
PARTE 3
Minha resposta àquela pergunta ocupou quase três páginas. Eu gostava de estratégia de marketing, negociação e relacionamento com clientes. Gostava de pegar um projeto confuso, entender o que a empresa realmente precisava e organizar uma proposta que fizesse sentido. O que eu não queria mais era passar anos construindo resultados para alguém que pudesse apagar meu nome de uma lista assim que fosse conveniente.
Durante alguns dias, pesquisei o mercado de consultoria sem pressa. Fiz uma lista de custos, obrigações, estrutura mínima e possíveis áreas de atuação. Poderia simplesmente colocar milhões numa empresa e contratar dezenas de pessoas, mas aquilo seria usar dinheiro para fingir experiência empresarial que eu ainda não tinha. Decidi começar pequeno.
Reservei uma quantia limitada para o projeto, como se fosse uma profissional comum investindo suas economias. Aluguei uma estação em um espaço de coworking, contratei um contador e abri uma empresa de consultoria em marketing e desenvolvimento comercial. O nome escolhido foi simples: Nunes Estratégia.
Minha primeira regra era ainda mais importante que o orçamento: eu não iria atrás dos clientes do Grupo Vértice. Muitos deles me conheciam pessoalmente e alguns tinham meu número, mas eu não queria construir meu negócio em cima de uma guerra com Lucas. Se alguém me procurasse por iniciativa própria, eu ouviria; caso contrário, seguiria adiante.
Uma semana depois, aconteceu exatamente isso. Marcelo, gerente comercial de uma empresa de médio porte com quem eu havia conversado meses antes em um evento profissional, me mandou uma mensagem. Ele soubera que eu tinha saído do Grupo Vértice e perguntou se eu estava disponível para um projeto independente.
Meu primeiro impulso foi dizer sim imediatamente. O segundo foi respirar, pedir informações e preparar uma proposta como faria para qualquer cliente. Passei dois dias revisando escopo, prazos e entregas antes de enviar o orçamento. Quando Marcelo aceitou sem tentar reduzir o valor, senti uma satisfação que os milhões na conta não tinham conseguido me dar.
Era um contrato pequeno perto dos projetos que eu administrava antes. Mesmo assim, era meu.
Na mesma tarde, recebi um telefonema do Grupo Vértice. Não era Lucas. Era um gerente de contas chamado Roberto, que trabalhava em outro setor e me tratava com respeito desde que eu entrara na empresa.
— Helena, desculpa ligar assim. A equipe está tentando localizar alguns históricos do projeto Horizonte. Você sabe onde ficaram os arquivos finais?
Eu poderia ter respondido com ironia. Em vez disso, expliquei exatamente em quais pastas corporativas havia deixado tudo antes da demissão. Eu tinha feito a entrega corretamente.
— Está tudo lá. Se alguma coisa não estiver clara, o responsável atual deve seguir o material de transição que deixei.
Roberto hesitou.
— Entendi. Obrigado.
Antes de desligar, acrescentou:
— Para o que vale, eu não concordei com a forma como fizeram aquilo.
Não perguntei mais nada.
Dois dias depois, Lucas apareceu no meu e-mail profissional. “Precisamos conversar sobre o projeto Horizonte.” Ignorei.
Uma hora depois, veio outra mensagem. “O cliente está reclamando da mudança de responsável. Você poderia fazer uma reunião de transição?”
Aquilo me fez parar.
Eu havia sido demitida sem que me permitissem participar de uma transição adequada. Agora, quando perceberam que a conta não funcionava simplesmente trocando meu nome pelo de outra pessoa, queriam meu tempo de volta.
Respondi de maneira objetiva. Informei que não era mais funcionária do Grupo Vértice e que qualquer consultoria eventual precisaria ser solicitada formalmente à minha empresa, com escopo e remuneração definidos. Não mencionei nossa relação pessoal nem Isabela.
Lucas ligou dez minutos depois.
Atendi porque, dessa vez, o assunto era profissional.
— Você está cobrando para explicar um projeto que começou quando trabalhava aqui? — ele perguntou.
— Não. Tudo que eu tinha obrigação de entregar está nos arquivos da empresa. Vocês querem que eu participe de uma nova reunião com o cliente depois do meu desligamento. Isso é trabalho novo.
— Helena, não complica.
— Não estou complicando. Estou separando trabalho de favor pessoal. Foi você quem me ensinou essa diferença.
Ele ficou alguns segundos calado.
— Você abriu uma empresa?
— Abri.
— Com que dinheiro?
A pergunta me fez sorrir.
— Isso não diz respeito ao Grupo Vértice.
— Você mal recebeu a rescisão.
— Lucas, você ligou para falar do projeto ou da minha conta bancária?
Ele não respondeu imediatamente.
No fim, disse que avaliaria internamente a contratação. Eu desejei boa tarde e desliguei.
Três dias depois, o Grupo Vértice aceitou pagar por duas horas de consultoria. O pedido veio por e-mail formal, sem nenhuma palavra pessoal de Lucas. Eu quase recusei, mas percebi que aceitar nos meus termos era mais útil do que fugir de qualquer coisa ligada àquele passado.
Entrei na videoconferência com Roberto, Isabela e Lucas.
Isabela estava séria. Lucas evitava me olhar diretamente.
Durante duas horas, expliquei histórico de decisões, pontos sensíveis da conta e expectativas do cliente. Não entreguei informação que não pertencesse à empresa nem fiz o trabalho que cabia à equipe atual. Apenas organizei aquilo que eles deveriam ter organizado antes de me mandar embora.
Quando a reunião terminou, Roberto agradeceu.
Lucas não disse nada.
No dia seguinte, a Nunes Estratégia recebeu o pagamento.
Não era um valor que mudaria minha vida financeira. Mas representava algo muito maior: a empresa que tinha decidido que meu trabalho não valia a pena agora pagava para ter algumas horas dele.
Naquela noite, sentei no sofá do novo apartamento e não senti vontade de comemorar a derrota de ninguém. Eu apenas percebi que já não precisava que Lucas admitisse que tinha cometido um erro.
A realidade começava a fazer isso por ele.
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