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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Minha melhor amiga devolveu meu apartamento impecável demais — até um amigo patologista sentir o cheiro de desinfetante no quarto
PARTE 1

Minha melhor amiga tinha me pedido emprestado o apartamento que eu mantinha vazio na Zona Sul de São Paulo. Disse que havia brigado com o noivo e precisava ficar dois dias sozinha, longe de tudo, até a cabeça esfriar.

Na noite em que devolveu o imóvel, ela me ligou.

— Lara, já deixei tudo limpo. A chave está lá no fundo da caixa do medidor, do lado de fora. Surgiu uma coisa urgente e preciso ir para outro lugar. Quando eu voltar, te pago um jantar.

No dia seguinte, fui ao apartamento buscar o original de um contrato.

Assim que abri a porta, percebi que alguma coisa estava errada.

A casa estava limpa demais.

E, apesar disso, ainda havia no ar um cheiro discreto de desinfetante.

Eu só entenderia o quanto aquilo era estranho quando Samuel, meu amigo que trabalhava no setor de anatomia patológica de um hospital, apareceu para me encontrar.

Ele mal entrou e franziu a testa.

— Que cheiro é esse? O que tentaram esconder aqui?

Samuel desligou o purificador de ar, tirou do bolso um pequeno frasco de reagente e aplicou uma quantidade mínima no canto da parede do quarto.

O rosto dele mudou na mesma hora.

— Lara, não encoste em mais nada.

Ele guardou o frasco e olhou diretamente para mim.

— Chama a polícia.

Tudo tinha começado na noite anterior.

— Lara.

A voz de Helena estava extremamente rouca quando atendi.

— Não vou ficar mais aí.

— O que aconteceu com a sua voz? Você chorou?

— Não.

Ela demorou um pouco antes de completar:

— Só estou cansada.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Já deixei o apartamento limpo. A chave está lá no fundo da caixa do medidor, na entrada. Surgiu uma coisa urgente e preciso ir para outro lugar.

— A essa hora? Para onde?

— Preciso resolver uma coisa.

Ouvi água do outro lado da ligação.

Um som contínuo, forte, parecido com alguém lavando o chão.

— O que você está fazendo? Está lavando alguma coisa?

— Não.

A resposta veio depressa demais.

Quase imediatamente, Helena acrescentou:

— Lara, o sinal aqui está ruim. Quando eu voltar, a gente conversa.

A chamada caiu.

No fim, mandei apenas uma mensagem pelo celular.

“Me avisa quando chegar para eu saber que está bem.”

Ela não respondeu.

Naquele momento, achei que ainda estivesse brigada com Gustavo, o noivo. Imaginei que quisesse desaparecer por algum tempo, ficar sozinha e respirar sem precisar dar explicações.

Na noite seguinte, fui até meu apartamento na Zona Sul.

Eu só pretendia pegar o original de um contrato que tinha deixado guardado ali.

Comprei aquele imóvel no meu terceiro ano de trabalho. Na época, mal tinha dinheiro sobrando no fim do mês. Juntei metade da entrada e pedi o restante emprestado para minha mãe.

Algum tempo depois, a empresa onde eu trabalhava mudou para um bairro mais antigo e distante. Como o deslocamento ficou cansativo, aluguei um lugar pequeno perto do escritório e deixei aquele apartamento praticamente vazio.

Os móveis continuavam lá, mas faltava vida.

Eu costumava passar uma vez por mês para abrir as janelas, ventilar os cômodos e buscar correspondências.

Naquela noite, assim que empurrei a porta, o cheiro de desinfetante veio direto ao meu rosto.

Parei na entrada.

Havia uma luminária acesa na sala.

O chão estava tão brilhante que refletia minha silhueta.

A camada fina de poeira que normalmente ficava sobre o armário dos sapatos tinha desaparecido. A capa do sofá havia sido retirada para lavar e, quando foi colocada de volta, um dos cantos ficou mal encaixado, enrugado perto do braço.

Helena não era assim.

Éramos amigas havia doze anos.

