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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Lucas me encarou como se só naquele instante tivesse percebido o peso do que acabara de dizer. Eu não precisava perguntar por que a distância da casa de Bianca parecia mais importante do que a minha; a resposta estava justamente na rapidez com que ele havia pensado nela primeiro. — É exatamente disso que estou falando — eu disse. — Para você, sempre existe uma explicação quando a prioridade é ela.

— Você está transformando gentileza em uma coisa que não existe — ele respondeu. A voz já não estava irritada, mas defensiva. — Bianca é sua amiga e também é minha amiga. Nunca pensei que precisasse pedir permissão para ajudá-la.

— Não precisa pedir permissão. Também não preciso continuar em uma relação na qual passo o tempo inteiro explicando por que certas coisas me machucam. Eu não estou proibindo você de fazer nada, Lucas. Estou dizendo que não quero mais ocupar esse lugar.

Ele abriu a boca, mas Bianca finalmente saiu do carro. Estava com meu casaco dobrado nos braços e o segurava como se não soubesse onde colocá-lo. — Marina, eu posso pedir um carro e ir embora sozinha — disse ela. — Não quero que vocês terminem por minha causa.

— Nós não estamos terminando por sua causa — respondi. — Estamos terminando pelas escolhas dele e pelas minhas. E a nossa amizade está mudando pelas suas escolhas e pelas minhas também.

Ela baixou os olhos. Lucas olhou para nós duas, visivelmente incomodado por não conseguir reduzir a discussão a um simples mal-entendido. — Então é isso? — perguntou. — Três anos acabam numa noite porque eu dei seu casaco para alguém?

— Três anos não acabaram por causa de um casaco. O casaco só tornou impossível continuar fingindo que eu não estava vendo o resto. Você lembra do enjoo dela, do café dela, do frio dela e das mensagens dela de madrugada. Ontem eu contei a coisa mais importante que aconteceu na minha carreira até agora, e você esqueceu.

O rosto dele mudou. Pela primeira vez naquela noite, Lucas não respondeu imediatamente. Bianca estendeu o casaco novamente, e eu o peguei apenas porque era meu, sem transformar aquele gesto em reconciliação. — Vou chamar um carro — falei. — Vocês podem ir.

— Eu levo você — Lucas insistiu. — Depois deixo Bianca.

— Não. Você já escolheu a ordem quando disse que a casa dela era longe. Não tente mudar agora porque percebeu como soou.

Peguei o celular e solicitei um carro por aplicativo. Lucas ficou ao meu lado durante alguns minutos, enquanto Bianca voltou para dentro do veículo para escapar da chuva. Nenhum de nós tinha mais nada que pudesse ser resolvido ali sem repetir as mesmas frases.

Quando o carro chegou, Lucas segurou a porta antes que eu entrasse. — Amanhã a gente conversa com calma. Você vai perceber que exagerou. Eu conhecia aquele tom: era a certeza de que, depois de uma noite de sono, eu voltaria ao papel de sempre.

— Amanhã eu ainda vou estar solteira — respondi. — O que pode mudar é só a maneira como vamos lidar com isso.

Durante o caminho até minha casa, silenciei as mensagens dele. Não o bloqueei, não fiz discurso e não chorei para o motorista. Eu estava cansada demais para transformar a decisão em espetáculo. Pela primeira vez, o silêncio não parecia uma forma de punição, mas uma forma de proteger o pouco de energia que ainda me restava.

Na manhã seguinte, Bianca me esperava perto da minha sala no escritório. — A gente pode conversar? — perguntou. Eu coloquei a bolsa sobre a mesa e liguei o computador antes de responder. — Sobre trabalho, sim. Sobre ontem, não durante o expediente.

Ela ficou pálida. — Você estava falando sério sobre me tirar do caso? — Eu confirmei. — O material que você entregou ontem tinha erros objetivos, inclusive o número do processo. Eu refiz praticamente tudo. Não vou mais assumir essa responsabilidade sem que isso apareça para quem supervisiona o trabalho.

— Então você vai me prejudicar porque está com raiva? — A pergunta doeu mais pelo que revelava do que pela acusação. — Não. Se eu quisesse prejudicar você, esconderia os problemas até que virassem um desastre. Vou pedir que seu trabalho seja revisado por quem deveria ter acompanhado desde o início.

Naquela mesma manhã, conversei com o sócio responsável pela equipe. Não mencionei Lucas, o banco da frente nem nossa amizade. Mostrei as versões dos documentos, expliquei quais trechos eu havia precisado refazer e pedi que Bianca fosse substituída naquela etapa específica porque eu não poderia continuar acumulando a revisão integral do trabalho dela.

Ele não tomou uma decisão instantânea. Disse que analisaria os documentos e falaria com Bianca antes de reorganizar a equipe, exatamente como deveria acontecer. Saí da sala sem a sensação de vitória; aquilo não era vingança. Era apenas a primeira vez em muito tempo que eu deixava uma responsabilidade permanecer com quem realmente a tinha.

Perto do almoço, Lucas mandou uma mensagem: “Podemos conversar depois do trabalho?” Eu respondi apenas que sim, desde que fosse em um lugar público e que ele entendesse que a conversa não significava uma negociação sobre o término. Alguns minutos depois, ele escreveu: “Eu realmente não achei que você estivesse falando sério.”

Olhei para a tela durante alguns segundos antes de guardar o celular. Talvez esse tivesse sido o problema por muito tempo: eu dizia quando algo me incomodava, ele fazia um pequeno ajuste, e depois todos voltavam ao mesmo lugar. Naquela manhã, pela primeira vez, ninguém podia contar com isso.

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