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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

PARTE 1

— Helena, seu marido vendeu o apartamento de vocês. Você sabia disso?

Helena Santos estava diante da porta de casa, ainda segurando a mala depois de três dias de viagem a trabalho, quando ouviu a pergunta de Dona Vera, a vizinha.

Por pouco o celular não escapou de sua mão.

A voz da mulher continuava ecoando em seus ouvidos, mas, por alguns segundos, sua cabeça ficou completamente vazia.

Helena colocou a chave na fechadura e girou.

A porta se abriu.

A sala estava vazia.

O sofá tinha sumido. A televisão também. A mesa de centro não estava mais ali.

Até a fotografia do casamento, que antes ocupava a parede principal, havia desaparecido.

Helena ficou parada na entrada, sem conseguir reagir. A mala inclinou devagar ao lado de seu corpo até tombar no chão.

Ela tinha passado apenas três dias fora.

Três dias.

E, quando voltou, parecia que sua casa inteira havia deixado de existir.

Dona Vera ainda lhe contara que, na manhã anterior, Sônia Lima, sua sogra, e Daniela Lima, sua cunhada, também tinham saído carregando malas. As duas entraram às pressas em um carro alugado e foram embora do condomínio.

O apartamento de Sônia, que ficava ali perto, estava fechado.

Helena tentou ligar para todos da família Lima.

Nenhum telefone atendia.

Por fim, procurou o número de Marcelo, seu marido.

Ligou.

Chamou por muito tempo.

Ninguém atendeu.

Helena desligou e tentou outra vez.

Nada.

A cada toque sem resposta, sentia algo pesado afundar dentro do peito.

Ela atravessou a sala vazia e foi até o quarto.

A porta do guarda-roupa estava aberta, mas não havia praticamente nada lá dentro.

Suas roupas haviam desaparecido.

Seus cosméticos também.

O enxoval e os objetos que levara consigo quando se casou não estavam mais ali.

Sobre o criado-mudo, restava apenas uma folha de papel.

Helena pegou o bilhete.

Reconheceu imediatamente a letra de Marcelo.

“Helena, me desculpe. Eu vendi o apartamento.”

“Nós não damos mais certo. Quero o divórcio.”

“Não tente me procurar. Eu não estou mais nesta cidade.”

As mãos dela começaram a tremer.

Três anos de casamento.

Três anos dividindo a mesma vida.

E tudo terminava em uma folha de papel deixada sobre um móvel vazio.

Helena sentou-se na estrutura da cama, agora sem colchão, e ficou olhando para o bilhete sem conseguir organizar os pensamentos.

Foi então que o celular tocou.

Sônia.

A sogra.

Helena atendeu, mas nem teve tempo de dizer alguma coisa.

— Helena, pare de procurar o Marcelo! — Sônia disparou do outro lado. — Deixe meu filho em paz!

Helena apertou o telefone contra o ouvido.

— Sônia, o que está acontecendo?

— O apartamento é da família Lima. Não tem nada a ver com você!

Helena respirou fundo.

Sua voz ficou mais fria.

— Eu e Marcelo compramos aquele apartamento juntos. Minha família pagou metade da entrada.

— E daí? — Sônia rebateu. — Você morou lá durante três anos! Se tivesse pagado aluguel todo esse tempo, já teria gasto mais do que essa entrada!

Helena fechou os olhos por um instante.

— E vou dizer mais — continuou Sônia. — Não pense que vai conseguir tirar um centavo da nossa família. Três anos casada e você nem conseguiu dar um filho ao Marcelo. Ainda quer ficar com a nossa casa?

Helena soltou uma risada curta, sem qualquer alegria.

— Fique tranquila. Eu não quero que a família Lima me dê um único centavo.

Sônia ficou em silêncio.

— Mas o dinheiro que é meu, os meus pertences e tudo o que me pertence por direito eu vou recuperar. Se faltar uma única coisa, eu vou atrás.

— Você está me ameaçando?

— Vender o apartamento escondido, esvaziar a casa e desaparecer enquanto eu estava viajando não é coragem. É covardia. E levar as minhas coisas não faz delas propriedade de vocês.

Helena segurou o celular com mais força.

— Então cuide bem desse telefone. Meu advogado e a polícia podem precisar falar com vocês.

Durante alguns segundos, Sônia não respondeu.

Depois começou a xingar.

Helena não continuou ouvindo.

Desligou.

Ficou alguns segundos imóvel, ainda segurando o celular.

Só então as lágrimas começaram a cair.

Ela se lembrou do casamento, três anos antes.

Marcelo havia ficado diante das duas famílias e prometido que cuidaria dela pelo resto da vida.

Lembrou-se também de quando compraram o apartamento, dois anos antes.

Naquela época, Marcelo lhe dissera:

— Aqui vai ser o nosso lar. Ninguém vai tirar isso da gente.

