Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

Cerca de três semanas depois, eu já conseguia entrar no escritório sem procurar Bianca instintivamente com os olhos. Parecia uma mudança pequena, mas não era. Durante sete anos, ela tinha sido a pessoa para quem eu mandava uma mensagem quando acontecia alguma coisa engraçada, irritante ou importante. Romper uma amizade longa tinha um tipo de silêncio diferente de terminar um namoro: havia dezenas de hábitos que precisavam aprender a existir sem destino.

Profissionalmente, Bianca continuava na equipe, mas sob supervisão mais próxima. Ela não fora demitida, humilhada nem afastada de tudo, como aparentemente temera. O sócio responsável simplesmente começou a exigir que os documentos preparados por ela fossem revisados antes de seguirem para os clientes ou para o processo.

Na primeira semana, ela reagiu mal.

Na segunda, parecia mais quieta.

Na terceira, bateu à porta da minha sala com um arquivo aberto no computador.

— Você pode olhar uma coisa para mim?

Minha mão parou sobre o teclado.

— É sobre qual caso?

Ela explicou.

Não era meu processo, e ela tinha uma advogada responsável por supervisioná-la.

— Você precisa enviar para a Renata — respondi. — Ela está acompanhando esse trabalho.

Bianca fechou os olhos por um instante.

— Marina, são cinco minutos.

— Não é uma questão de cinco minutos.

— Você sempre me ajudou.

— Esse é exatamente o problema.

Ela colocou o computador sobre a mesa sem que eu tivesse pedido.

— Eu não estou pedindo para você fazer por mim. Só quero saber se a linha de argumentação faz sentido.

Empurrei o computador delicadamente de volta.

— Bianca, se eu continuar revisando seu trabalho informalmente, sua supervisora vai acreditar que está recebendo uma versão que você produziu sozinha. E eu volto para o mesmo lugar de antes.

Seu rosto ficou vermelho.

— Você está fazendo questão de me ensinar uma lição.

— Não. Estou fazendo questão de não assumir uma responsabilidade que não é minha.

Ela pegou o computador e saiu.

Naquela tarde, Lucas me ligou pela primeira vez em vários dias.

Pensei em não atender, mas imaginei que pudesse haver alguma questão prática ainda pendente.

— Oi.

— Você pode conversar?

— Depende do assunto.

Houve uma pausa.

— Bianca está tendo problemas no escritório por sua causa?

Fechei os olhos.

Era quase perfeito demais.

— Quem disse isso?

— Ela comentou que você não ajuda mais e que estão revisando tudo que ela faz.

— Então a resposta é não.

— Marina…

— Lucas, escuta com atenção. Bianca cometeu erros em um documento de um caso pelo qual eu sou responsável. O material foi analisado pelo sócio da equipe, e ele decidiu que ela precisava de supervisão. Eu não pedi punição. Pedi para não continuar refazendo o trabalho dela escondido.

— Ela está muito mal com isso.

— E por que você está me ligando?

Ele demorou para responder.

— Porque vocês eram amigas.

— Exatamente. Eram.

Lucas soltou um suspiro irritado.

— Você está levando tudo para o lado mais duro possível.

— Não. Estou separando as coisas. Se Bianca está com dificuldade profissional, ela precisa conversar com a supervisora dela. Se está com dificuldade pessoal, precisa procurar os amigos dela. Eu não sou mais a pessoa que resolve as duas coisas.

— Você fala como se ela tivesse feito algo terrível.

— Não precisa ser terrível para ser suficiente.

Desliguei pouco depois.

Durante alguns minutos, fiquei encarando o celular sobre a mesa.

Percebi então uma coisa que me incomodou mais do que a própria ligação: Lucas continuava funcionando como uma ponte entre mim e Bianca. Ela sofria, ele vinha falar comigo. Eu me afastava, ele tentava me convencer a voltar ao papel anterior.

Peguei o telefone e mandei uma mensagem objetiva.

