
PARTE 3
Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. Tinha dormido mal, não porque estivesse arrependida de não ter feito a transferência, mas porque a cena da concessionária continuava voltando à minha cabeça. A frase de Caio — “querendo ou não, vai transferir” — parecia ainda mais desagradável depois de algumas horas de distância. Eu namorava aquele homem havia tempo suficiente para conhecer seus defeitos, mas nunca o tinha visto agir como se uma decisão minha pudesse simplesmente ser anulada.
Peguei o computador e comecei a pesquisar carros dentro do orçamento que eu já tinha estabelecido antes de receber o dinheiro. Não queria o mais barato possível, nem provar alguma coisa a Caio. Queria segurança, manutenção razoável, tamanho adequado para o trânsito de São Paulo e um modelo que eu conseguisse estacionar sem sofrimento. Em poucas horas, selecionei três opções entre R$ 150 mil e R$ 180 mil.
Percebi então uma coisa simples: escolher um carro era muito menos complicado quando ninguém ficava dizendo que minhas necessidades eram inferiores às dele. Li avaliações, comparei equipamentos e calculei seguro, IPVA e manutenção. O argumento que Caio sempre usara para me convencer a não comprar um carro — o custo de mantê-lo — continuava válido. A diferença era que agora eu poderia escolher um veículo compatível com a minha rotina, em vez de um SUV de R$ 420 mil pensado para impressionar outras pessoas.
Perto do almoço, minha mãe me ligou. Tentei conversar normalmente, mas ela percebeu pela minha voz que alguma coisa estava errada. Depois de insistir duas vezes, contei o que havia acontecido na concessionária.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Você queria aquele carro?
— Não.
— Você queria que ficasse no nome dele?
— Também não.
— Então não entendo por que existe discussão.
Soltei uma risada cansada. Minha mãe não mandou que eu terminasse o namoro nem chamou Caio de aproveitador. Apenas repetiu que havia dado o dinheiro para que eu tivesse mais liberdade e segurança, não para criar uma obrigação nova.
— Eu não quero ficar com os R$ 420 mil — falei. — Vou comprar um carro dentro do que eu considero suficiente e devolver o restante.
— A decisão é sua — ela respondeu. — Foi por isso que coloquei o dinheiro na sua conta.
Aquelas palavras tiveram mais efeito sobre mim do que qualquer conselho sobre relacionamento. A decisão é sua. Era justamente a frase que havia faltado na noite anterior.
À tarde, fui sozinha a duas concessionárias. Fiz perguntas, entrei em carros menores, testei posição de dirigir e pedi simulações de seguro. Nenhum vendedor tentou decidir onde eu deveria sentar. Ninguém me explicou que determinado carro era “de homem” ou “de mulher”. Quando eu dizia que queria algo simples para deslocamento diário, as pessoas apenas mostravam opções compatíveis.
No fim do dia, encontrei um modelo de que realmente gostei. Custava pouco menos de R$ 170 mil, tinha os equipamentos de segurança que eu queria e era muito mais fácil de manobrar do que o SUV escolhido por Caio. Marquei um test-drive para o sábado e fui embora sem fechar negócio.
Caio passou o dia inteiro sem falar comigo. À noite, enviou uma mensagem curta dizendo que queria conversar “sem briga”. Não respondi imediatamente. Quando aceitei, sugeri um café perto do meu trabalho no dia seguinte.
Ele chegou antes de mim. Não pediu desculpas quando me sentei. Começou dizendo que eu havia interpretado suas intenções da pior maneira possível e que ele só queria pensar no nosso futuro.
— Então me explica uma coisa — interrompi. — Por que você estava naquela concessionária um dia antes de a minha mãe transferir o dinheiro?
Caio desviou os olhos por um instante.
— Porque eu já estava olhando aquele modelo para mim.
A resposta me pegou menos de surpresa do que deveria.
Ele explicou que vinha pesquisando SUVs havia algum tempo e tinha passado ali para perguntar sobre preço e disponibilidade. Disse que não sabia quanto minha mãe transferiria. Quando viu os R$ 420 mil na tela do meu celular e percebeu que o valor praticamente cobria o carro, achou que seria uma “boa oportunidade para nós dois”.
— Para nós dois? — repeti. — Com o carro no seu nome?
— Eu dirigiria você todos os dias.
— Isso não transforma o carro em meu.
Caio suspirou, impaciente, mas se controlou.
— Ana, quando duas pessoas pretendem casar, não faz sentido pensar desse jeito.
— Concordo. Por isso eu ainda não entendi por que você decidiu tudo sem mim.
Ele não respondeu diretamente. Disse que estava acostumado a tomar decisões rápidas e que acreditava saber mais sobre carros. Perguntei se saber mais sobre carros dava a ele o direito de escolher como usar o dinheiro que minha mãe tinha me dado.
Caio ficou em silêncio.
Pela primeira vez, não tentei preencher aquele silêncio para aliviar o desconforto dele.
— Eu preciso de distância — falei. — Não vou terminar uma relação de anos em cinco minutos, mas também não vou fingir que ontem foi uma discussão boba.
Ele perguntou quanto tempo eu precisava.
— O suficiente para entender se você realmente acha que minha opinião vale apenas quando concorda com a sua.
Caio baixou os olhos para a mesa. Antes de irmos embora, tentou segurar minha mão, mas eu a mantive ao lado do corpo. Não queria transformar aquele gesto em uma reconciliação que ainda não existia.
No sábado, fui ao test-drive sozinha. Dei duas voltas no quarteirão, entrei em uma avenida movimentada e estacionei com mais facilidade do que esperava. Eu ainda não tinha decidido comprar aquele carro, mas saí da concessionária com uma certeza que já valia alguma coisa.
Eu não precisava de alguém dirigindo por mim para poder chegar aonde queria.
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