Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Naquela noite, esperei Nina terminar de comer, dei banho nela e a coloquei na cama. Quando saí do quarto, Caio ainda estava no sofá, exatamente na mesma posição, mas já não olhava para o celular. Ele percebeu pela minha expressão que eu queria conversar. — A Nina disse que fica triste quando passa o dia com você.

Caio ficou alguns segundos calado antes de responder. — Criança fala qualquer coisa quando está cansada. — Ela não estava cansada quando pediu para ir comigo para uma aula de oito horas porque preferia isso a ficar aqui. Ele apertou os lábios, incomodado, mas não disse nada.

Sentei-me na outra ponta do sofá. — Não estou dizendo que você precisa fazer tudo do meu jeito. Estou dizendo que estar no mesmo apartamento não é a mesma coisa que cuidar dela. Ela precisa comer, conversar, brincar, sair um pouco, sentir que alguém está prestando atenção. — Eu trabalho a semana inteira — respondeu ele. — No fim de semana também preciso descansar.

A resposta não me surpreendeu, mas desta vez eu não tentei aliviar o peso dela. — Eu também trabalho agora. E também estudo. Mesmo assim, ser mãe não desaparece quando estou cansada. Caio me encarou, como se aquela fosse a primeira vez em muito tempo que eu estava falando com ele sem pedir licença.

— Então o que você quer? — perguntou. — Que eu aprenda uma lista de regras? — Quero que você conheça sua filha. Não o cardápio que ela pede, não o horário em que ela fica quieta diante de uma tela. Quero que saiba do que ela gosta, quando sente fome, o que a assusta e o que faz ela rir.

Caio se levantou e começou a andar pela sala. — Parece que você está dizendo que sou um pai horrível. — Estou dizendo que, quando fica sozinho com ela, age como se estivesse cumprindo uma obrigação improvisada. Se isso continuar, nos próximos sábados vou contratar alguém para ficar com Nina enquanto estiver no curso.

Ele parou. — Você vai pagar uma babá enquanto o pai dela está em casa? — Se o pai estiver realmente disponível para ela, não. Se estiver apenas fisicamente presente, sim. Minha resposta saiu mais calma do que eu imaginava, e talvez por isso tenha atingido Caio com mais força.

No sábado seguinte, ele tentou. Levou Nina a uma praça perto de casa, almoçou com ela e conseguiu colocá-la para descansar depois do almoço. Quando voltei, encontrei brinquedos espalhados pela sala e uma panela usada sobre o fogão. Pela primeira vez, aquela pequena bagunça me pareceu melhor do que três embalagens frias sobre a mesa.

Mesmo assim, eu não confundi esforço com transformação. Continuei o curso, continuei trabalhando e parei de organizar minha agenda em torno dos horários de Caio. Quando um cliente marcava uma reunião, eu não recusava automaticamente porque ele talvez chegasse tarde. Apenas avisava com antecedência quando precisava que ele buscasse Nina na escola.

No começo, Caio sempre perguntava se eu não poderia remarcar. Depois entendeu que eu não faria isso. Duas vezes precisou sair do escritório no horário e buscar a filha pessoalmente. Nina voltou para casa contando, animada, que tinha mostrado ao pai a biblioteca da escola e apresentado sua professora de artes.

Enquanto isso, o projeto do hotel-boutique avançava. O proprietário gostou tanto das primeiras propostas que me pediu para acompanhar também a fase de instalação, escolhendo fornecedores e verificando se o resultado final respeitaria o projeto. Isso significava mais trabalho, mais responsabilidade e uma remuneração maior. Pela primeira vez em anos, alguém olhava para algo que eu fazia e enxergava mais do que uma atividade para ocupar meu tempo.

Contei a novidade a Caio durante o jantar. Ele ergueu as sobrancelhas. — Você vai precisar ir até o hotel? — Algumas vezes por semana. — E a Nina? — Nós dois somos responsáveis por ela. Não precisei acrescentar mais nada.

Naquela mesma semana, abri uma conta bancária só minha para organizar o que recebia dos projetos e os gastos profissionais. Não escondi isso de Caio. Quando ele perguntou por quê, respondi que precisava separar trabalho, impostos, curso e despesas pessoais. Ele ficou olhando para mim por alguns segundos, como se percebesse que aquilo que chamara de “trabalho por fora” começava a ocupar um lugar real.

No domingo à noite, enquanto eu revisava plantas no computador, Caio parou atrás da minha cadeira. — Você mudou muito nos últimos meses. Continuei olhando para a tela. — Não. Eu só comecei a fazer de novo algumas coisas que tinha deixado de fazer. Ele pareceu querer responder, mas permaneceu em silêncio.

Quando terminei o arquivo, fechei o computador e fui verificar se Nina estava coberta. Antes de entrar no quarto dela, olhei para a sala e vi Caio sozinho, sentado onde estivera naquela noite em que disse que, sem nossa filha, talvez nem lembrasse meu sobrenome. Pela primeira vez, não senti vontade de perguntar se ele tinha percebido a distância entre nós. Eu já tinha entendido que não precisava esperar que ele percebesse para continuar andando.

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