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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

No dia marcado para buscar minhas coisas, cheguei à casa pouco depois das nove da manhã. Eu tinha avisado Bruno com antecedência e levado apenas uma amiga para me ajudar a carregar as caixas. Não queria testemunhas para uma briga; queria alguém ao meu lado para que eu não me perdesse entre lembranças e acabasse ficando mais tempo do que precisava.

Bruno abriu a porta antes que eu tocasse a campainha. Estava de camisa social, sem gravata, e parecia não ter dormido bem. Durante alguns segundos, nenhum de nós disse nada. Meu olhar atravessou a sala e encontrou pequenas mudanças que não existiam quando eu saíra dali.

Uma manta diferente sobre o sofá. Um par de sapatos femininos perto do corredor. Um perfume que eu não reconhecia sobre o aparador.

Não precisava perguntar de quem eram.

— A Júlia não está aqui — ele disse rapidamente, como se estivesse lendo meus pensamentos.

— Melhor assim.

Passei por ele e fui direto para o quarto que tinha sido nosso.

Eu havia imaginado que aquela seria a parte mais difícil. Durante semanas, cada vez que lembrava daquela casa, vinha à cabeça a vida que eu tinha planejado viver ali. Mas, quando comecei a abrir as gavetas e separar minhas coisas, senti algo diferente.

Cansaço, sim.

Tristeza também.

Mas não vontade de ficar.

Bruno permaneceu no batente da porta por alguns minutos.

— Você realmente vai levar tudo?

— Tudo o que é meu.

— E o resto?

Parei de dobrar uma blusa e olhei para ele.

— O resto a gente resolve pelo acordo.

Ele soltou uma risada sem humor.

— Você consegue falar desse casamento como se fosse um contrato qualquer.

— Você conseguiu passar nossa lua de mel com outra mulher como se fosse uma viagem qualquer.

Bruno não respondeu.

Voltei a arrumar a mala.

Desta vez, a discussão terminou ali.

No escritório, encontrei alguns cadernos antigos e uma caixa onde eu guardava documentos profissionais. Havia certificados, projetos de anos atrás, cartões de visita e anotações de uma época em que minha rotina não girava apenas em torno da empresa de Bruno, da casa e dos planos que fazíamos juntos.

Segurei um dos cartões por tempo demais.

Eu me lembrava da mulher que tinha mandado imprimir aquilo.

Ela trabalhava, tinha rotina própria, fazia planos que não precisavam ser aprovados por ninguém.

Eu não sabia exatamente quando tinha começado a deixá-la para trás.

Talvez tivesse acontecido aos poucos, enquanto Bruno trabalhava cada vez mais e eu assumia cada vez mais coisas fora do escritório.

Na época, parecia apenas uma escolha conveniente para o casal.

Três anos depois, ele transformara aquela escolha em argumento para me dizer que eu não sobreviveria sem ele.

Coloquei os documentos dentro de uma caixa separada.

Antes de sair do quarto, Bruno falou:

— Lívia, eu não quis dizer aquilo daquele jeito.

— Qual parte?

— Que você não conseguiria viver sem mim.

Sorri sem vontade.

— Mas foi exatamente isso que você disse.

— Eu estava nervoso.

— Nervoso não inventa o que a gente pensa. Só tira o filtro.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Você passou oito anos comigo. Você sabe quem eu sou.

— Talvez esse seja o problema, Bruno. Eu passei oito anos acreditando que sabia.

A frase ficou entre nós.

Minha amiga apareceu no corredor perguntando onde deveria colocar mais uma caixa, e a conversa morreu.

Quando terminamos, havia cinco caixas, duas malas e uma pequena pilha de objetos pessoais.

O restante ficou.

Quadros que eu tinha escolhido.

Louças compradas para receber amigos.

Uma poltrona que levei três meses para decidir.

Bruno observou tudo.

— Você não vai levar nada disso?

— Não preciso.

— Você passou meses escolhendo essas coisas.

— Eu sei.

— Então por que está deixando?