E apenas um mês antes ele ainda falava sobre terem um filho.

Dizia que queria construir uma família com ela e que os dois viveriam bem.

Agora, diante daquele quarto vazio, todas aquelas palavras pareciam falsas.

Helena enxugou o rosto.

Depois se levantou.

Não podia permanecer ali.

Aquele lugar já não parecia sua casa.

Pegou a mala e saiu do condomínio.

Quando chegou à calçada, porém, não sabia para onde ir.

Voltar para a casa dos pais?

Eles ficariam preocupados.

Procurar algum amigo?

Todos tinham suas próprias vidas.

Helena ficou parada perto da rua enquanto o vento frio passava por seu rosto.

Pegou o celular.

Abriu a lista de contatos.

Encontrou o número da mãe.

Ficou olhando para ele durante muito tempo.

Por fim, ligou.

— Alô, mãe.

— Helena? Você já voltou da viagem?

A voz de Marta Santos veio alegre do outro lado.

— Já comeu alguma coisa?

Ao ouvir a mãe, Helena sentiu os olhos arderem novamente.

— Mãe… eu voltei.

— Que bom. Seu pai falou de você várias vezes nesses últimos dois dias. Disse que estava com saudade.

Marta fez uma pequena pausa.

— Por que você não vem ficar alguns dias aqui em casa?

Helena mordeu o lábio.

— Mãe, eu preciso contar uma coisa. Mas não fique nervosa.

A voz de Marta mudou imediatamente.

— O que aconteceu?

— Pode falar, filha.

Helena puxou o ar.

— Marcelo vendeu o apartamento e desapareceu.

Do outro lado da linha, houve silêncio.

Um silêncio tão longo que Helena chegou a afastar o celular do ouvido para verificar se a ligação ainda estava ativa.

Finalmente, Marta falou:

— Filha, fique exatamente onde você está. Vou mandar seu pai buscar você.

— Não precisa, mãe. Eu posso chamar um carro.

— Não vá para lugar nenhum. Espere aí.

A ligação terminou.

Helena se agachou perto da mala e enterrou o rosto entre os joelhos.

Menos de meia hora depois, um carro parou diante dela.

A porta se abriu.

Paulo Santos havia vindo.

E Marta estava com ele.

Paulo não perguntou nada.

Apenas pegou a mala da filha, colocou no porta-malas e voltou para o carro.

Marta segurou Helena pelas mãos e a observou da cabeça aos pés.

— Você emagreceu.

Passou os dedos pelo braço da filha.

— E está com uma aparência péssima.

Helena tentou sorrir, mas não conseguiu.

Marta apertou sua mão.

— Vamos. Você vai para casa com a gente.

Durante o caminho, Helena contou tudo.

Desde a conversa com Dona Vera até o bilhete deixado por Marcelo e a ligação de Sônia.

Paulo dirigia sem dizer uma palavra.

Marta permanecia ao lado da filha, segurando sua mão com força, os olhos cada vez mais vermelhos.

— Vai ficar tudo bem, filha — disse ela. — Sua mãe está aqui.

Helena abaixou os olhos.

— Você não precisa aceitar esse tipo de humilhação.

Quando chegaram, Marta foi direto para a cozinha e preparou uma tigela de macarrão para a filha.

Helena estava com fome, mas cada colherada parecia difícil de engolir.

Enquanto comia, as lágrimas voltaram a cair dentro da tigela.

Paulo estava sentado no sofá.

Acendeu um cigarro e permaneceu alguns instantes olhando para o chão.

Então perguntou:

— Helena, o que você pretende fazer agora?

Ela pousou os talheres.

— Pai, eu quero me divorciar.

Paulo assentiu sem hesitar.

— Então você vai se divorciar.

Apagou o cigarro no cinzeiro.

— Um homem que faz isso não merece que você continue chorando por ele.

Marta enxugou os próprios olhos.

— Desde o começo eu não gostava desse casamento.

Helena permaneceu em silêncio.

— Você dizia que ele tratava você bem — continuou a mãe. — Dizia que só queria se casar com ele. Olhe o que ele fez agora.

Helena abaixou a cabeça.

Não respondeu.

Depois que terminaram de comer, Marta levou a louça para a cozinha.

Paulo se levantou.

— Helena, venha comigo até o escritório. Preciso contar uma coisa.

Ela o acompanhou.

— O que foi, pai?

Paulo abriu uma gaveta da escrivaninha.

De dentro, tirou um bilhete de loteria.

Helena olhou para o papel sem entender.

— Alguns dias atrás, sua mãe e eu fomos comprar verduras. Na volta, passamos em frente a uma lotérica e resolvemos comprar um bilhete.

Helena continuou olhando para o pai.

Paulo colocou o bilhete sobre a mesa.

— Ele foi premiado.

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