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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Consegui o emprego na clínica duas semanas depois.

Quando recebi a confirmação, sentei-me no sofá do pequeno apartamento e fiquei olhando a mensagem por alguns minutos. Não era o cargo mais importante do mundo, nem um salário capaz de transformar minha vida de uma hora para outra, mas significava que uma parte dela voltava a depender diretamente de mim.

Os primeiros dias foram cansativos.

Eu precisava deixar Ana e Lucca na escola, seguir para o trabalho, organizar a saída e manter a rotina de casa funcionando. Algumas noites terminei o jantar quase dormindo em pé.

Mesmo assim, era um cansaço diferente.

Não havia ressentimento escondido nele.

Eu estava cansada porque construía alguma coisa para mim e para meus filhos.

Gustavo também passou a respeitar mais os horários combinados. As discussões sobre a convivência diminuíram depois que a rotina provisória ficou clara, e ele começou a buscar as crianças sem transformar cada encontro em uma tentativa de me convencer a voltar.

Pouco a pouco, Ana e Lucca compreenderam que tinham dois lugares onde o pai e a mãe moravam.

Nem sempre gostavam disso.

Eu também não fingia que era fácil.

Certa tarde, Gustavo chegou com Miguel para buscar Ana e Lucca. Enquanto ele prendia Lucca na cadeirinha, Miguel ficou parado perto de mim.

O menino me observou por alguns segundos, como fazia desde a primeira noite.

Depois perguntou baixinho:

— Você não gosta de mim?

A pergunta me atingiu de uma maneira inesperada.

Olhei para Gustavo, que parou de mexer no cinto da cadeirinha.

Então me agachei para ficar na altura de Miguel.

— Você não fez nada de errado comigo.

Ele continuou me olhando.

— Então por que você foi embora?

Respirei devagar.

Eu poderia ter dito muitas coisas.

Nenhuma delas pertencia a uma criança.

— Porque os adultos às vezes precisam morar separados quando não conseguem mais viver bem juntos. Isso é problema de adulto, Miguel. Não é culpa sua.

Ele baixou os olhos.

— Você não quer ser minha mãe?

Aquela pergunta era ainda mais difícil.

Mesmo assim, eu sabia que mentir por pena criaria uma crueldade maior depois.

— Você já tem a sua história e o seu pai. Eu sou mãe da Ana e do Lucca. Mas isso não significa que eu queira que alguma coisa ruim aconteça com você.

Miguel assentiu lentamente.

Não sei quanto ele realmente entendeu.

Talvez quase nada.

Gustavo, porém, entendeu tudo.

Quando se levantou, seu rosto parecia pesado.

— Obrigado — disse.

Era a primeira vez que me agradecia por alguma coisa relacionada a Miguel sem pressupor que eu tinha obrigação.

— Não agradeça — respondi. — Só não coloque mais esse menino no meio dos nossos erros.

Ele não reagiu.

Entrou no carro e foi embora.

Naquela noite, depois que as crianças voltaram, Ana comentou que Gustavo havia começado a preparar o café da manhã sozinho. Segundo ela, queimara o pão na primeira tentativa e Miguel tinha rido.

Lucca contou que o pai agora sabia onde ficavam os copos favoritos deles.

Pareciam detalhes insignificantes.

Para mim, eram sinais de uma mudança que deveria ter acontecido muito antes.

Gustavo estava aprendendo a cuidar dos próprios filhos não como favor, mas como obrigação e vínculo.

Alguns dias depois, ele pediu para conversar durante a entrega das crianças.

— Eu tenho pensado no que você disse — começou. — Sobre eu achar que dinheiro resolvia tudo.

Não respondi.

— Eu tratei você como se o que fazia em casa fosse automático. Como se você estivesse ali para assumir qualquer coisa que eu não quisesse ou não pudesse fazer.

Eu o observei em silêncio.

— Eu errei com você — disse.

Não havia desculpa depois da frase.

Nenhum “mas”.

Nenhum pedido imediato para voltar.

Aquilo tornou o pedido de desculpas mais sincero do que os anteriores.

— Obrigada por reconhecer — respondi.

Gustavo pareceu esperar algo mais.

Não recebeu.

Porque reconhecer uma ferida não desfazia o corte.

Ele respirou fundo.

— Isso não muda nada para você?

— Muda a maneira como podemos conversar daqui para frente. Não muda o que aconteceu.

Ele assentiu.

Pela primeira vez, não tentou argumentar.

O divórcio continuou avançando.

A proposta sobre o apartamento foi ajustada para que Gustavo pudesse permanecer ali e compensar minha parte de forma formal, dentro de condições que ambos conseguíssemos cumprir. Nada seria resolvido em uma única assinatura, mas finalmente havia um caminho possível.

Eu continuei trabalhando.

Gustavo continuou aprendendo a ser pai de maneira mais presente.

E Miguel deixou de ser o símbolo da traição na minha cabeça.

Ele passou a ser apenas o que sempre tinha sido.

Uma criança colocada numa situação que não escolheu.

Perceber isso não me fez voltar para Gustavo.

Ao contrário.

Fez minha decisão parecer ainda mais clara.

Eu podia escolher não odiar ninguém e, ainda assim, escolher não permanecer onde fui desrespeitada.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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