
PARTE 9
Liderar uma equipe trouxe um desafio diferente de tudo que eu havia feito até então. Tecnicamente, eu conhecia o trabalho. O mais difícil era aprender a distribuir tarefas sem assumir imediatamente aquilo que os outros poderiam fazer, acompanhar sem controlar e corrigir sem transformar qualquer erro em responsabilidade pessoal.
Em outras palavras, o trabalho novo me obrigava a praticar exatamente o que minha vida pessoal tinha acabado de me ensinar.
Na primeira semana, uma advogada mais jovem veio até minha sala com uma dúvida.
Expliquei o raciocínio e devolvi o documento.
Ela me olhou, esperando.
— Você não vai revisar tudo?
Quase ri.
— Vou revisar quando chegar a versão final. Primeiro quero que você faça os ajustes.
— Certo.
Depois que ela saiu, fiquei pensando em quantas vezes eu teria tomado o computador das mãos de Bianca e feito tudo sozinha.
Parecia eficiência.
Na verdade, às vezes era incapacidade de deixar os outros responderem pelo próprio trabalho.
O novo caso avançava bem, e eu comecei a receber mais autonomia dentro da equipe. Não havia transformação milagrosa: eu ainda cometia erros, precisava consultar colegas mais experientes e, em alguns dias, voltava para casa frustrada.
Mas havia uma diferença.
Eu não interpretava mais cada dificuldade como sinal de que precisava provar meu valor para alguém.
Cerca de um mês depois, Bianca entrou na minha sala para entregar um documento relacionado a uma questão administrativa.
Colocou a pasta sobre a mesa.
— Renata já revisou.
— Perfeito.
Ela hesitou.
— Posso perguntar uma coisa pessoal?
Olhei para ela.
— Pode perguntar. Não prometo responder.
Ela aceitou com um movimento de cabeça.
— Você acha que um dia a gente pode voltar a ser amiga?
A pergunta era simples.
A resposta não.
— Não sei.
Bianca pareceu surpresa.
Talvez esperasse um não definitivo.
— Eu não quero dizer que nunca — continuei. — Mas também não quero transformar perdão em obrigação de reconstruir uma relação.
— Eu entendo.
— Hoje eu consigo trabalhar com você, conversar e reconhecer que você mudou algumas coisas. Isso já é muito diferente de alguns meses atrás.
— Para mim também.
Ela ficou quieta.
— Eu sinto falta de você.
Minha garganta apertou.
— Eu também sinto falta de partes do que a gente tinha.
— Partes?
— Sete anos tiveram muita coisa boa. Eu não preciso fingir que tudo foi falso só porque terminou mal.
Os olhos dela se encheram.
— Eu achei que você nunca mais ia admitir isso.
— Admitir que existiu coisa boa não significa voltar ao mesmo lugar.
Ela assentiu.
— Certo.
Antes de sair, disse:
— Eu estou pensando em pedir transferência para outra área do escritório.
— Por minha causa?
— Em parte porque eu quero construir uma reputação que não esteja ligada a você. Nem como sua amiga, nem como a pessoa cujo trabalho você corrigia.
Aquilo me pareceu uma decisão sensata.
— Se a área fizer sentido para sua carreira, pode ser bom.
Bianca sorriu.
— Obrigada por não tentar decidir por mim.
Eu ri.
— Estou treinando.
Duas semanas depois, soube que a transferência fora aprovada. Ela continuaria no mesmo escritório, mas em outro núcleo, com projetos diferentes e uma equipe nova.
Não senti alívio nem tristeza.
Senti encerramento.
Na sexta-feira daquele mesmo período, Lucas mandou uma última mensagem.
Não havia pergunta.
“Queria dizer que comecei terapia há algumas semanas. Não estou falando isso para convencer você de nada. Só percebi que passei muito tempo achando que cuidar de alguém era antecipar pequenas necessidades, quando eu não sabia ouvir as grandes. Espero que você esteja bem.”
Li devagar.
Pensei se deveria responder.
Acabei escrevendo:
“Estou bem. Espero que você também fique.”
Nada mais.
Não precisava haver uma conversa final de duas horas.
Nem toda história terminava com duas pessoas explicando perfeitamente uma à outra tudo que aprenderam.
Às vezes bastava parar de repetir o mesmo erro.
No escritório, minha nova equipe chegou à primeira reunião importante com o cliente. Antes de começarmos, revisei a divisão das tarefas.
Cada pessoa sabia exatamente por qual parte era responsável.
Quando uma das advogadas perguntou se eu preferia apresentar sozinha para evitar riscos, neguei.
— Você preparou essa parte. Você apresenta. Se precisar, eu complemento.
Ela respirou fundo.
— Tudo bem.
A reunião ocorreu melhor do que eu esperava.
Na saída, o sócio responsável caminhou ao meu lado.
— Está formando uma boa equipe.
— Eles são bons.
— E você está deixando que sejam.
Entendi o comentário.
Sorri.
— Aprendi de um jeito difícil.
Naquela noite, resolvi fazer algo que parecia quase infantil.
Passei numa loja e comprei um casaco novo.
Não porque o antigo tivesse ficado inutilizado. Ele ainda estava no meu armário, lavado, dobrado e perfeitamente usável.
Mas eu queria outro.
Experimentei vários até encontrar um que gostasse.
Quando a vendedora perguntou se era presente, respondi:
— É.
— Para alguém especial?
Olhei meu reflexo no espelho.
— Para mim.
Ela sorriu.
Saí da loja carregando a sacola enquanto começava uma chuva fina.
Por um instante, lembrei daquela noite.
O banco da frente.
O casaco sobre as pernas de Bianca.
Lucas dizendo que era “só um lugar”.
Eu parada do lado de fora, tentando explicar que nunca tinha sido só aquilo.
Meses depois, finalmente entendi por que aquela cena tinha me afetado tanto.
Eu não estava brigando por um banco.
Estava cansada de precisar disputar consideração.
Quando cheguei em casa, tirei o casaco novo da sacola e pendurei perto da porta.
Meu celular vibrou.
Era uma mensagem de Bianca.
“Transferência começa segunda. Obrigada por tudo que você me ensinou, inclusive pelas coisas que eu só aprendi depois que você parou de fazer por mim.”
Fiquei olhando para a mensagem.
Depois respondi:
“Boa sorte na nova equipe. Faça o seu trabalho aparecer pelo que ele é.”
Ela mandou um coração discreto.
Eu não respondi com outro.
Mas sorri.
A distância entre nós já não precisava ser hostilidade.
Era simplesmente o espaço necessário para que cada uma aprendesse a sustentar a própria vida.
Na semana seguinte, marquei um jantar para comemorar oficialmente minha nova função.
Dessa vez, não esperei que ninguém lembrasse por mim.
Escolhi o lugar.
Convidei quem eu queria por perto.
E, enquanto enviava as mensagens, percebi que aquela talvez fosse a última parte da história que ainda precisava mudar.
Eu não queria mais esperar que outras pessoas decidissem quando minhas conquistas mereciam ser celebradas.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














