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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

A proposta de Helena foi enviada numa segunda-feira.

Não exigia uma quantia impossível.

Também não ignorava os valores já pagos para quitar o imóvel.

Camila havia organizado os números de forma que cada ponto pudesse ser explicado, e Helena revisou tudo antes de autorizar o envio.

— Tem certeza de que não quer pedir um pouco mais para ter margem de negociação? — perguntou Paulo quando a filha lhe contou.

Helena sorriu.

— Já existe margem. O que eu não quero é transformar isso numa guerra de quem consegue cansar o outro primeiro.

O pai concordou.

Nos meses anteriores, ele havia se tornado uma espécie de apoio silencioso. No começo, queria resolver tudo. Queria pagar advogado, novo apartamento, móveis e qualquer outra coisa que pudesse diminuir a dor da filha.

Agora começava a entender que ajudar Helena também significava deixá-la conduzir.

Marta teve mais dificuldade.

Quando soube que a proposta permitia uma solução sem recuperar cada centavo que Helena imaginava merecer, ficou indignada.

— Depois de tudo que ele fez?

Helena segurou a mão da mãe.

— Eu não estou perdoando dívida nenhuma. Estou escolhendo um valor que consigo justificar e uma solução que não me obrigue a viver dentro desse processo por anos.

Marta respirou fundo.

— Só não quero que você saia prejudicada.

— Eu também não.

A resposta de Marcelo demorou dez dias.

Ele recusou parte dos cálculos, mas aceitou negociar sobre uma base muito mais próxima da proposta de Helena.

Era a primeira vez que as duas posições deixavam de parecer mundos completamente diferentes.

Ainda havia divergências.

O valor dos bens não devolvidos.

Algumas despesas descontadas por Marcelo.

A forma e o prazo de pagamento.

Mas o conflito começava a sair do território emocional e entrar numa discussão concreta.

Ao mesmo tempo, a vida de Helena seguia.

No trabalho, o projeto que aceitara meses antes foi concluído com bons resultados. Seu chefe a chamou para conversar e ofereceu uma responsabilidade maior na equipe.

Não era uma promoção espetacular.

Não transformaria sua vida financeira de um dia para o outro.

Mas vinha acompanhada de um aumento e, principalmente, de reconhecimento profissional.

Helena aceitou.

Naquela noite, comprou uma pizza e chamou os pais para jantar em seu apartamento.

Paulo chegou carregando uma garrafa de refrigerante.

Marta trouxe sobremesa.

Sentados ao redor da pequena mesa, eles brindaram com copos comuns.

— À nova chefe — brincou Paulo.

— Não sou chefe de ninguém.

— Ainda.

Helena riu.

Durante o jantar, Marta contou que ela e Paulo finalmente haviam marcado a viagem que adiavam havia anos.

Usariam uma parte pequena do prêmio da loteria.

— E o restante? — Helena perguntou.

— Aplicado — respondeu Paulo. — Quero passar alguns anos sem precisar olhar para cada conta com medo.

Helena ficou feliz.

O prêmio que surgira justamente na pior noite de sua vida não havia virado solução mágica para os problemas dela.

Em vez disso, tornara-se aquilo que deveria ser desde o início: uma oportunidade para os pais que o haviam ganhado.

Depois que eles foram embora, Helena lavou os pratos e ficou algum tempo na varanda.

Seu celular tocou.

Era Marcelo.

Ela quase não atendeu.

Mas, desta vez, imaginou que talvez houvesse algum assunto prático relacionado à proposta.

— Alô?

A voz dele veio baixa.

— Posso falar dois minutos?

— Se for sobre o acordo.

Marcelo ficou em silêncio antes de responder.

— Também.

Helena apoiou uma mão na bancada.

— Então fale.

— Eu aceitei quase tudo.

— Seu advogado ainda está discutindo alguns pontos.

— Eu sei.

Houve outra pausa.

— Eu só queria dizer que sei que fiz tudo do pior jeito possível.

Helena fechou os olhos.

Não sentiu satisfação.

