
Minha filha chamou o pai no meio de uma reunião online e descobri quem meu marido realmente era diante de mais de cem executivos
PARTE 1
Meu marido estava viajando a trabalho havia três dias.
Nossa filha de cinco anos sentia tanta falta dele que se agarrou à minha perna, com os olhos vermelhos e a voz baixinha de quem estava prestes a chorar.
— Mãe, quando o papai volta? Estou com muita saudade dele.
Sorri, passei a mão pelos cabelos dela e a puxei para o meu colo.
— O papai está trabalhando dentro do computador. Quando terminar de derrotar o monstro grandão, ele volta para brincar com a Nina.
Enquanto falava, apontei para o laptop que estava no escritório.
Era o computador reserva de Lucas Vieira. Até onde eu sabia, ele praticamente nunca o levava para o trabalho.
Nina pareceu entender pelo menos uma parte da explicação. Assentiu obediente e, finalmente, parou de insistir.
Aproveitei a tranquilidade para preparar uma xícara de café e continuar terminando uma ilustração que ainda estava incompleta.
Só que, pouco depois de beber o café, senti uma cólica forte.
— Nina, brinca sozinha só um pouquinho, está bem? A mamãe vai ao banheiro.
— Tá bom.
Ela respondeu com a maior naturalidade.
Não pensei em nada demais e fui para o banheiro.
Assim que fechei a porta, o isolamento acústico do apartamento abafou quase completamente os sons do lado de fora.
Cerca de cinco minutos depois, lavei as mãos, sequei-as e abri a porta.
A sala estava silenciosa demais.
Uma inquietação estranha surgiu dentro de mim.
Os brinquedos continuavam espalhados pelo tapete, exatamente como antes, mas Nina não estava ali.
— Nina?
Chamei novamente.
Nenhuma resposta.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Olhei ao redor até perceber que a porta do escritório estava entreaberta.
Uma faixa de luz escapava lá de dentro.
Corri até o cômodo e empurrei a porta.
No instante em que vi o que estava acontecendo, senti o corpo inteiro gelar.
Nina estava em pé sobre o banquinho baixo que eu costumava usar para apoiar os pés.
Seu corpinho quase inteiro estava inclinado sobre a escrivaninha.
O laptop reserva de Lucas, que eu imaginava estar desligado havia muito tempo, estava com a tela acesa.
E a tela estava tomada por janelas de vídeo.
Havia mais de cem pessoas conectadas.
Todos usavam roupas sociais impecáveis e mantinham expressões sérias.
Na janela principal, um homem de cabelos brancos falava com uma postura imponente, enquanto os demais pareciam ouvir atentamente.
Só então percebi que o computador de Lucas tinha um sistema configurado para entrar automaticamente.
E Nina, sem saber o que estava fazendo, devia ter apertado alguma coisa.
Minha filha acabara de entrar em uma reunião estratégica trimestral do mais alto nível de uma grande empresa.
Minha mente ficou completamente em branco.
Avancei, pronta para desligar o computador.
Mas, naquele exato momento, Nina apoiou as duas mãos na mesa, ficou na ponta dos pés e aproximou o rosto da câmera.
Seus olhos redondos encararam a tela com curiosidade.
O sorriso infantil revelou os dois dentinhos da frente que ainda estavam crescendo.
Então ela perguntou, com a voz mais doce do mundo:
— Papai?
Meu movimento parou no meio do caminho.
— Papai, você está aí?
Nina chegou ainda mais perto da câmera.
— Quando você volta? A Nina está com muita saudade.
Naquele segundo, foi como se o tempo tivesse parado.
Mais de cem janelas de vídeo ficaram completamente imóveis.
O homem de cabelos brancos que estava falando permaneceu de boca aberta, como se tivesse esquecido a frase seguinte.
Mais de cem pares de olhos se voltaram para a criança que acabara de aparecer.
Depois, quase ao mesmo tempo, olharam para mim, parada atrás dela e rígida como uma estátua.
A reunião mergulhou em um silêncio sufocante.
Um segundo.
Dois segundos.
Três segundos.
De repente, o chat no canto da tela explodiu.
【!!!!!!!!】
【De quem é essa criança???】
【Quem ela acabou de chamar de papai?】
【Eu ouvi errado? Esta não é a reunião do presidente Vieira?】
【Meu Deus, isso está acontecendo mesmo?】
【Espera… por que essa menina parece familiar?】
As mensagens começaram a aparecer numa velocidade impossível de acompanhar.
Eu, porém, já não conseguia prestar atenção nelas.
Meus olhos estavam presos à janela principal.
Até alguns segundos antes, o homem de cabelos brancos ocupava aquele espaço.
Agora, a imagem havia mudado.
E o rosto que apareceu era familiar demais para que eu pudesse me enganar.
O olhar frio.
Os lábios finos apertados.
O nariz reto.
Era meu marido.
Lucas Vieira.
O homem com quem eu dividia a casa, a rotina e a criação da nossa filha era o presidente executivo daquela empresa.
E mais de cem gestores de alto escalão tinham acabado de descobrir, ao mesmo tempo, que o presidente Vieira tinha uma filha de cinco anos que o chamava de papai.
Na tela, a expressão de Lucas mudou visivelmente.
Ele, que parecia manter a calma diante de qualquer situação, levantou-se de repente.
A cadeira de couro recuou atrás dele com um ruído pesado.
— Nina.
A voz grave e familiar saiu pelos alto-falantes do computador.
Os olhos da nossa filha brilharam imediatamente.
— Papai!
Ela começou a acenar para a tela, completamente alheia ao fato de que a reunião inteira havia congelado.
— Você está mesmo dentro do computador!
Lucas ainda não tinha conseguido dizer mais nada quando Nina continuou:
— Você já derrotou o monstro?
Ela abriu um sorriso.
— A Nina está com muita saudade. A mamãe também está com saudade de você.
Eu me apressei em tirá-la do banquinho e a peguei no colo.
— Nina, não fica falando essas coisas.
Ela imediatamente passou os braços pelo meu pescoço.
— Mas eu não estou falando coisa errada.
Inclinou a cabeça e olhou novamente para a tela.
— Ontem à noite a mamãe ficou um tempão olhando a foto do papai.
Naquele instante, eu queria encontrar um buraco no chão e desaparecer dentro dele.
A atmosfera da reunião ficou ainda mais estranha.
Mais de cem executivos abaixaram a cabeça ao mesmo tempo, tentando fingir discrição, embora seus olhos continuassem escapando para a tela.
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