Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Com o passar das semanas, o acidente da reunião deixou de ser o assunto principal dentro da empresa. Para mim, porém, suas consequências continuavam aparecendo de formas menos visíveis. Eu já não me assustava ao ouvir Lucas mencionar reuniões do conselho ou decisões importantes. O cargo dele havia deixado de ser uma revelação e começava, aos poucos, a virar apenas uma informação sobre sua vida.

O que ainda precisava mudar era a forma como nós dois funcionávamos juntos.

Certa manhã, Lucas recebeu um convite para um evento corporativo em que normalmente compareceria acompanhado. Antes de toda aquela história, provavelmente teria inventado uma desculpa para ir sozinho. Dessa vez, veio até meu escritório com o convite nas mãos.

— Eu gostaria que você fosse comigo, mas não quero que se sinta obrigada.

Meu primeiro impulso foi recusar imediatamente.

Não queria aparecer diante de pessoas que haviam me visto naquele momento constrangedor da videochamada. Também temia que minha presença fosse interpretada como uma espécie de estreia oficial da “esposa escondida do presidente”.

— Por que você quer que eu vá?

Lucas não respondeu rápido.

— Porque é uma parte da minha vida que eu não quero continuar mantendo distante de você. Mas, se você não quiser participar, eu também preciso respeitar isso.

A resposta me pareceu diferente do homem que decidira sozinho, durante anos, que esconder aquela vida era a melhor opção.

— Vou pensar.

Passei dois dias considerando a questão. No final, percebi que eu não queria ir por obrigação, mas também não queria evitar para sempre qualquer espaço ligado ao trabalho dele apenas porque me sentia desconfortável.

Decidi ir.

Antes do evento, estabeleci algumas condições.

— Não quero entrevistas, fotos institucionais nem anúncio sobre quem eu sou.

— Tudo bem.

— E, se alguém perguntar sobre Nina, não dê detalhes.

— Certo.

— Também não vou fingir que sempre soube de tudo.

Lucas levantou uma sobrancelha.

— Alguém perguntaria isso?

— Depois daquela reunião, eu não subestimaria a curiosidade de ninguém.

Ele soltou um pequeno sorriso.

A noite do evento foi menos dramática do que eu havia imaginado. Alguns executivos me cumprimentaram com naturalidade. Outros demonstraram constrangimento. Ninguém mencionou diretamente o dia em que Nina invadira a reunião.

Até que o homem de cabelos brancos que aparecia falando quando tudo aconteceu se aproximou de nós.

Eu o reconheci imediatamente.

Ele apertou a mão de Lucas e depois se voltou para mim.

— É um prazer conhecê-la fora de uma tela desta vez.

Por um segundo, não soube se ria.

Ele percebeu.

— Desculpe. Talvez essa tenha sido uma péssima forma de começar.

Acabei sorrindo.

— Pelo menos foi sincera.

O assunto terminou ali.

Mais tarde, fiquei observando Lucas conversar com pessoas de diferentes áreas. Ele não parecia outro homem. Continuava usando os mesmos gestos, o mesmo jeito contido e a mesma mania de ouvir em silêncio antes de responder. O que mudava era o peso que os outros atribuíam a cada palavra dele.

Aquela percepção me ajudou.

Durante semanas, eu havia tratado o “presidente Lucas Vieira” como se fosse uma segunda identidade. Na verdade, era apenas meu marido exercendo uma função que eu desconhecia. O segredo estava na informação, não na existência de duas personalidades.

Isso não diminuía a mentira.

Mas tornava o problema mais preciso.

No caminho de volta, disse isso a ele.

Lucas dirigiu alguns minutos em silêncio antes de responder:

— Acho que eu também criei essa divisão na minha cabeça. Em casa eu queria ser só seu marido e pai da Nina. No trabalho, eu achava que precisava ser outra coisa.

— Você pode ter funções diferentes sem ser pessoas diferentes.

— Eu sei agora.

— Espero que continue sabendo quando a culpa passar.

Ele olhou rapidamente para mim e depois voltou os olhos para a estrada.

— Essa é uma cobrança justa.

A segunda mudança daquela fase aconteceu comigo.

Recebi uma proposta para ilustrar uma coleção infantil que exigiria mais horas de trabalho durante alguns meses. Antigamente, eu provavelmente teria recusado de imediato porque Lucas viajava demais e eu assumia quase automaticamente a maior parte da rotina de Nina.

Dessa vez, aceitei negociar o projeto.

Quando contei a Lucas, ele perguntou:

— O que precisamos organizar para você conseguir fazer?

Não “como você vai conseguir”.

“Nós.”

Mostrei os horários. Algumas semanas exigiriam que ele reduzisse compromissos noturnos quando estivesse na cidade e que planejássemos apoio com antecedência nas viagens.

Lucas verificou a agenda e concordou.

— Dá para fazer.

— Algumas reuniões suas terão que mudar.

— Então eu mudo as que puderem ser mudadas.

Foi nesse momento que percebi o quanto nossa dinâmica havia se alterado. O trabalho dele ainda era importante. O meu também.

Nenhum dos dois precisava fingir que todas as responsabilidades tinham o mesmo peso em todos os dias. Mas pela primeira vez fazíamos ajustes sem partir do princípio de que a carreira de Lucas era uma força da natureza impossível de questionar.

O projeto começou.

Eu trabalhava mais horas, mas me sentia estranhamente mais leve. Não porque tivesse menos responsabilidades, e sim porque elas estavam finalmente sendo distribuídas de maneira consciente.

Uma noite, Lucas colocou Nina para dormir enquanto eu terminava uma ilustração. Quando saí do escritório, encontrei-o dobrando algumas roupas pequenas no sofá.

— Ela pediu três histórias — disse ele.

— Você contou as três?

— Quatro.

Ri.

Ele também.

Houve um silêncio confortável entre nós, algo que não acontecia havia muito tempo.

Por impulso, sentei ao lado dele.

Lucas não tentou me tocar.

Depois de alguns minutos, fui eu quem apoiou a cabeça em seu ombro.

Senti seu corpo ficar imóvel por um instante.

— Não interprete demais — avisei.

— Não vou.

Ficamos assim por alguns minutos.

Não era perdão completo.

Não era esquecimento.

Era apenas a primeira vez, desde a descoberta, que a proximidade não parecia uma mentira.

Antes de dormir, pensei em algo que me assustou e, ao mesmo tempo, me trouxe paz: talvez eu não precisasse escolher entre apagar o que Lucas fizera e destruir tudo que construímos. Talvez existisse uma terceira possibilidade.

Continuar, mas de um jeito diferente.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1