Fechei a última mala.

— Porque gostar de uma coisa não significa que eu precise carregá-la comigo para sempre.

Ele ficou calado.

Talvez finalmente tivesse percebido que eu não estava falando apenas dos móveis.

Na saída, Bruno tentou me entregar uma chave.

— Fica com ela.

Olhei para a chave na palma da mão dele.

— Não.

— Ainda não resolvemos a casa.

— O advogado vai resolver a parte jurídica. Eu estou resolvendo a minha.

Passei por ele.

Dessa vez, Bruno não tentou me impedir.

Nos dias seguintes, comecei a organizar uma rotina no apartamento pequeno que eu havia alugado. Não era luxuoso, não tinha nenhum dos móveis que eu tinha escolhido com tanto cuidado para a antiga casa e, na primeira noite, precisei comer sentada no chão porque minha mesa ainda não tinha chegado.

Curiosamente, dormi melhor ali do que havia dormido nas últimas semanas antes do casamento.

Também comecei a entrar em contato com antigos colegas.

A primeira mensagem foi difícil.

A segunda, menos.

Na terceira, já consegui escrever sem a sensação de que precisava justificar os três anos em que fiquei afastada.

Algumas pessoas demoraram a responder. Outras foram gentis. Uma antiga colega me mandou uma vaga que achou que combinava com minha experiência.

Eu não estava pronta para fingir que três anos fora do mercado não existiam.

Então não fingi.

Atualizei meu currículo, descrevi o que tinha feito antes da pausa e enviei a candidatura.

Dois dias depois, recebi um convite para uma entrevista.

Ao mesmo tempo, os advogados continuavam trocando propostas.

Bruno não queria discutir tudo apenas por intermédio deles.

Ele insistia em uma conversa presencial.

Eu recusei duas vezes.

Na terceira, escrevi:

“Se for para falar de reconciliação, não vou. Se for para resolver pendências reais, diga qual é o assunto.”

A resposta veio alguns minutos depois.

“Quero entender por que você decidiu tudo sem me dar chance de consertar.”

Li a frase devagar.

Então escrevi:

“Você teve a chance antes do casamento. Foi por isso que eu voltei.”

Não houve resposta.

No dia da entrevista, fiquei quase quinze minutos parada diante do espelho antes de sair.

Não era medo apenas de não conseguir a vaga.

Era a sensação de estar entrando em um lugar onde ninguém me conhecia como “a esposa do Bruno”.

Ali eu teria que responder por mim.

A entrevista durou quarenta minutos.

Perguntaram sobre minha experiência, sobre o tempo afastada e sobre como eu imaginava retornar ao ritmo profissional.

Eu respondi sem tentar parecer invulnerável.

Disse que sabia que teria uma curva de adaptação, mas também sabia trabalhar.

Quando saí do prédio, não tinha garantia de nada.

Mesmo assim, senti orgulho.

Eu tinha ido.

Naquela noite, Bruno ligou novamente.

Dessa vez, atendi.

— Eu fui à reunião com os advogados — ele disse.

— Eu sei.

— Eles falaram que você quer resolver isso rápido.

— Quero.

— Você está com tanta pressa assim de apagar oito anos?

Olhei pela janela do apartamento.

— Eu não estou apagando oito anos. Só estou me recusando a transformar oito anos em motivo para desperdiçar mais.

Ele ficou em silêncio.

— A Júlia está grávida — falou por fim.

— Eu sei.

— Isso complica as coisas.

— Para você, sim.

A resposta saiu sem crueldade.

Era apenas verdade.

Eu não tinha criado aquela situação.

Também não precisava resolvê-la.

— Você não sente nada? — ele perguntou.

Respirei fundo.

— Sinto. Mas sentir não significa voltar.

Depois que desliguei, fiquei alguns minutos olhando para o celular.

Antes, uma conversa assim teria me deixado acordada a noite toda.

Naquela vez, voltei ao computador.

Eu tinha recebido um e-mail.

A empresa queria me chamar para uma segunda entrevista.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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