
Minha mãe me deu R$ 420 mil para comprar um carro, mas meu namorado escolheu um SUV de R$ 420 mil no nome dele
PARTE 1
Minha mãe se preocupava porque eu enfrentava um trajeto longo todos os dias para trabalhar, então transferiu R$ 420 mil para que eu comprasse um carro e tivesse mais segurança e conforto.
Quando meu namorado soube, ficou ainda mais animado do que eu.
Naquela mesma noite, Caio praticamente me arrastou até uma concessionária.
A princípio, achei que ele estivesse indo comigo para me ajudar a escolher.
Mas, assim que entramos, apontou para um SUV preto que custava exatamente R$ 420 mil e pediu ao vendedor que preparasse o contrato.
— Amor, faz a transferência logo. O pessoal está esperando o pagamento.
Ele sorria como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Fiquei olhando para Caio por alguns segundos antes de perguntar devagar:
— Esse carro vai ficar no nome de quem?
Ele respondeu sem hesitar:
— No meu, claro. Homem precisa de um carro que imponha respeito quando sai por aí. Você é mulher, para que precisa de carro próprio?
A resposta foi tão absurda que acabei soltando uma risada de incredulidade.
— Espera aí. Quem você pensa que é?
— Por que o dinheiro que a minha mãe me deu teria que comprar um carro para você?
O sorriso de Caio congelou.
A expressão dele mudou imediatamente.
Às três da tarde daquele dia, minha mãe havia transferido R$ 420 mil para a minha conta.
Na descrição da transferência havia apenas uma frase:
“Nina, compre um carro. Pare de enfrentar metrô lotado todos os dias.”
Fiquei olhando para a tela do celular durante muito tempo. Senti o nariz arder e os olhos se encherem.
Eu trabalhava havia cinco anos e precisava pegar duas linhas de metrô para chegar ao emprego. Nos dias em que fazia hora extra, era comum entrar em casa depois das dez da noite.
Minha mãe já havia repetido incontáveis vezes que não gostava de me ver voltando tão tarde sozinha.
Eu sempre dizia que ela se preocupava demais.
Nunca imaginei que realmente juntaria durante anos uma quantia daquele tamanho para me entregar de uma vez.
Liguei imediatamente para ela.
— Mãe, cancela a transferência. Ainda tem tanta coisa em casa que precisa de dinheiro. Eu consigo economizar e comprar um carro sozinha.
— Se eu dei para você, agora é seu.
A voz dela estava firme, sem deixar espaço para discussão.
— Compre um carro econômico para trabalhar. Pare de achar que você sempre precisa aguentar tudo da maneira mais difícil.
Quando desliguei, Caio se aproximou.
— Quem mandou dinheiro para você?
A tela do meu celular ainda mostrava a transferência, e bastou uma olhada para ele ver o valor.
— R$ 420 mil?
A voz dele subiu imediatamente.
— Foi sua mãe?
Assenti e apaguei a tela.
— Ela quer que eu compre um carro para ir trabalhar.
Caio pegou o casaco na mesma hora.
— Então estamos esperando o quê? Hoje estamos livres. Vamos ver carro agora.
Estranhei aquela animação.
Todas as vezes em que eu havia mencionado comprar um carro, Caio dizia que seguro, combustível, IPVA e manutenção custavam caro demais. Segundo ele, eu deveria continuar usando o metrô.
Naquele dia, porém, parecia mais interessado do que eu.
— Eu estava pensando em comprar alguma coisa na faixa de R$ 150 mil e devolver o restante para a minha mãe.
Caio franziu a testa.
— O que você vai comprar com R$ 150 mil?
— Um carro para trabalhar.
— Os modelos mais baratos têm menos equipamentos, menos conforto… Você vai gastar dinheiro para depois se arrepender.
— Eu só preciso ir e voltar do trabalho.
— Comprar carro é coisa séria. Escuta o que eu estou falando.
