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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

O jantar aconteceu numa sexta-feira, depois de uma semana especialmente cansativa. Não havia decoração, surpresa ou qualquer coisa grandiosa. Éramos apenas algumas pessoas do escritório, dois amigos antigos que eu havia voltado a encontrar com mais frequência e eu, sentada no meio de uma mesa barulhenta, ouvindo conversas que se cruzavam.

Em determinado momento, alguém perguntou como eu tinha conseguido o primeiro caso grande que mudara tanta coisa na minha carreira.

Comecei a contar.

Falei das reuniões, da preparação, do medo de não estar pronta e da satisfação quando o cliente decidiu confiar em mim.

Não contei que, no dia em que eu queria celebrar aquilo pela primeira vez, meu namorado havia esquecido.

Percebi que essa parte já não parecia necessária.

Aquela conquista era minha antes de Lucas esquecê-la.

Continuava sendo minha depois.

Na segunda-feira, assumi oficialmente a rotina da nova equipe. Recebi cronogramas, distribuí tarefas, organizei uma reunião e passei a manhã tentando resolver três problemas ao mesmo tempo.

No início da tarde, Bianca apareceu na minha sala.

Era o primeiro dia na nova área dela.

— Vim me despedir oficialmente da equipe antiga — disse.

— Você vai continuar dois andares abaixo.

— Eu sei. Mas parece uma mudança maior.

Sorri.

— Talvez seja.

Ela colocou uma pequena pasta sobre minha mesa.

— São os últimos documentos que estavam comigo relacionados ao trabalho antigo. Renata já conferiu.

Abri apenas para verificar os títulos.

— Perfeito.

Bianca continuou ali.

Percebi que havia alguma coisa que ela queria dizer.

— Marina…

Esperei.

— Eu pensei muito naquela noite da chuva.

Meu corpo não ficou tenso como teria acontecido meses antes.

— Eu também.

— Durante muito tempo, eu contava a história para mim mesma de um jeito em que nada era realmente culpa minha. Eu dizia que só sentei na frente porque estava enjoada. Só aceitei o casaco porque Lucas ofereceu. Só respondia às mensagens porque ele mandava. Só comecei a namorar com ele porque vocês já tinham terminado.

Ela engoliu em seco.

— Tudo isso pode ser verdade isoladamente. Mas junto não conta a verdade inteira.

Fiquei em silêncio.

— Eu sabia que você estava desconfortável e escolhi não olhar muito para isso porque eu gostava da atenção. Depois, quando você colocou um limite, achei mais fácil dizer que estava exagerando.

Bianca respirou fundo.

— Eu sinto muito.

Não era a primeira vez que ela pedia desculpas.

Mas era a primeira vez que não havia nenhuma pergunta depois.

Nenhum “a gente pode voltar a ser como antes?”

Nenhum pedido para que eu diminuísse a consequência.

Apenas o reconhecimento.

— Obrigada por dizer isso — respondi.

Ela assentiu.

— Não espero nada.

— Eu sei.

Bianca sorriu de leve.

— Acho que finalmente aprendi essa parte.

Levantou-se.

Antes de sair, eu a chamei.

— Bianca.

Ela se virou.

— Boa sorte na nova equipe.

Dessa vez, o sorriso dela foi verdadeiro.

— Para você também.

Quando a porta se fechou, senti uma paz estranha.

Não era reconciliação.

Talvez um dia pudéssemos tomar café sem carregar tudo aquilo entre nós. Talvez nunca acontecesse.

Eu já não precisava saber.

Naquela mesma semana, Lucas me mandou uma mensagem avisando que estaria perto do escritório para uma reunião e perguntando se poderia me devolver um livro que havia encontrado entre suas coisas.

Respondi que poderia deixar na recepção.

Horas depois, a recepcionista colocou o livro sobre minha mesa.

Havia um pequeno papel dobrado dentro.

Por alguns segundos, pensei em jogar fora sem abrir.

Depois li.

“Eu devia ter escutado quando você falou pela primeira vez, não quando foi embora. Cuide-se.”

Só isso.

Nenhum pedido.

Nenhuma promessa.

Nenhuma tentativa de transformar arrependimento em obrigação minha.

Dobrei o papel novamente.

Não senti vontade de ligar para ele.

Também não senti vontade de rasgar.

