
PARTE 2
Por alguns segundos, ninguém pareceu saber qual era a atitude correta. Lucas permanecia de pé diante da câmera, Nina continuava abraçada ao meu pescoço e eu ainda tentava compreender como o homem que dizia estar viajando a trabalho aparecia diante de mim como a pessoa mais importante daquela reunião. Não era apenas constrangimento. Era a sensação de descobrir que uma parte enorme da vida do meu marido existia sem que eu tivesse sido convidada a conhecê-la.
Lucas respirou fundo e olhou diretamente para a câmera. — Vamos encerrar por aqui e retomar os pontos restantes no horário que será comunicado pela secretaria. — A voz dele voltou a adquirir o tom controlado de antes. Ninguém discutiu, e as pequenas janelas começaram a desaparecer uma após a outra.
Nina, sem entender, ficou decepcionada. — Papai vai embora de novo? — perguntou. Lucas olhou para ela antes de a tela ficar apenas com a imagem dele. — Não, filha. O papai vai falar com você daqui a pouco. Agora eu preciso falar com a mamãe.
Eu não respondi. Peguei Nina no colo, afastei o banquinho e me certifiquei de que ela não tocaria mais no computador. Só então me sentei diante da tela. Pela primeira vez em todos os anos em que vivíamos juntos, eu não sabia como olhar para o meu próprio marido.
— Você é o presidente da empresa? — perguntei. Minha voz saiu muito mais calma do que eu me sentia. Lucas demorou um instante antes de responder: — Sou.
Uma palavra. Apenas uma palavra foi suficiente para mudar o peso de tudo que eu lembrava. As viagens, os telefonemas que ele atendia em outro cômodo, as reuniões que às vezes se prolongavam até tarde e a forma vaga como explicava o próprio trabalho passaram pela minha cabeça. Nenhuma dessas coisas provava alguma outra mentira, mas agora eu já não sabia onde terminava o que ele havia omitido.
— Há quanto tempo? — perguntei. — Não desde ontem — respondeu ele, sem tentar escapar. — Eu já ocupava uma posição de comando quando nós nos conhecemos. Depois assumi a presidência.
Fechei os olhos por um momento. Nina brincava com a gola da minha blusa, sem compreender nada. — Então, durante todo esse tempo, quando eu perguntava sobre seu trabalho, você escolhia me contar apenas a parte que queria.
Lucas não negou. — Sim. — A resposta doeu mais justamente porque veio sem rodeios. — Eu pretendia explicar isso pessoalmente há muito tempo, mas fui adiando.
— Adiando por quantos anos, Lucas? — Ele ficou em silêncio. Eu não levantei a voz, porque nossa filha estava nos meus braços, mas minha tranquilidade não significava que eu estivesse aceitando aquilo.
Nina tocou meu rosto. — Mãe, você está brava com o papai? — Olhei para ela e tentei suavizar a expressão. — A mamãe e o papai só precisam conversar sobre uma coisa de adulto. — Ela pensou por alguns segundos e respondeu: — Então não briguem muito.
Lucas abaixou o olhar. Aquela pequena frase pareceu atingi-lo de uma forma que qualquer cobrança minha talvez não atingisse. — Eu volto hoje — disse. — Vou antecipar o retorno.
Minha primeira reação foi dizer que não precisava. Depois percebi que, se eu fizesse isso, estaria adiando a conversa exatamente como ele havia feito. — Volte. Mas não volte achando que vai entrar pela porta, me abraçar e fazer tudo parecer um mal-entendido.
— Eu não acho isso.
— E também não quero explicações pela metade. Se você vai me dizer a verdade, vai dizer inteira. Pelo menos sobre isso.
Lucas assentiu. Não tentou pedir perdão naquele momento e não usou Nina para suavizar a situação. — Certo. Quando eu chegar, nós conversamos.
Olhei para a tela por alguns segundos. Aquele homem de camisa social, sentado em uma sala que eu nunca tinha visto, parecia ao mesmo tempo meu marido e um desconhecido. — Eu não estou irritada porque você ocupa um cargo importante. Estou irritada porque você decidiu sozinho que eu não precisava saber quem você era nesse pedaço da sua vida.
A expressão dele mudou. — Eu sei.
— Não. Você sabe agora que isso me feriu. É diferente.
Lucas não respondeu. Pela primeira vez, pareceu não haver uma frase preparada que pudesse organizar a situação. E talvez aquilo fosse necessário.
Antes de encerrar, Nina pediu para falar com ele mais uma vez. — Papai, você vem dormir em casa hoje? — Lucas olhou para ela e respondeu: — Vou, meu amor. — Ela sorriu satisfeita, como se a questão mais importante já estivesse resolvida.
Para mim, porém, nada estava resolvido.
Depois que a tela ficou escura, permaneci sentada diante do computador por muito tempo. Não procurei documentos, não abri pastas e não tentei descobrir mais coisas escondida. Se nosso casamento ainda tinha alguma chance de continuar sendo uma relação entre duas pessoas adultas, eu precisava ouvir a verdade dele olhando nos olhos.
Fechei o laptop e levei Nina de volta para a sala. Enquanto ela retomava os brinquedos como se nada extraordinário tivesse acontecido, eu compreendi que Lucas realmente voltaria para casa naquela noite. Mas o homem que atravessaria nossa porta precisaria, pela primeira vez, se apresentar por inteiro.
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