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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

O acompanhamento da obra do hotel mudou a minha rotina mais depressa do que eu esperava. Até então, boa parte do meu trabalho cabia dentro do computador: desenhos, referências, reuniões por vídeo, listas de móveis e ajustes de orçamento. Quando comecei a visitar o local três vezes por semana, tudo ganhou peso físico. Eu precisava conversar com fornecedores, conferir medidas, resolver atrasos e tomar decisões que não podiam esperar Caio chegar do trabalho.

Na primeira semana, ainda tentei fazer tudo sozinha. Saía cedo, deixava Nina na escola, corria para o hotel, voltava para buscá-la e terminava os desenhos depois que ela dormia. No quarto dia, percebi que estava repetindo um hábito antigo: sempre que alguma coisa ameaçava sobrecarregar a família, eu me oferecia para absorver o impacto inteiro. Só que, dessa vez, resolvi não fazer isso.

Naquela noite, abri o calendário no celular e sentei com Caio à mesa. Mostrei a ele os dois dias em que eu precisaria permanecer na obra até as seis. — Na terça e na quinta, você vai precisar buscar a Nina. — Tenho reunião na quinta — respondeu imediatamente. — Então veja com seu chefe se pode adiantar ou fazer on-line. Eu já reorganizei meus horários muitas vezes por causa da família. Agora precisamos dividir.

Caio não gostou. Eu percebi pelo movimento de sua mandíbula e pelo jeito como largou a caneta na mesa. Mesmo assim, no dia seguinte ele voltou para casa dizendo que tinha conseguido mudar a reunião. Aquilo parecia pequeno, mas era a primeira vez que uma obrigação doméstica alterava a agenda profissional dele em vez de alterar automaticamente a minha.

Nina percebeu antes de nós dois. Na quinta-feira, voltou para casa segurando a mão do pai e carregando um desenho que tinha feito na escola. Caio sabia explicar cada pessoa desenhada no papel, sabia que a professora tinha elogiado o sol enorme no canto e até sabia que Nina havia brigado com uma amiga porque as duas queriam o mesmo lápis rosa. Enquanto ele contava tudo, eu entendi que não era incapacidade. Ele simplesmente nunca tinha precisado prestar atenção.

Na semana seguinte, aconteceu a primeira discussão séria desde que eu começara a trabalhar. Caio chegou às dez da noite, abriu a geladeira e perguntou onde estava o jantar. Eu estava terminando uma apresentação na mesa. — Eu e Nina comemos às sete. Tem comida no pote. É só esquentar.

Ele ficou parado com a porta da geladeira aberta. — Você sabia que eu ia chegar. — Sabia. — Então não custava deixar pronto. Levantei os olhos devagar. — Está pronto. Só não está servido no seu prato.

Caio fechou a geladeira com um pouco mais de força do que precisava. — Ultimamente tudo aqui virou uma negociação. — Não. Ultimamente você começou a perceber quantas coisas aconteciam sem que precisasse pedir. Antes, eu fazia todas elas e você chamava isso de vida normal.

Ele caminhou até a mesa. — Eu sempre sustentei esta casa. Nunca deixei faltar nada. — Eu sei. E nunca disse que isso não tinha valor. Mas pagar as contas não transforma todo o resto em obrigação exclusiva da outra pessoa.

Caio olhou para o computador aberto. — Você está ganhando dinheiro e agora acha que não precisa mais de ninguém? A pergunta me incomodou porque revelava o que estava por trás de muitas reações dele. Meu trabalho não o assustava por causa do dinheiro. O que o perturbava era a possibilidade de eu deixar de organizar minha vida ao redor dele.

— Não é isso — respondi. — Eu queria precisar de você como parceiro, não como alguém que paga contas. São coisas diferentes. Ele não respondeu.

Dois dias depois, o proprietário do hotel pediu que eu apresentasse uma alternativa para a recepção, porque o móvel planejado originalmente ficaria caro demais. Trabalhei até tarde, redesenhei o espaço, adaptei materiais e consegui manter a identidade do projeto sem estourar o orçamento. Quando mostrei a solução, ele aprovou na mesma hora e pediu meu contato para um casal que estava reformando uma pousada pequena em outra cidade.

Saí do hotel com uma sensação que eu quase tinha esquecido. Não era euforia. Era confiança. A certeza de que, quando um problema aparecia, eu conseguia pensar, decidir e entregar uma solução sem precisar que alguém me dissesse o que fazer.

Naquele mês, minha renda já não parecia um acaso. Havia clientes recorrentes, indicações e propostas que eu precisava recusar por falta de tempo. Organizei um portfólio profissional, atualizei meu currículo e comecei a cobrar de acordo com o trabalho que realmente entregava. Cada decisão parecia simples, mas juntas elas redesenhavam a imagem que eu tinha de mim mesma.

Caio começou a observar tudo com mais atenção. Às vezes perguntava quanto eu estava cobrando, quem era determinado cliente ou quando o hotel ficaria pronto. Eu respondia sem esconder nada, porém parei de buscar a aprovação dele. Se dizia “legal”, eu agradecia. Se permanecia indiferente, continuava trabalhando do mesmo jeito.

No fim daquele mês, minha professora do curso analisou meu portfólio. Ela passou alguns minutos olhando os projetos antes de levantar a cabeça. — Você não está voltando a trabalhar. Você já voltou. O que precisa agora é parar de apresentar sua carreira como se fosse uma atividade provisória.

A frase ficou comigo durante todo o caminho para casa.

Quando cheguei, Nina estava no chão da sala montando um quebra-cabeça com Caio. Ele levantou os olhos e perguntou como tinha sido a aula. — Boa — respondi. Depois deixei a bolsa no quarto e voltei para a sala.

Sentei-me no chão ao lado de Nina, mas minha cabeça ainda estava naquelas palavras.

Durante anos, eu dizia que tinha parado “por enquanto”, que um dia voltaria, que naquele momento minha prioridade era a família. O problema era que o “por enquanto” tinha se transformado em uma vida inteira organizada para que todos avançassem enquanto eu permanecia disponível.

Naquela noite, depois que Nina dormiu, abri a agenda dos meses seguintes. Havia a conclusão do curso, a entrega do hotel, reuniões com dois possíveis clientes e uma série de datas que já não pertenciam às necessidades de Caio.

Peguei uma caneta e escrevi no alto da página:

“Trabalho.”

Sem “extra”.

Sem “quando der”.

Sem “se não atrapalhar ninguém”.

Foi a primeira vez que reconheci, no papel, que aquela parte da minha vida também tinha direito de ocupar espaço.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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