Ela gostava de se arrumar, gostava de deixar as coisas bonitas, mas detestava fazer faxina. Depois de ficar dois ou três dias na minha casa, ela jamais teria desmontado metade da sala para lavar tecidos e limpar cada canto.

Quanto mais eu olhava, mais desconfortável ficava.

No banheiro, notei uma faixa nova de silicone transparente ao redor do ralo.

Ainda não estava completamente seca.

Em uma das bordas, havia uma marca irregular, como se tivesse sido aplicada às pressas.

Agachei para observar melhor.

Sem motivo claro, senti o peito apertar.

Depois fui até o quarto.

Um purificador de ar estava ligado na potência máxima perto dos pés da cama.

O motor produzia um ruído constante.

Eu não tinha comprado aquele aparelho.

Só podia ter sido Helena quem o levara.

Peguei o celular e liguei para ela.

Desligado.

Mandei mensagem.

Nenhuma resposta.

Então liguei para Gustavo.

Ele atendeu rapidamente.

A voz estava calma, carregando exatamente o nível de cansaço que se esperaria de alguém preocupado.

— Lara?

— A Helena está com você?

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Não. Ela ainda não entrou em contato com você?

— Disse que ia para outro lugar.

Gustavo soltou um suspiro.

— Ela não tem estado bem ultimamente. Vive dizendo que eu mexi no dinheiro do estúdio, acha que estou escondendo alguma coisa e até começou a desconfiar que eu tenho outra mulher. Fez um escândalo dizendo que queria terminar o noivado. Eu tento explicar, mas ela não quer ouvir.

A maneira como ele falava transmitia uma paciência cansada.

Parecia o homem compreensivo que vinha suportando, havia muito tempo, uma noiva desconfiada e difícil.

— Se ela falar com você, me avisa, por favor.

Ele fez uma pequena pausa.

— Estou muito preocupado com ela.

Olhei para o purificador desconhecido funcionando no quarto.

Não respondi àquela frase.

Depois que desliguei, fiquei parada no mesmo lugar.

Minhas mãos estavam frias.

Um pensamento desagradável surgiu.

Será que Helena tinha feito alguma coisa dentro do meu apartamento?

Seria por isso que havia limpado tudo daquele jeito?

Seria por isso que não queria aparecer?

A própria ideia me assustou.

Éramos amigas havia doze anos.

Como eu podia sequer imaginar algo assim sobre ela?

Mesmo assim, o cheiro de desinfetante continuava ali.

Foi então que a campainha tocou.

Virei de repente.

Do lado de fora estava Samuel, um amigo dos tempos do ensino médio. Ele tinha ido me buscar para jantarmos juntos.

Assim que entrou, franziu a testa.

— Por que você está tão pálida? E que cheiro estranho é esse?

Samuel trabalhava no setor de anatomia patológica do Hospital Municipal havia alguns anos. Nós ainda nos encontrávamos de vez em quando para comer e conversar; normalmente, eu escolhia o lugar e ele se encarregava dos comentários sarcásticos.

Naquela noite, ele também havia levado o resultado de um check-up que eu tinha feito.

Deixei que entrasse.

Samuel parou ainda na entrada.

— Você mergulhou o apartamento inteiro em desinfetante?

— Não fui eu.

Apontei para dentro.

— Foi a Helena que limpou.

Ele não respondeu.

Colocou meus exames sobre o armário e passou os olhos pela sala.

— O que foi? — perguntei.

Samuel continuou em silêncio e caminhou diretamente para o quarto.

Eu fui atrás.

Sem saber por quê, senti meu coração acelerar.

Ele parou diante do purificador de ar e desligou o aparelho.

O zumbido cessou.

O quarto ficou silencioso.

E, quando o ar deixou de circular com tanta força, outro odor apareceu por baixo do desinfetante.

Era quase imperceptível.

Difícil de identificar.

Samuel me olhou.

— Quando ela foi embora?

— Me ligou ontem à noite dizendo que já tinha saído.

— Ficou aqui quantos dias?

— Três.

— Mais alguém veio ao apartamento?

