
Minha melhor amiga ocupou o banco da frente do carro do meu namorado, e uma simples carona deixou claro o que eu não aceitaria mais
PARTE 1
Naquele dia, a chuva caía tão forte que mal dava para enxergar o outro lado da rua.
Lucas Mendonça dirigiu até o escritório de advocacia para me buscar depois do expediente.
Eu estava prestes a abrir a porta do banco da frente quando Bianca Costa, abraçada à bolsa do computador, se adiantou e entrou primeiro.
Ela ergueu os olhos para mim e sorriu, com uma expressão quase constrangida.
— Marina, hoje eu estou meio enjoada no carro. Você não se importa, né?
Antes que eu pudesse responder, Lucas fechou a porta para ela.
— Ela ficou até três da manhã revisando os documentos. Na frente vai ficar menos cansativo.
Fiquei parada sob a chuva por dois segundos, olhando para ele em silêncio.
Aqueles documentos que Bianca supostamente tinha passado a madrugada revisando haviam sido refeitos por mim até uma da manhã.
O parecer de defesa que ela preparara estava tão descuidado que até o número do processo tinha sido copiado errado.
Pouco depois de entrarmos no carro, percebi que a barra da saia de Bianca estava molhada.
Lucas pegou meu casaco de cashmere, que estava no banco de trás, e colocou sobre as pernas dela.
— Não fica com frio. Se você pegar um resfriado, vai passar duas semanas tossindo.
Baixei os olhos para as mangas da minha roupa, completamente encharcadas.
Na noite anterior, eu tinha contado a Lucas que aquele seria o primeiro caso de valor em disputa na casa dos oito dígitos que eu havia conseguido conquistar sozinha.
Ele prometera me buscar depois do trabalho para comemorarmos.
Tinha esquecido.
Mas se lembrava de que Bianca não suportava ar-condicionado forte, de que enjoava no carro e até de que nunca colocava açúcar no café.
Depois de uns dez minutos, falei:
— Lucas, encosta o carro.
— O que foi?
— Eu vou embora sozinha.
Ele franziu a testa.
— Com essa chuva? O que você está arrumando agora?
Eu ri, sem humor.
— Não estou arrumando nada.
Olhei para ele.
— A partir de amanhã, você não precisa mais vir me buscar no escritório.
Só então Bianca se virou.
— Marina, será que você não está entendendo tudo errado…
— E eu também tenho uma coisa para dizer a você.
Olhei diretamente para ela.
— A partir de amanhã, você também não vai mais participar do meu caso.
O silêncio caiu dentro do carro.
Lucas pisou no freio com força.
— Marina Alves, você realmente precisa levar isso tão longe?
Soltei o cinto de segurança.
— Preciso.
Fiz uma pausa.
— E tem mais uma coisa.
Ele me encarou.
— Nós terminamos.
Dessa vez, eu não pretendia continuar lembrando ninguém de qual era o seu lugar.
Se alguém insistisse em ultrapassar os limites, eu simplesmente tiraria essa pessoa da minha vida.
Assim que abri um pouco a porta, a chuva entrou.
Lucas segurou meu pulso.
— Fecha a porta primeiro. Eu admito que esqueci a comemoração do seu caso. Amanhã eu compenso. E o banco da frente é só um banco. Bianca não está se sentindo bem hoje. Você precisa mesmo transformar isso em término?
Afastei a mão dele.
— Foi só a história do banco que você ouviu?
— E o que mais seria?
Meu olhar caiu sobre o casaco no colo de Bianca.
Ela imediatamente se endireitou e começou a dobrá-lo.
— Marina, eu realmente não pensei muito. Lucas me entregou e eu aceitei. Se isso incomodou você, eu devolvo agora.
Ela estendeu o casaco.
Os punhos já estavam úmidos por causa da saia molhada dela.
Não peguei.
— Coloca no banco de trás.
Lucas franziu ainda mais a testa.
— É só um casaco. Você também vai implicar com isso?
A audiência daquele dia havia terminado muito tarde.
Eu saí do fórum direto para o escritório, porque ainda precisava organizar os documentos do processo, e nem tivera tempo de jantar.
Como estava frio, eu havia levado o casaco de propósito.
Lucas percebeu quando chegou para me buscar.
Mesmo assim, cinco minutos antes, decidira que Bianca precisava mais dele do que eu.
Estendi a mão para abrir a porta novamente.
Atrás de mim, Lucas falou:
— Está bem. De agora em diante, o banco da frente é só seu. E eu não vou mais pegar suas roupas para emprestar a ninguém. Pronto?
— Ainda falta uma coisa.
Ele ficou em silêncio, esperando.
— Não fique mais levando Bianca para casa sozinho. Não saia para jantar a sós com ela. E não passe a madrugada trocando mensagens com ela. Trabalho se resolve no horário de trabalho. Se existir alguma urgência, ela tem superiores, colegas e família.
O sorriso desapareceu do rosto de Bianca.
— Marina, nós somos amigas há sete anos. Eu conheço o Lucas há quase três. Se você fala assim agora, como espera que eu fique entre vocês dois?
— Não fique entre nós.
Ela me olhou, surpresa.
— Sejam apenas colegas.
Bianca respirou fundo.
— E nós duas?
— Também seremos apenas colegas.
Os dedos dela apertaram meu casaco, e seus olhos ficaram vermelhos quase imediatamente.
A voz de Lucas mudou.
— Não desconte nela.
Olhei para ele.
— Eu acabei de falar sobre limites entre três pessoas. E a primeira coisa que você fez foi defendê-la.
— Mas ela não fez nada hoje.
— Você fez.
Dessa vez, ele não encontrou resposta.
Saí do carro, abri o guarda-chuva e pisei na poça junto à calçada.
Ouvi uma porta bater atrás de mim.
Lucas veio atrás.
Bianca continuou sentada no banco da frente.
— Marina.
Ele parou quase sob a borda do meu guarda-chuva, enquanto a chuva escorria pelos ombros de sua camisa.
— Você está nervosa hoje. Deixa eu levar você para casa. A gente conversa quando chegar.
— Leva ela primeiro.
— A casa dela fica longe.
— A minha também não fica na porta do escritório.
Por um segundo, a expressão de Lucas endureceu.
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