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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

No dia em que meu marido trouxe um filho para casa e mandou que eu o criasse, eu servi chá e comecei a me despedir
PARTE 1

No dia em que meu marido entrou em casa carregando nos braços um filho que eu nunca tinha visto, ele disse apenas três frases.

A primeira foi:

— Este é meu filho.

A segunda:

— Não precisa fazer perguntas.

E a terceira:

— Crie o menino até ele crescer. Eu garanto que, pelo resto da sua vida, você não vai precisar se preocupar com dinheiro.

Não discuti.

Não levantei a voz.

Ao contrário, sorri e servi uma xícara de chá para ele.

Gustavo bebeu com uma tranquilidade impressionante, como se tudo aquilo fosse absolutamente natural.

No dia seguinte, quando voltou do trabalho, encontrou o apartamento completamente vazio.

Eu havia deixado apenas um pedaço de papel sobre a mesa.

Nele, escrevi uma única frase:

“Aquilo de que você sente tanta falta, crie você mesmo.”

Na noite em que Gustavo Valente apareceu com a criança, a luz branca do hall de entrada deixava tudo ainda mais frio.

A claridade caiu sobre o rosto dele e, logo depois, sobre o rosto do menino que estava ao seu lado.

A criança devia ter três ou quatro anos.

As sobrancelhas, o formato dos olhos, a expressão.

Era parecido demais com Gustavo para que alguém precisasse explicar muito.

Ele olhou para mim e disse, sem qualquer hesitação:

— Este é meu filho, Miguel Valente.

Sua voz era tranquila, quase indiferente, como se estivesse me informando que havia comprado alguma coisa no caminho de casa.

Abri a boca para falar.

Gustavo nem me deixou começar.

— Não precisa fazer perguntas.

A frase veio diretamente para mim.

Em seu olhar havia impaciência e aquela certeza arrogante de quem já havia decidido tudo sozinho e esperava apenas que os outros obedecessem.

Então ele disse a terceira frase:

— Crie o menino até ele crescer. Eu garanto que, pelo resto da sua vida, você não vai precisar se preocupar com dinheiro.

Quando terminou, empurrou Miguel de leve na minha direção.

O menino me olhou assustado e apertou com os dedos pequenos a barra da camisa de Gustavo.

Fiquei observando os dois.

Um homem adulto.

Uma criança.

O mesmo olhar.

As mesmas sobrancelhas.

Naquele instante, até o egoísmo de Gustavo me pareceu estampado naquela semelhança, embora eu soubesse que uma criança não tinha culpa das escolhas do pai.

O silêncio dentro da sala ficou pesado.

Eu não respondi às três frases.

Em vez disso, sorri.

Olhei para Gustavo e perguntei:

— Você deve estar cansado. Por que não se senta primeiro?

Minha voz saiu tão calma que até eu estranhei.

Gustavo pareceu aliviar os ombros.

Talvez tivesse imaginado que eu reagiria como nas discussões de outras épocas.

Que gritaria.

Que choraria.

Que perderia o controle.

Dessa vez, porém, ele estava errado.

Entrei na cozinha e servi uma xícara de chá.

A água ainda estava quente.

Por algum motivo, pensei que aquele calor se parecia com o pouco que restava do nosso casamento.

Um calor que já estava desaparecendo.

Gustavo pegou a xícara e bebeu sem demonstrar qualquer desconforto.

Depois se acomodou no sofá e começou a falar com Miguel.

— Miguel, chama o papai.

O menino continuou quieto.

Gustavo acariciou sua cabeça.

— Miguel, esta é a nossa casa.

Nossa casa.

Fiquei parada numa parte mais escura da sala, observando aquela cena de pai e filho diante de mim.

Só consegui sentir uma ironia amarga.

Cinco anos de casamento.

Cinco anos nos quais eu havia aberto mão de tantas coisas pela nossa família.

Na cabeça de Gustavo, porém, parecia que nada daquilo tinha existido.

Quando fiquei grávida, passei meses enjoando tanto que havia dias em que mal conseguia sair da cama.

Gustavo dizia estar atolado de trabalho e não ter tempo para ficar comigo.

Quando chegou o parto, passei mais de dez horas sofrendo.

Ele ficou do lado de fora.

Assim que assinou os documentos necessários, recebeu uma ligação que chamou de urgente e se afastou para tratar de trabalho.

