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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

A exposição acidental de Nina teve uma consequência que eu não havia previsto. Pessoas que trabalhavam com Lucas começaram a tratá-lo de maneira diferente. Não porque tivessem deixado de respeitá-lo profissionalmente, mas porque agora sabiam que o presidente reservado, quase sempre distante quando o assunto era vida pessoal, tinha uma família perfeitamente comum esperando por ele em casa.

Lucas comentou isso comigo uma noite enquanto organizávamos o jantar. — Estão tentando agir como se nada tivesse acontecido, mas está todo mundo muito cuidadoso.

— É desconfortável para você?

— Um pouco.

Eu quase respondi que ele sobreviveria, mas me contive. Aquilo não precisava virar uma disputa para saber quem estava sofrendo mais. — Talvez seja o preço de ter mantido duas partes da vida separadas por tempo demais.

Ele aceitou a observação.

Alguns dias depois, Lucas me contou que haviam sugerido preparar uma comunicação interna simples para evitar especulações sobre o assunto. Não pediu que eu concordasse com um texto pronto. Em vez disso, sentou-se comigo e explicou o problema antes de decidir.

Essa pequena diferença importou.

— O que você pretende dizer? — perguntei.

— Apenas que sou casado, tenho uma filha e que prefiro manter minha família fora da exposição corporativa.

— Sem nossos nomes?

— Sem seus nomes, sem foto e sem nenhum detalhe que não seja necessário.

Pensei por alguns instantes. — Para mim, tudo bem. Mas não quero que pareça que nós somos um segredo vergonhoso.

Lucas me encarou. — Nunca foram.

— Eu sei que você diz isso. Só estou explicando como pareceu durante anos.

Ele assentiu e alterou a maneira como pretendia falar. No dia seguinte, disse aos executivos apenas que a aparição de Nina tinha acontecido por acidente, que assumia a responsabilidade por ter deixado o equipamento acessível e que sua família não deveria virar assunto de trabalho.

Não houve discurso emocional nem tentativa de transformar a filha em símbolo de humanização do presidente. Isso me aliviou.

O segundo problema apareceu de uma forma quase cômica. Duas pessoas enviaram presentes para Nina por meio do escritório de Lucas. Um deles era um brinquedo caro demais para uma criança receber de alguém que nunca tinha visto.

Quando Lucas trouxe as caixas para casa, eu o encarei.

— Você pretende entregar isso a ela?

— Eu ainda não sei.

— Então vamos decidir juntos.

Abrimos as embalagens, verificamos os remetentes e concluímos que devolveríamos os presentes com agradecimento. Nina não precisava aprender que o cargo do pai significava ganhar coisas de desconhecidos.

Lucas mesmo cuidou das devoluções.

Aquilo poderia parecer pequeno para qualquer outra pessoa, mas para mim representava outra mudança concreta. Antes, ele talvez tivesse resolvido tudo sozinho e depois simplesmente me contado. Agora esperava que decisões sobre nossa filha fossem realmente nossas.

Ainda assim, confiança não voltava na mesma velocidade.

Certa tarde, enquanto terminava uma ilustração, recebi de Lucas uma mensagem avisando que chegaria tarde porque uma reunião de emergência havia se estendido. Fiquei olhando para a tela por alguns segundos e percebi que meu primeiro impulso foi imaginar se havia algo mais que ele não estava contando.

Aquilo me irritou.

Não com ele naquele instante, mas com o efeito que a mentira deixara em mim.

Quando voltou, contei exatamente o que tinha acontecido.

— Eu li sua mensagem e desconfiei automaticamente.

Lucas ficou parado ao lado da porta. — Quer que eu mostre o calendário da reunião?

— Não.

— Por quê?

— Porque não quero transformar nosso casamento em auditoria. Se eu precisar conferir cada coisa que você diz, então não existe confiança para reconstruir.

Ele pareceu entender.

— Então o que eu faço?

— Continua sendo transparente mesmo quando eu não estiver verificando. E eu observo se suas palavras combinam com suas atitudes.

Dessa vez, ele não prometeu que resolveria tudo. Apenas respondeu: — Certo.

As semanas seguintes foram estranhamente comuns. Talvez fosse justamente isso que eu precisava. Nada de grandes declarações, presentes ou viagens românticas planejadas para me convencer a esquecer. Lucas continuava no quarto de hóspedes, participava da rotina de Nina, fazia as próprias tarefas de casa e explicava sua agenda com uma clareza que antes eu nunca tinha notado que faltava.

Também comecei a reorganizar minha própria vida profissional. Por muito tempo eu aceitava trabalhos menores porque queria manter flexibilidade para cuidar da rotina de Nina quando Lucas viajava. Agora decidi estabelecer horários mais definidos e reservar parte das tardes para projetos que eu havia adiado.

Não pedi permissão.

Apenas comuniquei.

— Às terças e quintas, preciso que você organize sua agenda para buscar Nina quando estiver na cidade. Nos dias em que estiver viajando, vamos combinar outra solução.

Lucas olhou para mim, talvez percebendo que aquela decisão era mais importante do que parecia.

— Vou organizar.

— Não quero que sua agenda tenha prioridade automática só porque seu trabalho envolve uma empresa grande.

— Entendi.

A partir dali, algumas semanas exigiram ajustes. Houve dias em que Lucas precisou negociar horários, outros em que eu precisei alterar meus próprios compromissos. Nem sempre funcionou perfeitamente, mas uma coisa mudou: minha profissão deixou de ocupar o espaço que sobrava depois da dele.

Esse foi provavelmente o primeiro efeito positivo de toda aquela crise.

Eu comecei a perceber que, durante anos, sem que ele sequer precisasse pedir, eu havia me adaptado demais ao mistério em torno do trabalho de Lucas. Como eu nunca compreendia exatamente o que era urgente e o que não era, acabava assumindo que tudo era urgente.

Agora eu perguntava.

E ele respondia.

Numa sexta-feira, Nina dormiu cedo. Lucas estava prestes a ir para o quarto de hóspedes quando o chamei.

— Podemos conversar um pouco?

Ele sentou no sofá, mantendo uma distância respeitosa.

— Eu ainda não sei se consigo perdoar o que você fez — falei. — Mas não quero decidir isso no auge da raiva.

Lucas permaneceu imóvel.

— Vou observar o que acontece nos próximos meses. Não as promessas. O comportamento.

Ele respirou lentamente. — Isso significa que você quer tentar?

Pensei antes de responder.

— Significa que ainda não decidi ir embora.

Não era uma reconciliação.

Mas também já não era apenas uma reação ao choque.

Pela primeira vez, eu estava escolhendo conscientemente dar tempo à realidade para mostrar se aquele casamento podia existir sem segredos.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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