Ele não me deu muita oportunidade de continuar a conversa e insistiu para sairmos.
Quando chegamos à concessionária, um vendedor chamado Lucas veio imediatamente em nossa direção.
— Boa noite, senhor Caio.
Os dois apertaram as mãos com uma naturalidade que me chamou atenção.
Claramente já se conheciam.
— O carro que o senhor perguntou ontem chegou hoje.
Parei no mesmo instante.
— Você esteve aqui ontem?
Por um segundo, a expressão de Caio endureceu.
Depois ele sorriu.
— Passei para olhar algumas opções antes. Você não entende muito de carro, então achei melhor pesquisar para ninguém tentar empurrar qualquer coisa para você.
Lucas nos levou até o centro do showroom.
Ali estava estacionado um grande SUV preto.
Com os opcionais incluídos, o valor final chegava exatamente a R$ 420 mil.
Caio deu uma volta ao redor do carro e abriu a porta do motorista.
Sentou-se ao volante, passou a mão sobre ele e não conseguiu esconder o sorriso.
— É esse.
Eu continuei do lado de fora.
— Quero olhar modelos menores.
— Esse é espaçoso. Quando a gente casar e tiver filhos, vai continuar servindo.
— Deve ser ruim para estacionar no centro.
— Depois de algumas vezes você se acostuma.
Caio saiu do banco do motorista e me conduziu na direção do banco do passageiro.
— Aqui combina mais com você. Eu dirijo e você aproveita.
Lucas riu ao nosso lado.
— O senhor Caio realmente entende de carro. Esse modelo combina muito com homem. Na rua, chama bastante atenção.
Olhei para Caio.
— O carro não era para mim?
— Qual é a necessidade de ficar separando o que é meu e o que é seu?
Ele passou o braço pelos meus ombros e baixou a voz.
— Eu posso levar e buscar você todos os dias. Não é até melhor do que você ter que dirigir?
Afastei o braço dele.
— Quero olhar os outros modelos primeiro.
Caio ignorou o que eu havia acabado de dizer e pediu para Lucas preparar o contrato.
Para minha surpresa, o vendedor abriu uma gaveta e tirou uma pasta com vários documentos.
Parecia que tudo havia sido organizado com antecedência.
Modelo, cor, preço e até os equipamentos opcionais estavam preenchidos.
Quando cheguei à última página, vi o nome do comprador.
Caio Braga.
Não o meu.
Levantei os olhos.
— O nome está errado.
Lucas ficou imóvel e, por instinto, olhou para Caio.
Caio pegou o contrato, já demonstrando impaciência.
— Não está errado.
— O carro vai ser registrado no meu nome.
— Por quê?
— Você não tem tanta prática dirigindo. Não faz sentido colocar no seu nome.
Ele empurrou a folha com as informações de pagamento para a minha frente.
— Além disso, quando um homem encontra clientes ou parceiros de trabalho, precisa ter uma apresentação decente. Se chegar com qualquer carro, ninguém leva a sério.
— Você só vai ao trabalho e volta para casa. Para você, qualquer carro serve.
Fiquei encarando Caio em silêncio.
Ele bateu duas vezes com o dedo sobre a folha.
— Para de enrolar.
— O vendedor está esperando.
Não peguei o celular.
Lucas olhou para mim e depois para Caio.
O clima ao nosso redor ficou tão estranho que até algumas conversas próximas pareceram diminuir.
A paciência de Caio desapareceu pouco a pouco.
Ele se inclinou na minha direção e falou baixo, mas com uma pressão que eu nunca tinha ouvido daquele jeito.
— Ana Nunes.
— Eu já assinei tudo.
Ele apontou para os dados de pagamento.
— Esse dinheiro hoje…
Fez uma pausa curta.
— Você vai transferir.
Continuei olhando para ele.
Caio aproximou ainda mais o rosto.
— Querendo ou não.
— Vai transferir de qualquer jeito.
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