— Não sei.

Ele se agachou e observou o piso ao lado da cama. Depois levantou os olhos para um trecho do canto da parede que parecia ligeiramente mais novo.

Em seguida, tirou do bolso um pequeno frasco transparente.

Eu o encarei.

— O que você está fazendo?

— Não entra em pânico.

Ele mostrou o recipiente.

— Hoje à tarde eu estava demonstrando uma reação para detecção de vestígios de sangue aos residentes. Sobrou um pouco do reagente e esqueci de devolver no setor.

— Não sai borrifando isso pela minha casa.

— Vou testar uma área mínima.

A voz dele ficou mais séria.

— Se não houver nada, ótimo. Se houver, a gente para imediatamente.

Quis impedir.

Mas o cheiro daquele quarto fez as palavras morrerem antes de saírem.

Samuel colocou luvas descartáveis.

Aplicou uma pequena quantidade do reagente no canto da parede, cerca de meio metro acima do chão. Depois repetiu o procedimento em uma faixa estreita entre o piso e a lateral da cama.

— Apaga a luz.

Eu estava na porta.

Estendi a mão até o interruptor.

Clique.

O quarto mergulhou na escuridão.

No segundo seguinte, surgiu uma luminosidade azulada.

Primeiro, um ponto.

Depois vários.

Pequenas marcas se espalhavam pela parede em um desenho irregular, aberto como um leque.

Junto da cama, o chão também começou a revelar traços.

A luminosidade avançava por algumas frestas do piso e continuava de maneira descontínua para fora, formando uma linha que lembrava o caminho deixado por alguma coisa que tivesse sido arrastada.

Minha cabeça pareceu explodir.

Um zumbido tomou meus ouvidos.

Sangue.

Samuel acendeu a luz imediatamente.

Mesmo assim, eu ainda enxergava aquelas manchas azuladas gravadas na minha visão.

Segurei o batente da porta.

Minhas mãos e meus pés estavam gelados.

— Ela…

Minha garganta estava seca.

— O que a Helena fez dentro da minha casa?

Samuel não tentou me tranquilizar.

Fotografou apenas as áreas que havia testado, guardou o reagente e recuou para fora do quarto.

— A partir de agora, não encosta em nada.

Olhei para ele.

Samuel falou devagar, sem deixar espaço para discussão:

— Chama a polícia.

Meu celular quase escapou da mão.

Errei o número duas vezes antes de conseguir completar a ligação.

A atendente pediu o endereço e perguntou o que tinha acontecido.

Minha própria voz pareceu vir de muito longe.

— Pode haver vestígios de sangue no meu apartamento. Muitos. E alguém já limpou o lugar.

Ela orientou que saíssemos do imóvel, preservássemos o local e não voltássemos a entrar.

Eu e Samuel fomos para o corredor.

Deixamos a porta sem fechar completamente.

O cheiro de desinfetante escapava lentamente pela fresta.

A luz automática do corredor se apagou.

No escuro, lembrei da ligação de Helena.

A voz rouca.

O barulho de água ao fundo.

A rapidez com que ela negou estar lavando alguma coisa.

Um arrepio percorreu minhas costas.

Tudo parecia apontar para ela.

Helena tinha pedido o apartamento.

Helena havia feito a limpeza.

Agora estava com o celular desligado e tinha ido para um lugar que não quis dizer qual era.

Eu não queria continuar pensando.

Mas também não conseguia parar.

Helena tinha matado alguém?

Tinha transformado meu apartamento em uma cena de crime?

Esperava que eu acabasse limpando ou escondendo o que ela deixara para trás?

A ideia me causava náusea.

Eu preferia ter sido enganada por um desconhecido.

Não por ela.

Samuel permanecia ao meu lado, calado.

Encostei na parede e apertei o celular entre os dedos.

Repetia mentalmente para mim mesma:

Não inventa coisas.

É a Helena.

Ela não faria isso.

Mas as manchas azuladas no quarto pareciam uma mão invisível arrancando, pouco a pouco, cada pedaço da confiança que eu tinha nela.

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