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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Os meses seguintes mudaram a nossa rotina de uma maneira que eu jamais teria imaginado na noite em que Gustavo apareceu com Miguel.

Eu já não acordava todos os dias pensando no casamento.

Havia trabalho para fazer, crianças para levar à escola, contas para organizar, roupas para lavar e uma vida comum que lentamente começava a ocupar o espaço antes tomado pela decepção.

Na clínica, ganhei confiança aos poucos.

No início eu conferia cada tarefa duas vezes, com medo de errar depois de tanto tempo longe de uma rotina profissional. Algumas semanas depois, já conhecia os processos, os colegas e os horários mais difíceis.

O salário ainda exigia cuidado.

Mas receber meu próprio dinheiro novamente teve um valor que não cabia apenas nos números.

Ana percebeu primeiro.

Um dia, enquanto fazíamos compras, pediu um brinquedo.

Antes que eu respondesse, perguntou:

— É do dinheiro do seu trabalho?

Sorri.

— Parte dele.

Ela pareceu orgulhosa por um motivo que talvez nem compreendesse completamente.

Guardei aquele momento comigo.

Gustavo também mudara.

Não de uma maneira milagrosa e nem porque tivesse se tornado outra pessoa de uma hora para outra. Continuava sendo impaciente em alguns momentos, ainda cometia erros com os horários e, às vezes, tentava simplificar problemas que exigiam conversa.

Mas já não me telefonava perguntando como preparar tudo para as crianças.

Aprendeu.

Precisou aprender.

Miguel passou a frequentar a escola regularmente, e Gustavo organizou sua rotina em torno disso. Nos fins de semana em que Ana e Lucca ficavam com ele, os três estavam juntos quase todo o tempo.

No início meus filhos estranharam.

Depois passaram a falar de Miguel com a naturalidade das crianças.

Não eram responsáveis pela história dos adultos e, justamente por isso, conseguiam criar a própria relação.

Certa noite, Ana voltou dizendo:

— Miguel falou que queria ter uma mãe igual a você.

Meu coração apertou.

— E o que você respondeu?

— Que você é minha mãe.

Ela disse isso sem crueldade, apenas com lógica infantil.

Abracei minha filha.

— Você respondeu certo.

Na semana seguinte, Gustavo pediu para conversar pessoalmente depois de deixar as crianças.

Ficamos em frente ao prédio, sem a tensão das primeiras vezes.

— Eu sei que você disse que não quer voltar — começou.

Eu esperei.

— Mas queria saber se existe alguma coisa que eu possa fazer para mudar isso no futuro.

A pergunta não me irritou.

Talvez meses antes tivesse irritado.

Agora apenas parecia triste.

— Gustavo, você está mudando algumas coisas porque precisa ser um pai melhor e porque precisa aprender a respeitar limites. Não faça isso como uma estratégia para me recuperar.

Ele ficou calado.

— Então acabou mesmo?

— Nosso casamento, sim.

A resposta doeu nele.

Eu percebi.

Mas não tentei aliviar uma verdade só porque era desconfortável.

— Podemos construir uma relação melhor como pais da Ana e do Lucca — continuei. — Isso é importante. Mas é diferente de sermos marido e mulher.

Gustavo passou a mão pelo rosto.

— Às vezes eu penso que só entendi o que você fazia depois que precisei fazer sozinho.

— Esse é exatamente o problema.

Ele assentiu.

Não houve briga.

Nenhuma porta batida.

Nenhuma ameaça.

Foi talvez a conversa mais adulta que tivemos desde o início de tudo.

Pouco depois, chegamos a um entendimento sobre o apartamento. Gustavo permaneceria no imóvel com Miguel e cumpriria o acordo de compensação pela parte que me cabia, seguindo as condições definidas formalmente. Isso permitia que eu organizasse minha vida sem depender de uma venda imediata, e também evitava que Miguel fosse retirado de mais um lugar em meio a tantas mudanças.

Eu aceitei porque fazia sentido.

Não porque queria facilitar a vida de Gustavo.

A diferença entre essas duas razões era enorme.

As questões relacionadas a Ana e Lucca também começaram a se estabilizar. A convivência ficou definida de maneira mais previsível, e as despesas passaram a ser tratadas com mais objetividade.

Tivemos divergências.

Mas já não discutíamos sobre a existência do divórcio.

Discutíamos sobre detalhes concretos dentro de uma realidade que ambos haviam finalmente aceitado.

Um domingo, quando Gustavo trouxe as crianças, Lucca correu na minha direção e me abraçou.

Ana veio logo atrás.

Miguel permaneceu perto do carro, e Gustavo estava com a mochila dos três no ombro.

Olhei aquela cena e pensei no homem que, meses antes, havia apontado para uma criança e simplesmente dito que eu deveria criá-la.

Agora ele carregava as mochilas.

Conhecia os horários.

Sabia quais remédios cada filho usava.

Sabia que Ana não comia determinada comida e que Lucca precisava dormir cedo.

A consequência das escolhas dele não tinha sido perder dinheiro ou sofrer alguma punição espetacular.

Tinha sido muito mais simples.

Ele precisou ocupar o lugar de pai que sempre deveria ter ocupado.

E eu, ao mesmo tempo, deixei de ocupar o lugar de mulher que existia apenas para facilitar a vida dele.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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