Nossos dois filhos, Ana e Lucca, nasceram frágeis.

Precisaram passar quinze dias sob cuidados intensivos antes que pudéssemos levá-los para casa.

E justamente durante aqueles quinze dias Gustavo viajou a trabalho.

Na época, ele me disse que tudo era pelo futuro da família.

Que precisava trabalhar.

Que precisava ganhar dinheiro.

Que queria garantir que nada faltasse aos filhos.

Naquela noite, pela primeira vez, comecei a enxergar aquelas lembranças de outra maneira.

Talvez ele nunca tivesse estado ocupado demais.

Talvez apenas estivesse ocupado cuidando de uma vida que não era a nossa.

Ocupado com a mulher de outro homem.

Ocupado com uma criança que, para o mundo, podia pertencer a outra família.

Enquanto isso, eu e nossos filhos servíamos para completar a imagem impecável que Gustavo gostava de mostrar.

A esposa.

Os filhos.

A família aparentemente perfeita.

Nada podia sair do lugar.

Nada podia manchar aquela aparência.

Gustavo terminou o chá e estendeu a xícara na minha direção.

Fez isso com a naturalidade de quem entrega uma tarefa a uma funcionária.

— Coloca mais um pouco para mim.

Peguei a xícara.

Sorri outra vez.

— Claro.

Virei-me e fui até a cozinha.

Só depois de entrar é que coloquei a xícara com força dentro da pia.

O som seco da porcelana batendo ecoou no silêncio.

Pareceu exatamente o barulho de alguma coisa dentro de mim se quebrando de uma vez.

Fiquei olhando a escuridão do lado de fora da janela.

Gustavo.

Aquele chá que eu tinha acabado de servir era o último gesto de consideração que ainda conseguia ter por você.

Era também o último vestígio de calor que eu ofereceria em nome dos nossos anos como marido e mulher.

Quando aquela xícara terminasse, tudo terminaria junto.

Apaguei a luz da cozinha e voltei para a sala.

Gustavo e Miguel já pareciam cansados.

Ele levou o menino até o quarto de hóspedes e o acomodou lá.

Pouco depois, voltou para falar comigo.

— Miguel é um menino muito tranquilo. Trate ele bem.

Assenti.

— Eu sei.

Gustavo ficou claramente satisfeito com minha obediência.

Entrou no quarto principal, tirou o casaco e começou a se preparar para o banho.

Não percebeu uma coisa.

No closet, metade do espaço onde antes ficavam minhas roupas já estava vazia havia algum tempo.

E percebeu ainda menos outra.

O jeito como eu olhava para ele já não guardava nenhum carinho.

Naquela noite, não dormi no quarto principal.

Fui para o quarto das crianças.

Ana e Lucca dormiam em suas camas pequenas.

Ana se parecia comigo.

Até dormindo, mantinha as sobrancelhas ligeiramente franzidas.

Lucca lembrava Gustavo.

Quando dormia, seu rosto ficava relaxado, sem qualquer preocupação.

Inclinei-me e beijei a testa de cada um deles.

Meus filhos.

Meu mundo tinha acabado de desabar.

Mas, por eles, eu construiria outro.

Um mundo sem mentiras.

Sem traições.

Um mundo onde amor não significasse aceitar qualquer coisa em silêncio.

Durante os seis meses anteriores, eu havia vivido como se existissem duas Helenas dentro de mim.

Durante o dia, continuava sendo a esposa atenciosa de Gustavo.

A mãe dedicada.

A mulher que cuidava da casa e dos filhos.

Mas, quando chegava a noite e todos dormiam, eu voltava a ser Helena Torres.

A mulher que havia começado a despertar desde a primeira vez em que Gustavo passou a chegar em casa perto da meia-noite.

Desde que o celular dele começou a acender sem parar com mensagens.

Desde que senti em seu casaco um perfume feminino que não era o meu.

Depois disso, parei de fazer perguntas.

Também parei de discutir.

Porque finalmente havia compreendido uma coisa.

Quando um homem começa a construir uma parede entre você e ele usando mentiras, é porque alguma parte dele já saiu daquela relação.

Desmascará-lo não faria aquela parte voltar.

E, mesmo que eu colocasse todas as contradições diante dele, o que provavelmente receberia em troca seria apenas a raiva de um homem irritado por ter sido descoberto.

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