
PARTE 2
Foi por isso que, nos meses anteriores, eu havia parado de tentar arrancar respostas de Gustavo. Cada madrugada em que ele chegava tarde e cada silêncio estranho serviram menos para alimentar minhas perguntas e mais para me ensinar a observar. Eu já não queria uma confissão; queria estar preparada para o dia em que finalmente entendesse até onde aquela mentira chegava.
Algumas roupas minhas já tinham saído do closet aos poucos, sem chamar atenção. Documentos pessoais, coisas das crianças e objetos dos quais eu realmente não queria abrir mão também estavam separados. Eu não sabia exatamente como nosso casamento terminaria, mas sabia que não pretendia ficar sem saída quando esse momento chegasse.
Naquela noite, depois de beijar Ana e Lucca, sentei-me entre as duas camas e fiquei alguns minutos em silêncio. Do outro lado do corredor havia um menino que também não tinha escolhido estar naquela casa, e isso tornava tudo ainda mais amargo. Eu não sentia raiva de Miguel; sentia raiva do homem que havia colocado três crianças no centro das consequências das próprias escolhas.
Esperei a casa ficar completamente quieta. Gustavo dormiu no quarto principal convencido de que meu silêncio significava aceitação, enquanto eu terminava de organizar o que ainda faltava. Não levei nada que exigisse discussão naquela madrugada; peguei minhas coisas, as das crianças e o necessário para começarmos alguns dias longe dali.
Quando amanheceu, acordei Ana e Lucca cedo. Disse apenas que nós passaríamos um tempo em outro lugar e que eles não precisavam se preocupar. Nenhuma criança precisava carregar naquela manhã explicações que pertenciam aos adultos.
Antes de sair, parei alguns segundos diante da porta do quarto de hóspedes. Miguel continuava dormindo, encolhido debaixo da coberta. Eu poderia ter entrado, poderia ter feito algum gesto que Gustavo interpretaria como aceitação do papel que ele havia decidido me impor, mas não fiz isso.
Na cozinha, deixei o papel sobre a mesa. Escrevi a mesma frase que já estava inteira dentro de mim desde a noite anterior: “Aquilo de que você sente tanta falta, crie você mesmo.” Depois segurei as mãos dos meus filhos e fechei a porta do apartamento sem olhar para trás.
O lugar para onde fomos não era grande. Eu já havia organizado aquele apartamento mobiliado como uma saída provisória para o caso de precisar respirar longe de Gustavo, e naquela manhã ele deixou de ser um plano e virou nossa realidade. Ana perguntou quando voltaríamos para casa, e eu respondi que, por enquanto, aquela também seria nossa casa.
Gustavo percebeu nossa ausência horas depois, quando voltou do trabalho. O primeiro telefonema chegou antes mesmo de eu terminar de preparar o almoço das crianças. Não atendi; mandei uma mensagem dizendo que Ana e Lucca estavam comigo, estavam bem e que poderíamos conversar sobre eles por escrito.
Ele ligou novamente. Depois outra vez. Quando finalmente aceitei a chamada, sua voz não tinha medo, mas indignação: queria saber com que direito eu tinha saído levando as crianças e por que estava criando um problema tão grande por causa de algo que, segundo ele, poderia ser resolvido em família.
— Foi você quem resolveu tudo sozinho ontem — respondi. — Trouxe um filho para dentro da nossa casa e decidiu que eu seria responsável por criá-lo. Eu só tomei a primeira decisão que ainda dependia de mim.
Gustavo começou a dizer que eu estava exagerando, que Miguel precisava de estabilidade e que poderíamos conversar quando eu me acalmasse. Pela primeira vez, não senti vontade de provar nada. Apenas deixei claro que ele poderia falar comigo sobre Ana e Lucca e que qualquer discussão sobre nosso casamento aconteceria quando eu estivesse preparada.
Naquela mesma tarde, procurei orientação jurídica sobre separação, convivência com os filhos e organização dos bens construídos durante o casamento. Não pedi que ninguém resolvesse minha vida; eu precisava apenas compreender quais decisões me cabiam e quais responsabilidades continuariam sendo de nós dois. Saí da conversa sabendo que fugir indefinidamente não era uma solução, mas também sabendo que voltar por medo seria pior.
Enviei a Gustavo uma mensagem com horários para ele falar com Ana e Lucca por vídeo. Também disse que não impediria a convivência dele com os filhos, desde que combinássemos tudo com antecedência e mantivéssemos as crianças fora das nossas discussões. Era a primeira vez em cinco anos que eu estabelecia uma regra sem esperar que ele aprovasse.
Quando anoiteceu, tranquei a porta do pequeno apartamento e fiquei ouvindo Ana e Lucca brincarem no quarto. Ainda havia medo, incerteza e uma quantidade enorme de problemas pela frente. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o próximo passo da minha vida não tinha sido decidido por Gustavo.
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