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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Quase um ano depois da noite em que Gustavo entrou em casa com Miguel, acordei num sábado com Lucca pulando sobre minha cama.

— Mãe, a gente vai se atrasar!

Abri os olhos e olhei o relógio.

Ele tinha razão.

Ana tinha uma apresentação na escola naquela manhã, e eu havia desligado o despertador sem perceber.

Em menos de meia hora, estávamos os três saindo de casa numa correria desorganizada, exatamente como qualquer outra família numa manhã comum.

No caminho, Ana reclamou que o cabelo estava errado.

Lucca perguntou três vezes se depois haveria lanche.

Eu dirigia ouvindo os dois e pensei, quase rindo, que aquela bagunça era muito mais parecida com felicidade do que a perfeição silenciosa que eu havia tentado manter durante meu casamento.

Gustavo já estava na escola quando chegamos.

Miguel estava ao lado dele, usando uma camiseta pequena demais porque provavelmente crescera mais rápido do que Gustavo percebera.

Quando nos viu, o menino acenou.

— Oi, Helena.

— Oi, Miguel.

Lucca correu para perto dele.

Ana foi procurar a professora.

Gustavo se aproximou.

— Achei que vocês iam perder o começo.

— Quase.

Ele sorriu.

Não havia intimidade naquele sorriso.

Também não havia ressentimento.

Era apenas o reconhecimento de duas pessoas que haviam sobrevivido à própria pior versão como casal e aprendido, com bastante dificuldade, a ocupar lugares diferentes na vida uma da outra.

Sentamos separados durante a apresentação.

Quando Ana entrou no pequeno palco, procurou primeiro por mim.

Depois por Gustavo.

Encontrou os dois.

Sorriu tão depressa que quase perdeu a posição na fila.

Eu levantei o polegar.

Gustavo fez o mesmo.

Naquele instante, tive certeza de que terminar nosso casamento não tinha significado abandonar meus filhos a uma família quebrada.

Às vezes, insistir numa relação destruída teria quebrado muito mais.

Depois da apresentação, as crianças correram pelo pátio.

Gustavo ficou comigo perto da saída.

— Miguel vai começar uma atividade nova à tarde — comentou. — Tive que reorganizar meu horário de sexta.

— Está funcionando?

— Mais ou menos.

Sorri.

— Então está normal.

Ele riu baixo.

Passamos alguns segundos observando as crianças.

Foi Gustavo quem voltou ao passado.

— Ainda tenho aquele papel que você deixou na mesa.

Eu o encarei.

— Por quê?

— Não sei. Talvez porque tenha sido a primeira coisa que você me disse que eu não consegui ignorar.

Lembrei imediatamente da frase.

“Aquilo de que você sente tanta falta, crie você mesmo.”

Naquele dia, eu a escrevera com raiva contida e uma sensação profunda de fim.

Gustavo olhou para Miguel.

— No começo eu achei que você estava só tentando me castigar. Depois percebi que eu realmente nunca tinha criado ninguém. Eu aparecia, pagava as coisas e achava que isso me tornava responsável.

Não respondi.

Ele continuou:

— Quando precisei cuidar do Miguel, e depois ficar sozinho com os três nos fins de semana, comecei a entender quanto eu tinha deixado nas suas costas.

— Você deveria ter entendido antes.

— Deveria.

Não havia desculpa.

Não havia pedido de perdão que exigisse resposta.

Apenas reconhecimento.

E isso bastava para aquela conversa.

Gustavo respirou fundo.

— Eu sinto muito pelo que fiz com você.

Olhei para ele.

Durante muito tempo imaginei que ouvir aquela frase me daria algum tipo de reparação.

Mas a verdade era mais simples.

Eu já não precisava dela para seguir em frente.

— Espero que você tenha aprendido alguma coisa com tudo isso — disse.

— Aprendi.

— Então use isso com seus filhos.

Ele assentiu.

Miguel apareceu correndo e segurou a mão do pai.

— Vamos?

Gustavo olhou para mim uma última vez.

— Até terça.

— Até terça.

Ele foi embora com Miguel.

Minutos depois, Ana e Lucca vieram correndo na minha direção.

Voltamos para casa discutindo onde almoçar.

Durante o caminho, Ana colocou música no carro e Lucca cantou a letra inteira errada.

Eu ri tanto que precisei baixar o volume.

À tarde, enquanto eles brincavam na sala, organizei algumas contas e preparei coisas para a semana seguinte.

Minha vida não tinha se transformado num conto de fadas.

Eu ainda me preocupava com dinheiro.

Ainda chegava cansada do trabalho.

Ainda discutia com Gustavo sobre horários de vez em quando.

Ainda havia dias em que Ana sentia falta de ter os pais na mesma casa.

A diferença era que nenhum desses problemas exigia que eu desaparecesse dentro da vontade de outra pessoa.

Eu tinha aprendido algo que, durante muito tempo, parecera impossível.

Segurança não era alguém prometer que eu nunca precisaria me preocupar com comida ou roupa.

Segurança era saber que eu podia fazer escolhas.

Era poder dizer não.

Era conseguir partir quando permanecer significava perder a mim mesma.

Também entendi que minha liberdade não dependia de Gustavo fracassar.

Ele podia ser um pai melhor.

Podia aprender.

Podia reconstruir a própria relação com os filhos.

Nada disso diminuía o que ele tinha feito comigo, nem me obrigava a dar outra chance ao nosso casamento.

Perdoar certas partes da história dentro de mim não significava reabrir uma porta que eu havia escolhido fechar.

No fim da tarde, encontrei Ana e Lucca dormindo juntos no sofá depois de brincarem.

Fiquei observando os dois por alguns minutos.

Quase um ano antes, eu os havia beijado numa casa onde acreditava que meu mundo tinha acabado.

Naquela noite, prometi silenciosamente que construiria outro mundo para nós.

Eu pensava que seria necessário ser forte todos os dias.

Não foi.

Houve dias em que chorei.

Dias em que tive medo.

Dias em que pensei se conseguiria pagar tudo, trabalhar, cuidar deles e lidar com o divórcio ao mesmo tempo.

Mas continuei.

Uma decisão de cada vez.

Naquela noite, preparei o jantar e acordei as crianças.

Ana reclamou.

Lucca pediu mais cinco minutos.

Eu ri e puxei a cortina para deixar a última luz do dia entrar.

O apartamento ainda era pequeno.

Ainda havia coisas que eu queria comprar.

Ainda havia planos que eu não sabia quando conseguiria realizar.

Mas tudo ali tinha uma diferença fundamental em relação à casa que abandonei.

Eu não estava vivendo uma vida escolhida por outra pessoa.

Gustavo me prometera que, se eu aceitasse criar o filho dele, nunca mais precisaria me preocupar com o resto da minha vida.

No fim, descobri que aquela promessa nunca foi o que eu precisava.

Eu não queria uma vida sem preocupações comprada em troca do meu silêncio.

Queria uma vida em que eu pudesse decidir quem seria, o que aceitaria e quando teria coragem de ir embora.

E, pela primeira vez em muitos anos, não esperei que ninguém escolhesse o caminho por mim.

Eu mesma escolhi.

E segui em frente.

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