, existia interesse. Eu não te traí fisicamente enquanto estávamos juntos, mas sei que isso não torna a situação bonita.

— Não torna.

— Eu fui covarde.

Era a primeira vez que ele usava aquela palavra sobre si mesmo.

Fiquei em silêncio.

— Quando surgiu a redução de pessoal, eu convenci a mim mesmo de que você se recuperaria rápido. Achei que manter Isabela seria melhor para a equipe e… também era melhor para mim naquele momento.

— Eu sei.

— Não, você suspeitava. Estou dizendo agora.

Assenti.

A confirmação doeu menos do que a suspeita tinha doído.

Talvez porque já não mudasse nenhuma decisão.

Lucas continuou:

— Quando a Horizonte reduziu o contrato, comecei a perceber o quanto eu tinha misturado decisões pessoais com profissionais. Depois vieram outros problemas. A diretoria tirou minha gestão.

Ele não tentou culpar Isabela.

Isso, pelo menos, era novo.

— Sinto muito pelo que aconteceu — disse.

— Eu também sinto. Mas não vou voltar.

Lucas ergueu os olhos.

— Eu não pedi isso.

— Ainda não.

Ele riu sem humor.

— Você sempre me conheceu bem.

— Conhecia.

A diferença entre as duas palavras ficou no ar.

Antes de ir embora, Lucas perguntou:

— Tem uma coisa que ainda não entendo. Como você conseguiu se reerguer tão rápido? Você parecia completamente sem reserva quando saiu.

Eu poderia ter contado ali.

Por alguns segundos, imaginei o rosto dele ao descobrir que, no dia seguinte à demissão, eu havia ganhado mais dinheiro do que ele provavelmente receberia em uma vida inteira.

Mas percebi que contar apenas para provocar uma reação ainda significaria entregar importância demais à reação dele.

— Eu tive uma oportunidade inesperada — respondi. — E usei bem.

Não era mentira.

Lucas assentiu, embora claramente não estivesse satisfeito.

Fui embora.

No carro, minha mãe me ligou perguntando se eu queria jantar no domingo. Aceitei.

Depois de desligar, pensei que aquela era uma das grandes mudanças dos últimos meses.

Antes, eu media cada decisão pela forma como Lucas responderia.

Agora eu podia carregar um segredo enorme diante dele e não sentir nenhuma necessidade de usá-lo como arma.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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