
PARTE 2
Fiquei alguns segundos olhando para Caio, esperando que ele percebesse sozinho o absurdo do que acabara de dizer. Quando vi que continuava sério, puxei a folha de pagamento para perto apenas para fechá-la e empurrá-la de volta. — Não vou transferir um centavo.
Caio apertou a mandíbula. — Para de fazer cena, Ana. — Cena é você escolher um carro para você, mandar preparar um contrato no seu nome e depois ordenar que eu pague com o dinheiro da minha mãe.
Ele virou o rosto para Lucas como se esperasse que o vendedor interviesse a favor dele. Em vez disso, perguntei diretamente: — Se o comprador no contrato é ele, eu tenho alguma obrigação de fazer esse pagamento? Lucas hesitou antes de responder que não.
Caio ficou visivelmente incomodado. Lucas explicou, com cuidado, que o processo só poderia continuar depois do pagamento e da entrega da documentação necessária, e que a transferência deveria partir de quem estivesse de acordo com a compra. — Ótimo — respondi. — Então não há compra da minha parte.
— Eu já assinei! — Caio rebateu. — Exatamente — falei. — Você assinou. Se esse carro é seu, encontre uma forma de pagar pelo seu carro.
Pela primeira vez desde que entráramos na concessionária, Caio pareceu não ter uma resposta pronta. Ele olhou para o SUV, depois para mim. — Nós somos um casal. Você está tratando tudo como se eu fosse um estranho.
— Um casal conversa antes de gastar R$ 420 mil um do outro. Um casal não decide sozinho colocar um patrimônio no próprio nome e mandar o outro pagar. Se você realmente acreditasse que “não existe meu e seu”, o contrato não estaria apenas no seu nome.
A expressão dele mudou novamente. — Homem precisa pensar na imagem da família. — E eu preciso pensar em como chegar ao trabalho com segurança. Foi para isso que minha mãe me deu o dinheiro.
Peguei minha bolsa e avisei a Lucas que não autorizava nenhum pagamento em meu nome. Ele assentiu, claramente tentando não participar mais da discussão. Caio veio atrás de mim antes que eu alcançasse a porta.
No estacionamento, ele segurou meu braço, sem força suficiente para me machucar, mas com a intenção clara de me fazer parar. Soltei-me imediatamente. — Não encosta em mim para me impedir de ir embora.
— Você acabou de me fazer passar vergonha na frente do vendedor. — Não fui eu que coloquei seu nome no contrato. — Eu achei que você confiava em mim.
Respirei fundo antes de responder. — Confiança não significa entregar R$ 420 mil porque você mandou. Você nem perguntou qual carro eu queria. Você decidiu modelo, cor, preço e proprietário antes de me incluir na conversa.
Caio passou a mão pelo cabelo, irritado. Disse que o carro serviria aos dois e que, no futuro, quando nos casássemos, tudo acabaria sendo da família. Perguntei por que, se era assim, ele não havia sugerido colocar o carro no meu nome, já que o dinheiro tinha sido dado a mim.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu que um SUV daquele porte fazia mais sentido com ele dirigindo. Foi naquele momento que percebi que não estávamos discutindo sobre carro; estávamos discutindo sobre quem tinha o direito de decidir.
— Vou para casa sozinha — falei. — E hoje eu não quero continuar essa conversa. Caio tentou dizer que eu estava exagerando, mas já estava chamando um carro por aplicativo.
Antes de entrar, olhei para ele uma última vez. — Amanhã eu vou procurar o carro que eu realmente quero. Sem você escolher por mim. E até você entender por que o que fez hoje foi errado, não temos mais nada para discutir.
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