
PARTE 8
Um mês se passou sem que eu e Caio nos encontrássemos novamente. Trocamos apenas duas mensagens curtas relacionadas a coisas práticas que tinham ficado pendentes entre nós. Ele não tentou transformar cada contato em conversa sobre reconciliação, e eu também não procurei motivos para prolongar o vínculo.
A distância fez algumas coisas ficarem mais claras.
Eu havia passado muito tempo acreditando que tomar decisões sozinha significava afastar as pessoas. Depois de tudo que aconteceu, comecei a entender que autonomia e parceria não são opostas. Uma relação saudável não exige que duas pessoas queiram sempre a mesma coisa; exige que nenhuma delas trate a vontade da outra como um obstáculo que precisa ser vencido.
Minha rotina com o carro já estava completamente estabelecida.
No começo, cada estacionamento apertado me deixava nervosa. Depois de algumas semanas, parei de pensar tanto. Eu ainda dirigia com cuidado, mas aquele medo de ser “inexperiente demais” desaparecia um pouco a cada dia.
Certa sexta-feira, decidi visitar minha mãe.
Era a primeira vez que eu faria sozinha um trajeto mais longo desde que comprara o carro. Antes de sair, revisei combustível, pneus e rota como se estivesse preparando uma expedição. Minha mãe riu quando contei.
— Você vai dirigir algumas horas, não atravessar o país.
— Para mim já é bastante.
— Então vá no seu ritmo.
Cheguei no início da noite.
Quando minha mãe me viu estacionando em frente à casa, saiu até o portão e ficou olhando o carro de todos os lados. Perguntou se eu estava satisfeita, abriu a porta do passageiro, mexeu no banco e reclamou que eu tinha deixado uma garrafa vazia no porta-copos.
— Você veio avaliar o carro ou fazer inspeção de limpeza? — perguntei.
— Os dois.
Rimos.
Durante o jantar, voltamos ao assunto de Caio.
Contei sobre o pedido de desculpas e sobre a conversa no café.
Minha mãe ouviu sem interromper.
— Você acha que ele mudou? — perguntou.
— Acho que começou a entender.
— Não foi isso que perguntei.
Pensei.
— Não sei. Um mês é pouco para saber se alguém mudou de verdade.
Ela assentiu.
— E você quer voltar?
A resposta não veio imediatamente, mas também não demorou tanto quanto eu imaginava.
— Não.
Minha mãe continuou comendo.
Não comemorou.
Não disse “eu sabia”.
Aquilo me deixou curiosa.
— Só isso?
— O quê?
— Achei que você fosse dizer que estou fazendo a coisa certa.
Ela colocou o garfo no prato.
— Eu dei dinheiro para você comprar um carro porque queria que tivesse mais escolhas. Não vou começar agora a escolher seu namorado por você.
Ri.
Era exatamente o tipo de resposta que eu precisava ouvir.
No dia seguinte, levei minha mãe para dar uma volta. Ela sentou no banco do passageiro e, nos primeiros vinte minutos, comentou cada motocicleta que passava perto demais, cada caminhão que mudava de faixa e cada sinal amarelo.
— Mãe.
— Estou quieta.
— Você não ficou quieta nem trinta segundos.
Ela riu.
Quando estacionamos para tomar café, ela passou a mão sobre o painel.
— Então foi esse carro que você escolheu.
— Foi.
— Gostei.
— Mesmo não custando R$ 420 mil?
Ela virou o rosto para mim.
— Por R$ 420 mil, eu esperava que o carro fizesse café sozinho.
Começamos a rir.
Aquela leveza contrastava tanto com a noite da primeira concessionária que senti uma espécie de encerramento acontecendo dentro de mim.
Não porque tudo estivesse resolvido.
Mas porque o carro já não era mais símbolo da discussão com Caio.
Era apenas parte da minha vida.
Na volta para São Paulo, parei em um posto, abasteci e continuei dirigindo. Em determinado momento, percebi que estava cantando junto com uma música no rádio sem pensar no trânsito, no medo ou no que Caio havia dito sobre eu não ter experiência suficiente.
Eu tinha aprendido.
Não de uma vez.
Não porque alguém assumiu o volante por mim.
Aprendi dirigindo.
Dias depois, recebi uma mensagem de Caio.
“Não quero invadir seu espaço. Só preciso fazer uma pergunta quando você achar que faz sentido. Se preferir que eu não procure mais, vou respeitar.”
Pensei durante algumas horas antes de responder.
“Pode perguntar.”
A resposta veio pouco depois.
“Se algum dia você perceber que eu realmente mudei, existe alguma possibilidade de a gente tentar novamente?”
Fiquei olhando para aquela pergunta por muito tempo.
Não queria responder por culpa.
Não queria responder por nostalgia.
Também não queria usar o silêncio como uma forma de punição.
Escrevi apenas:
“Eu preciso pensar no que eu quero, não no que você espera.”
Caio respondeu:
“Tudo bem.”
E, pela primeira vez, deixou a conversa terminar exatamente ali.
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