“Não quero mais conversar sobre Bianca com você. Se houver algo relacionado a nós dois, pode me procurar. Fora isso, prefiro que cada um siga sua vida.”

Ele visualizou quase imediatamente.

Não respondeu.

Dois dias depois, o acaso resolveu me mostrar que minha mensagem tinha chegado tarde demais para impedir algumas coisas.

Eu estava em um restaurante próximo ao escritório, num jantar de aniversário de uma colega, quando vi Lucas entrar.

Bianca estava com ele.

Não estavam de mãos dadas.

Também não precisavam estar.

Ele tirou o casaco dela quando se sentaram. Bianca tocou o braço dele enquanto falava. Quando o garçom se aproximou, Lucas pediu uma bebida para ela antes mesmo de perguntar.

Reconheci a mesma atenção.

Dessa vez, porém, ela não me pertencia nem deveria pertencer.

Uma colega percebeu para onde eu estava olhando.

— Você conhece?

— Conheço.

Voltei para a conversa.

Meu coração bateu mais rápido durante alguns minutos, mas eu permaneci sentada. Não fui até a mesa deles, não tirei foto, não mandei mensagem e não inventei uma cena para exigir explicações que eu já não tinha direito de cobrar.

No dia seguinte, Bianca apareceu na minha sala antes das dez.

— Você viu a gente ontem.

Não era uma pergunta.

— Vi.

Ela fechou a porta.

— Eu queria explicar antes que alguém falasse alguma coisa.

— Não precisa.

— Precisa, sim.

Sua voz tremia.

— Eu e Lucas começamos a sair depois que vocês terminaram.

Aquilo doeu.

Não porque eu imaginasse que Lucas ficaria solteiro para sempre.

Mas porque, entre todas as pessoas do mundo, ele escolhera justamente a mulher sobre quem eu passara meses tentando estabelecer limites.

— Depois — repeti.

— Depois.

— Certo.

Ela pareceu surpresa com a minha calma.

— Você não acredita?

— Eu não disse isso.

— Então o que você está pensando?

Respirei devagar.

— Que, se vocês começaram depois, eu não vou acusar nenhum dos dois de algo que aconteceu antes. Mas o problema entre nós nunca foi apenas quando vocês decidiram chamar isso de relacionamento.

Bianca apertou a alça da bolsa.

— Não aconteceu nada enquanto vocês estavam juntos.

— Eu espero que não.

— É verdade.

— Mesmo assim, você sabia que a proximidade entre vocês estava me machucando. E, quando eu coloquei limites, sua primeira preocupação foi perguntar como você ficaria entre nós dois.

Ela desviou os olhos.

— Eu não planejei isso.

— Talvez não. Só que nem tudo que machuca alguém precisa ter sido planejado.

Bianca respirou fundo.

— Ele estava muito mal depois do término. A gente conversou, eu tentei ajudar e…

— Bianca.

Ela parou.

— Você não precisa me contar como começou.

Seu rosto perdeu a cor.

— Por quê?

— Porque eu não quero participar desse relacionamento nem como ex-namorada dele nem como ex-melhor amiga sua.

Pela primeira vez desde que tudo começara, vi Bianca sem uma resposta pronta.

Ela ficou parada por alguns segundos e então perguntou:

— Você me odeia?

Pensei antes de responder.

— Não.

Era verdade.

— Mas também não confio mais em você.

A diferença pareceu doer mais.

Ela saiu da sala sem dizer outra palavra.

Naquela noite, Lucas me mandou apenas uma mensagem.

“Eu queria que você soubesse por mim.”

Respondi:

“Agora eu sei. Não precisamos conversar sobre isso.”

Ele digitou por bastante tempo.

Nenhuma mensagem chegou.

Coloquei o celular de lado e voltei aos autos.

A confirmação de que Lucas e Bianca estavam juntos não mudou minha decisão.

Só encerrou a última dúvida que ainda existia sobre se algum dos dois realmente havia entendido o limite que eu tentara explicar naquela noite de chuva.

Não tinham entendido.

Talvez agora precisassem aprender sem mim.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1