Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Passei quase duas semanas sem responder à pergunta de Caio. Não porque estivesse dividida entre voltar ou não, mas porque queria entender por que ainda sentia dificuldade em dizer uma palavra tão simples. Parte de mim temia ser injusta com alguém que finalmente parecia reconhecer o próprio erro. Outra parte sabia que perdão e reconciliação são decisões diferentes.

Perdoar significava não querer carregar raiva para sempre.

Reatar significava entregar novamente confiança, intimidade e planos de futuro.

Eu conseguia imaginar a primeira coisa.

A segunda já não parecia certa.

Em uma quarta-feira à noite, mandei uma mensagem perguntando se Caio poderia conversar comigo no sábado. Ele respondeu que sim e perguntou onde eu preferia encontrar. Escolhi o mesmo café da última conversa.

Quando cheguei, ele já estava sentado.

Dessa vez, fui eu que comecei.

— Eu pensei na sua pergunta.

Caio assentiu, mas não disse nada.

— Antes de responder, quero entender uma coisa completamente.

— Pode perguntar.

— No dia anterior à transferência da minha mãe, quando você foi à concessionária… você já pretendia comprar aquele SUV?

Ele demorou um pouco.

— Eu queria comprar. Pretender de verdade é outra história, porque eu ainda não sabia como pagaria.

— Então você não foi lá pensando em mim.

— Não.

Era algo que eu praticamente já sabia, mas ouvir a resposta fechou uma lacuna.

Caio explicou que tinha pedido informações sobre financiamento e disponibilidade. Lucas disse que poderia providenciar uma unidade. Quando, no dia seguinte, Caio viu o valor transferido para minha conta, ligou para a concessionária e pediu que preparassem o contrato no nome dele.

— Você fez isso depois de ver o dinheiro?

— Fiz.

— Sem me contar.

— Sim.

— E foi por isso que tudo estava pronto quando chegamos.

— Sim.

Não havia nova conspiração.

Não havia alguém por trás.

Não havia plano secreto elaborado durante meses.

Havia algo mais comum e, para mim, mais revelador: uma pessoa viu uma oportunidade de realizar um desejo próprio e decidiu que poderia usar os recursos da namorada sem pedir autorização.

— Eu precisava ouvir isso de forma direta — falei.

Caio assentiu.

— Eu passei muito tempo tentando transformar aquilo numa decisão de casal depois que já tinha decidido sozinho.

— Exatamente.

Ele respirou fundo.

— Eu sinto vergonha.

— Espero que não fique preso à vergonha. Seria melhor usar isso para agir diferente da próxima vez.

Caio sorriu de leve.

— Você fala “da próxima vez” como quem está falando da próxima pessoa.

Não respondi imediatamente.

Ele percebeu.

— É isso?

Olhei pela janela por alguns segundos antes de voltar os olhos para ele.

— Eu acho que sim.

Caio abaixou a cabeça.

Não houve raiva.

Depois de alguns segundos, perguntou:

— Então não existe chance?

— Eu não quero prometer um futuro que eu já não desejo apenas porque você começou a mudar.

Ele apertou os lábios.

— Entendi.

— Caio, eu acredito que você pode ser diferente. E talvez, em outro momento da nossa vida, você jamais fizesse aquilo de novo. Mas eu não quero usar minha vida para testar essa possibilidade.

Ele ficou em silêncio.

— Não estou dizendo que você é uma pessoa horrível — continuei. — Estou dizendo que o que aconteceu mudou a maneira como eu vejo nossa relação.

Caio passou o dedo pela borda da xícara.

— Eu gostaria de ter percebido tudo isso antes.

— Eu também.

Por alguns minutos, falamos sobre coisas comuns. Trabalho, trânsito, minha mãe, alguns amigos em comum. Era estranho perceber que ainda conseguíamos conversar sem conflito.

Talvez esse fosse justamente o sinal de que a relação tinha chegado ao lugar certo.

Não precisava terminar em ódio para terminar.

Quando nos levantamos, Caio não pediu abraço.

Perguntou apenas:

— Você quer que eu pare de mandar mensagem?

Pensei.

— Por enquanto, sim.

— Está bem.

Ele pegou a carteira e pagou o próprio café. Eu paguei o meu.

A simplicidade daquele gesto quase me fez rir quando pensei no início de toda a história.

Na calçada, Caio parou antes de seguir para o lado oposto.

— Ana.

— Oi?

— Eu sinto muito pelo que fiz.

Dessa vez, não havia pedido escondido na frase.

— Eu sei.

Ele assentiu e foi embora.

Fiquei alguns segundos parada antes de caminhar até o estacionamento.

Entrei no carro e apoiei as mãos no volante.

Eu havia imaginado várias vezes que uma conversa final precisaria ser grandiosa para realmente encerrar uma relação. Talvez houvesse choro, acusações, alguém correndo atrás de alguém ou uma última revelação.

Não aconteceu nada disso.

Caio reconheceu o que fez.

Eu reconheci o que aquilo mudou em mim.

E cada um aceitou a consequência.

Quando liguei o motor, senti tristeza.

Mas não peso.

Eu ainda precisava fazer uma última coisa: parar de pensar na minha decisão como uma reação ao erro de Caio e assumir que ela era, simplesmente, a vida que eu havia escolhido seguir.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1