Nem alívio.

— Marcelo, se você está dizendo isso porque acha que vai mudar o acordo, não vai.

— Não é por isso.

— Então por quê?

Ele demorou a responder.

— Porque passei meses dizendo para mim mesmo que nosso casamento já estava acabado e que isso justificava eu resolver tudo sozinho. Não justificava.

Helena ouviu.

Não o interrompeu.

— Eu estava com medo de você impedir a venda, medo da briga, medo de ter que encarar sua família. Então achei que, se eu fizesse tudo rápido e fosse embora, depois seria só assinar o divórcio.

A explicação era covarde.

Mas, pela primeira vez, parecia real.

Não havia outra mulher.

Não havia conspiração extraordinária.

Não havia uma grande verdade escondida.

Apenas um homem que preferira fugir de um conflito e, ao fugir, criara um muito maior.

— E minha mãe piorou tudo — acrescentou Marcelo.

Helena abriu os olhos.

— Sua mãe não vendeu o apartamento sozinha.

— Eu sei.

Essa resposta importou mais do que Helena esperava.

Durante meses, Marcelo deixara Sônia ocupar boa parte das conversas, das acusações e até das justificativas.

Ouvi-lo assumir que a decisão havia sido dele não apagava nada.

Mas colocava a responsabilidade no lugar certo.

— Eu não quero voltar — disse Marcelo.

Helena quase riu.

— Eu também não.

— Eu só não queria que você achasse que tudo foi mentira.

Helena ficou em silêncio.

Pensou nas manhãs em que ele preparava café.

Nas viagens curtas.

Nas discussões pequenas.

Nos planos que haviam feito.

Talvez nem tudo tivesse sido mentira.

Mas algumas verdades posteriores tinham sido graves demais.

— Marcelo, eu não preciso decidir agora o que foi verdadeiro e o que não foi.

Ele não respondeu.

— O nosso casamento acabou. O que resta entre nós é terminar de forma correta o que você tentou encerrar sozinho.

— Entendi.

— Boa noite.

Helena desligou.

Não chorou.

Ficou um tempo olhando a cidade pela varanda.

A conversa não havia reaberto nenhuma porta.

Ao contrário.

Fechara uma das últimas.

Nos dias seguintes, os advogados avançaram na negociação.

Marcelo aceitou aumentar o valor referente aos bens não devolvidos. Também retirou dois descontos que não conseguia justificar de forma suficientemente clara.

Helena, por sua vez, concordou com pagamento dividido em duas etapas, desde que a maior parte fosse quitada na formalização do acordo.

Camila explicou os riscos e vantagens.

Helena decidiu seguir.

Ainda faltava homologação e ajustes.

Mas o caminho estava definido.

Na mesma semana, o divórcio foi formalizado.

Helena recebeu a notícia por mensagem da advogada no meio da tarde.

“Divórcio confirmado. A questão patrimonial continua conforme combinado.”

Ela leu duas vezes.

Depois bloqueou a tela.

Não houve música.

Não houve grande cena.

Ninguém apareceu para abraçá-la.

Helena apenas ficou sentada diante do computador por alguns segundos, respirou fundo e voltou ao trabalho.

À noite, quando chegou em casa, tirou a certidão antiga de casamento da pasta onde guardava documentos.

Colocou-a numa caixa.

Não rasgou.

Não queimou.

Guardou.

Depois abriu outra pasta e colocou ali o contrato do apartamento que alugara, os comprovantes de sua nova conta de economia e o documento que confirmava o novo estado civil.

Duas versões da própria vida.

Uma encerrada.

Outra ainda sendo escrita.

Antes de dormir, Helena verificou o saldo que vinha juntando para o futuro imóvel.

O número ainda estava longe de uma entrada confortável.

Mas aumentava todos os meses.

Dessa vez, ela não sentiu pressa.

Durante muito tempo, acreditara que estabilidade significava ter uma casa e um marido.

Agora começava a compreender que estabilidade era poder tomar decisões sem medo de que alguém as tomasse por ela.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

 

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