Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Júlia perdeu a cor por um instante. A segurança com que tinha se aproximado de mim desapareceu assim que percebeu que eu não pretendia disputar Bruno com ela, mas também não aceitaria que dinheiro e bens fossem usados como se o casamento já tivesse deixado de existir. Ela apertou a folha de ultrassom entre os dedos e tentou recuperar o tom de superioridade. — O Bruno me dá o que quiser porque quer.

— Então não deve existir problema nenhum em deixar tudo registrado — respondi. — Meu advogado vai tratar do que for necessário. Eu não vou discutir isso com você no corredor de um hospital.

Ela soltou uma risada curta, mas nervosa. — Você está tentando me assustar? — Não. Eu só estou explicando que escolhas têm consequências. Depois disso, passei por ela e segui para o elevador.

Eu não tinha dado nem dez minutos de distância quando meu celular começou a tocar. O nome de Bruno apareceu na tela, e eu quase consegui imaginar Júlia contando a história do jeito mais conveniente para ela. Atendi porque ainda existiam assuntos pendentes entre nós, mas não disse nada primeiro. — Você bateu na Júlia?

— Bati — respondi. Não inventei desculpa nem tentei transformar o que eu tinha feito em outra coisa. — E não vou ficar repetindo essa conversa. Se ela não vier me provocar de novo, eu também não tenho motivo para procurar por ela.

Bruno respirou fundo do outro lado. — Ela está grávida, Lívia. Você não pode agir assim. — A gravidez dela não muda o que aconteceu entre nós. E também não muda o fato de que você permitiu que ela se mudasse para uma casa cuja situação patrimonial ainda nem foi resolvida.

Ele ficou alguns segundos em silêncio. Depois tentou voltar ao assunto que mais lhe interessava. — Você está mesmo querendo colocar advogado no meio de cada centavo que eu gasto? — Estou querendo que você entenda que o divórcio deixou de ser uma ameaça imaginária na sua cabeça. Ele está acontecendo.

A resposta pareceu atingi-lo de um jeito que minhas palavras anteriores ainda não tinham conseguido. Bruno falou mais baixo. — Você está fazendo isso só para me castigar. — Não, Bruno. Castigo seria eu continuar casada com você apenas para impedir que você ficasse com ela. Eu quero justamente o contrário.

Quando desliguei, liguei para meu advogado e contei, sem omitir o tapa, o que tinha acontecido no hospital. Ele não aprovou minha reação e foi direto ao ponto: eu deveria evitar qualquer outro confronto e deixar questões patrimoniais serem tratadas formalmente. Concordei. A partir daquele momento, eu não precisava vencer nenhuma discussão com Júlia.

Naquela mesma tarde, enviei ao escritório todas as informações que eu já tinha separado sobre contas, despesas e bens que precisavam ser analisados. Não havia solução instantânea, nem eu esperava que houvesse. Depois de oito anos de vida compartilhada e de um casamento recém-formalizado, seria necessário organizar documentos e definir o que realmente cabia a cada um. Pela primeira vez, aquilo deixou de parecer uma ameaça emocional e começou a parecer um processo concreto.

Bruno tentou me ligar outras três vezes naquela noite. Eu não atendi. Em vez disso, mandei uma mensagem curta dizendo que assuntos do divórcio deveriam seguir pelo advogado e que questões estritamente pessoais poderiam esperar até que ele fosse capaz de conversar sem tratar minha decisão como birra.

No dia seguinte, meu advogado recebeu o primeiro retorno do representante de Bruno. A resposta não aceitava o acordo como estava e pedia uma reunião para discutir os termos. Aquilo não me surpreendeu. Bruno sempre tinha acreditado que qualquer conflito poderia ser vencido se ele insistisse por tempo suficiente.

Eu também precisava buscar o restante das minhas coisas na casa. Por orientação do advogado, combinei um horário e avisei Bruno com antecedência. Não queria chegar de surpresa, não queria encontrar Júlia e, principalmente, não queria transformar a retirada de roupas, documentos e objetos pessoais em mais uma cena.

Bruno respondeu quase imediatamente. “Essa continua sendo a sua casa.” Fiquei alguns segundos olhando para a mensagem antes de digitar: “Não para mim.” Foi a primeira vez que senti que eu realmente acreditava nisso.

Enquanto esperava o dia combinado, abri o computador e encontrei uma pasta antiga com meu currículo. Fazia três anos que eu não trabalhava, exatamente como Bruno tinha usado contra mim. O documento parecia pertencer a outra versão de mim, mas, pela primeira vez em muito tempo, não senti vergonha disso.

Atualizei o que conseguia naquela noite e anotei nomes de antigos colegas com quem talvez pudesse voltar a falar. Eu não precisava provar a Bruno que sobreviveria sem ele. Precisava apenas descobrir, por mim mesma, como seria construir uma vida em que nenhuma decisão dependesse da aprovação dele.

Quando fechei o computador, já era madrugada. Havia um divórcio em andamento, uma casa que eu ainda precisava esvaziar e uma vida profissional que eu teria que reconstruir quase do zero. Nada estava resolvido, mas alguma coisa importante tinha mudado: eu tinha parado de esperar que Bruno entendesse minha decisão para começar a agir como alguém que realmente iria embora.

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