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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Continuamos a terapia por quase dois meses.

No começo, Caio tratava cada sessão como um problema que poderia ser resolvido com esforço suficiente. Fazia anotações mentais, perguntava o que deveria mudar e tentava executar tudo de forma quase disciplinada. Passou a cozinhar dois dias por semana, a buscar Nina sem que eu lembrasse e a perguntar sobre meus projetos com mais atenção.

Eu reconhecia cada gesto.

Também percebia que muitos chegavam tarde demais para produzir em mim o efeito que talvez produzissem anos antes.

Não queria punir Caio.

Essa era uma diferença importante.

Quando comecei a considerar seriamente a separação, precisei repetir para mim mesma que terminar um casamento não precisava ser uma vingança. Eu não precisava provar que ele era uma pessoa horrível para justificar a decisão de não querer mais viver daquela maneira.

Numa das sessões, a terapeuta perguntou:

— Se Caio mantivesse todas essas mudanças pelos próximos cinco anos, você conseguiria imaginar reconstruindo a relação?

Fiquei em silêncio por muito tempo.

Caio me observava.

— Eu consigo imaginar respeitando mais ele — respondi. — Consigo imaginar nós dois criando Nina melhor. Mas não consigo imaginar voltando a ser a pessoa que eu era dentro desse casamento.

Ele baixou os olhos.

A partir daquele dia, alguma coisa mudou entre nós.

Caio parou de tratar a terapia como uma missão de reconquista e começou, lentamente, a olhar para o que realmente havia acontecido.

Uma noite, depois que Nina dormiu, ele se sentou diante de mim.

— Eu pensei muito naquela frase que falei bêbado.

Esperei.

— Na hora, eu achava que estava dizendo que a Nina era a coisa mais importante da minha vida. Só depois percebi que, para dizer isso, eu apaguei você completamente.

Minha garganta apertou.

— Sim.

— Eu sinto vergonha.

— Eu acredito.

Ele respirou fundo.

— Mas você não vai ficar por causa disso.

Não era uma pergunta.

— Não.

Pela primeira vez, ele assentiu sem tentar negociar.

Na semana seguinte, marquei uma conversa com uma advogada de família indicada por uma colega do curso. Não fui até lá para iniciar uma guerra. Queria entender como funcionariam guarda, despesas, moradia e a formalização de uma separação caso tomássemos aquela decisão.

Saí da reunião com uma lista de possibilidades e uma sensação inesperada de tranquilidade.

Durante muito tempo, “divórcio” tinha soado como uma explosão.

Na prática, podia ser uma sequência de decisões difíceis, documentos, conversas e responsabilidades.

Contei a Caio naquela noite.

Ele permaneceu em silêncio por alguns minutos.

— Então você já decidiu.

— Decidi que não quero continuar casada.

Ele levantou o rosto.

Seus olhos estavam úmidos, mas ele não chorou.

— E a Nina?

— Continua tendo pai e mãe. O que vai mudar é onde nós moramos e como organizamos a vida.

— Você acha que ela vai entender?

— Não tudo. Ela tem cinco anos. Mas vai entender se a gente não transformar isso numa guerra.

Caio concordou.

As semanas seguintes foram estranhas.

Dormíamos em quartos separados.

Não havia mais expectativa de intimidade, e isso, paradoxalmente, diminuiu parte da tensão.

Começamos a discutir questões práticas.

O apartamento estava no nome dos dois e ainda tinha financiamento. Nenhum de nós podia simplesmente decidir sozinho o destino dele. Depois de analisar as contas, concluímos que vender naquele momento seria ruim e que eu ficaria ali temporariamente com Nina enquanto Caio alugaria um apartamento próximo.

Ele não gostou da ideia de sair.

— Parece que estou abandonando minha própria casa.

— Não é abandono. É uma organização provisória para a Nina não precisar trocar de escola e rotina ao mesmo tempo.

Depois de alguns dias, aceitou.

Quando encontramos um apartamento a quinze minutos de distância, ele levou Nina para conhecer antes de assinar o contrato.

Ela ficou animada ao descobrir que teria um quarto ali também.

— Vou ter duas camas?

Caio sorriu.

— Vai.

— Então posso ter dois bichinhos de pelúcia iguais?

Eu ri pela primeira vez durante uma conversa sobre a separação.

— Isso a gente negocia.

Contamos a ela juntos numa tarde de domingo.

Não falamos sobre culpa.

Não mencionamos a frase de Caio.

Dissemos apenas que mamãe e papai não seriam mais marido e mulher, mas continuariam sendo seus pais, que ela teria duas casas e que não tinha feito nada para causar aquilo.

Nina chorou.

Perguntou se Caio voltaria a dormir conosco.

Perguntou se eu ainda gostava dele.

Perguntou se poderia levar seus desenhos para o novo apartamento.

Respondemos tudo da maneira mais simples possível.

Naquela noite, chorei pela primeira vez desde que decidira me separar.

Não porque estivesse arrependida.

Chorei porque qualquer decisão verdadeira tem um preço, mesmo quando é a decisão certa para quem a toma.

Na parte profissional da minha vida, as coisas continuavam avançando.

O casal que tinha recebido meu contato por causa do hotel confirmou o projeto da pousada.

Eu não conseguia assumir tudo sozinha, então contratei uma desenhista freelancer para me ajudar com detalhamentos técnicos.

Não virou uma empresa enorme.

Não fiquei rica de repente.

Mas pela primeira vez meu trabalho já sustentava uma estrutura própria.

Quando recebi o primeiro pagamento da pousada, sentei diante da planilha e percebi que conseguiria bancar minhas despesas pessoais sem depender da renda de Caio.

Aquele número não decidiu meu divórcio.

Mas eliminou um medo que talvez, anos antes, tivesse me feito permanecer.

Caio se mudou numa manhã de sábado.

Nina ajudou a carregar uma caixa pequena com livros.

Quando ele fechou o porta-malas, ficou alguns segundos diante de mim.

— Eu achei que você nunca fosse realmente embora de mim.

Olhei para ele.

— Talvez eu também tenha achado isso por muito tempo.

Ele assentiu.

Não pediu mais uma chance.

Apenas entrou no carro.

Quando o veículo desapareceu na esquina, voltei para o apartamento e encontrei Nina sentada no sofá.

Ela bateu na almofada ao lado.

— Senta aqui, mãe.

Sentei.

Ela encostou a cabeça no meu braço.

A sala estava mais silenciosa do que de costume.

Dessa vez, porém, o silêncio não parecia vazio.

Parecia espaço.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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