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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Quando a fase final do divórcio se aproximou, percebi que eu já não contava os dias desde que saí de casa.

No início, cada semana parecia marcada pela ausência de Gustavo.

Depois, a vida começou a ser medida por outras coisas: os primeiros meses no trabalho, as atividades da escola, as consultas de rotina, os dias em que Ana e Lucca estavam comigo e os dias em que estavam com o pai.

A separação deixou de ser um acontecimento.

Virou parte da estrutura da nossa nova vida.

Foi nessa fase que Ana começou a fazer perguntas mais difíceis.

Ela já entendia que não voltaríamos ao apartamento antigo.

Um dia, enquanto desenhava na mesa, perguntou:

— Se o papai está sendo legal agora, por que vocês não podem casar de novo?

Sentei-me ao lado dela.

— Porque ser educado e aprender a fazer as coisas direito é importante, mas algumas decisões deixam marcas. Seu pai e eu conseguimos ser melhores como seus pais separados do que éramos vivendo juntos.

— Você ainda está brava com ele?

Pensei antes de responder.

— Eu fiquei muito magoada. Agora não preciso ficar brava todos os dias para saber que não quero voltar.

Ela pareceu aceitar a resposta.

Crianças entendem mais do que imaginamos quando falamos sem transformar a verdade numa arma.

Poucos dias depois, tive uma conversa parecida com Gustavo, embora de outra maneira.

Estávamos revisando os últimos pontos do acordo quando ele ficou olhando alguns documentos por um longo tempo.

— Tem uma frase sua que eu nunca esqueci — disse.

— Qual?

— Que você não precisava que eu te comprasse. Precisava que eu te respeitasse.

Não respondi.

Ele continuou:

— Na noite em que trouxe Miguel, eu realmente achei que estava oferecendo uma solução. Pensei que, se eu garantisse dinheiro, você acabaria aceitando.

Ouvir aquilo meses antes teria me enfurecido.

Naquele momento, apenas confirmou algo que eu já sabia.

— Eu transformei tudo que você fazia pela nossa família em uma coisa que eu considerava garantida — disse Gustavo. — E achei que podia pedir ainda mais.

— Não pediu — corrigi. — Você decidiu.

Ele baixou os olhos.

— É. Eu decidi.

A diferença parecia pequena.

Não era.

Durante muito tempo, Gustavo descrevera aquela noite como uma situação difícil que ele tentara resolver. Finalmente conseguia dizer que havia tomado uma decisão sem me considerar.

Assumir responsabilidade não apagava o dano.

Mas impedia que ele continuasse reescrevendo a história para parecer vítima das consequências.

Nossa negociação terminou sem reconciliação e sem a guerra que, durante algum tempo, pensei que seria inevitável. O apartamento continuaria com Gustavo nas condições que havíamos acertado, enquanto minha parte seria compensada formalmente. As responsabilidades com Ana e Lucca ficaram definidas de forma compatível com a renda e com o tempo de cada um.

Nada daquele processo parecia uma vitória cinematográfica.

Era papelada.

Compromissos.

Datas.

Obrigações.

Mas havia algo libertador justamente nisso.

A vida não dependia mais de promessas feitas numa sala de estar.

Dependia de decisões claras que nenhum de nós podia mudar conforme o humor.

Miguel também parecia mais tranquilo.

Nas poucas vezes em que nos encontrávamos durante as entregas das crianças, já não me observava com a expressão insegura do início. Às vezes dizia “oi”, às vezes ficava ocupado com algum brinquedo.

Eu respondia com gentileza.

Sem fingir intimidade.

Sem assumir um lugar que não era meu.

Gustavo nunca mais pediu que eu cuidasse dele.

Aquilo, por si só, dizia muito sobre quanto a realidade havia mudado.

Certa tarde, enquanto esperávamos Ana terminar uma apresentação na escola, Gustavo e eu ficamos sentados a alguns lugares de distância. Miguel estava ao lado dele e Lucca brincava perto de mim.

Nenhum de nós tentou parecer uma família que não existia.

Mesmo assim, quando Ana entrou e começou a procurar nossos rostos na plateia, encontrou os dois.

Eu acenei.

Gustavo também.

Ela sorriu.

Percebi que uma família podia mudar de formato sem necessariamente destruir tudo ao redor.

O que tinha acabado era nosso casamento.

Não o direito das crianças de serem amadas por ambos.

Quando saímos, Gustavo caminhou ao meu lado por alguns metros.

— Eu queria que tivesse sido diferente — disse.

— Eu também.

Ele me olhou, talvez esperando uma continuação.

Não havia.

Porque desejar que o passado tivesse sido diferente não significava querer repeti-lo.

Naquela noite, deitei depois que Ana e Lucca dormiram e pensei em como eu havia imaginado esse momento meses antes.

Eu esperava sentir triunfo.

Em vez disso, senti paz.

Não precisava que Gustavo sofresse para eu saber que tinha feito a escolha certa.

Precisava apenas que minha vida voltasse a me pertencer.

E, finalmente, estava voltando.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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