Coloquei o bilhete na lixeira e guardei o livro na estante.

Era o lugar certo para cada coisa.

Na semana seguinte, uma chuva forte caiu justamente no horário em que eu saía do escritório.

Fiquei alguns segundos sob a marquise, observando a água bater no asfalto.

A cena era parecida demais com aquela de meses antes para que eu não me lembrasse.

Uma colega da minha equipe parou ao meu lado.

— Marina, quer carona? Meu carro está na garagem.

Olhei a chuva.

— Para que lado você vai?

Ela explicou.

Era quase meu caminho.

— Aceito.

Descemos juntas.

Quando chegamos ao carro, ela abriu o porta-malas para colocar algumas pastas.

Eu parei ao lado da porta do passageiro.

Por um segundo, quase ri.

Minha colega percebeu.

— O que foi?

— Nada. Uma lembrança antiga.

Entrei no banco da frente.

Não havia ninguém disputando aquele lugar.

Mas, mais importante, eu já não precisava dele para provar nada.

No caminho, ela comentou sobre uma apresentação da semana seguinte e confessou que estava nervosa.

— Se eu travar, você assume? — perguntou.

Meu antigo instinto quase respondeu sim.

Em vez disso, pensei.

— Se você travar, eu ajudo. Mas a apresentação continua sendo sua.

Ela riu.

— Justo.

Olhei pela janela.

Essa era a diferença.

Ajudar alguém não significava carregar tudo.

Amar alguém não significava aceitar qualquer coisa.

Perdoar não significava voltar.

E estabelecer limites não significava ser cruel.

Demorei anos para aprender coisas que agora pareciam óbvias.

Quando cheguei em casa, a chuva já estava diminuindo.

Subi, tirei os sapatos e vi o casaco novo pendurado perto da porta.

Meses antes, eu havia acreditado que o pior daquela noite tinha sido ver meu casaco sobre as pernas de outra mulher.

Agora entendia que aquilo só fora o momento em que uma verdade antiga se tornou impossível de ignorar.

Eu estava cansada de ficar em segundo plano na minha própria vida.

Na manhã seguinte, acordei cedo para revisar a apresentação da equipe.

Preparei café, abri o computador e encontrei uma mensagem do sócio responsável confirmando que, dali em diante, eu teria autonomia para montar a equipe dos novos casos sob minha coordenação.

Sorri.

Não era um prêmio por ter sofrido.

Não era o universo compensando uma injustiça.

Era apenas consequência do trabalho que eu tinha feito.

Assim como perder Lucas fora consequência das escolhas dele.

Assim como a distância entre mim e Bianca fora consequência das escolhas de nós duas.

A vida era menos dramática do que eu imaginava quando estava no meio da dor.

E, talvez por isso mesmo, mais justa de um jeito silencioso.

Algumas semanas depois, encontrei Bianca no elevador.

Ela estava com colegas da nova área e parecia mais segura.

— Oi — disse.

— Oi.

Conversamos rapidamente sobre uma reunião comum às duas equipes.

Quando as portas abriram no meu andar, ela falou:

— Marina.

Olhei para trás.

— Obrigada por não ter me salvado daquela vez.

Entendi imediatamente.

Sorri.

— Você não precisava ser salva.

As portas se fecharam.

Caminhei até minha sala.

Sobre a mesa havia documentos, uma agenda cheia e problemas suficientes para ocupar o dia inteiro.

Mas nenhum deles me parecia maior do que eu.

Antes de começar, peguei o celular e marquei um jantar para o fim de semana.

Sem motivo especial.

Sem esperar uma conquista extraordinária.

Sem esperar que alguém lembrasse por mim.

Eu queria sair.

Então sairia.

Na sexta-feira, quando deixei o escritório, não chovia.

Parei na calçada por alguns segundos enquanto a cidade seguia ao meu redor.

Carros passavam, pessoas corriam para o metrô, outras conversavam na porta dos prédios.

Meu celular estava quieto.

E eu também.

Não existia mais uma conversa pendente com Lucas.

Não existia mais uma explicação que eu precisasse arrancar de Bianca.

Não existia nenhuma disputa pelo banco da frente.

A única decisão que ainda importava era para onde eu queria ir dali em diante.

E, dessa vez, quem escolheria o caminho seria eu.

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